top of page

CRISE DE AUTORIDADE NA EDUCAÇÃO BÁSICA: Os dilemas da violência

há 11 minutos
5 min de leitura

*Naiara Siqueira Silva


Eu havia escrito um texto há semanas discorrendo sobre a violência contra os professores dentro das instituições escolares, pela gestão, pelos pais e pelos próprios alunos. Apontava que o professor é um agente massacrado pelas instituições escolares. O texto ficou parado porque meu namorado havia lido, a meu pedido, e me dito que faltava mais “evidências”, mais “fontes”. Deixei parado, esqueci…passou…Eis que na semana passada me deparei com essa notícia: 


“Ex-aluno entra em colégio nobre de Salvador e arremessa vaso sanitário contra professor” do Portal Correio da Bahia. 


Tudo o que está escrito abaixo foi feito ANTES dessa notícia. Aqui, digo: nós, professores, queremos NOVIDADES


-----------------------------------------------------------------------------------


Vaso Sanitário arremessado por ex aluno em direção ao seu antigo professor de Literatura do Ensino Médio, em escola de classe média alta na cidade de Salvador/BA.
Vaso Sanitário arremessado por ex aluno em direção ao seu antigo professor de Literatura do Ensino Médio, em escola de classe média alta na cidade de Salvador/BA.

É estarrecedor as notícias divulgadas nos meios oficiais de comunicação sobre a violência que professores vêm sofrendo de seus alunos dentro do ambiente escolar. Inclusive, violências advindas dos pais e ou responsáveis dos alunos. São situações de agressões físicas ou tentativa de agressão, conflitos físicos, difamações, calúnias, repressões psicológicas e hipervigilância. De qualquer modo, a instituição escolar sofre um mal da contemporaneidade: a violência como resposta aos conflitos.


Já sabe-se que a violência é e sempre foi uma resposta recorrente na humanidade e em diversos casos se faz necessária. A questão aqui é outra. A instituição escolar não ocupa, dentro dos aparelhos ideológicos do Estado, o papel de braço forte do Estado. Esse papel serve as Polícias. Mas claro, há e sempre houveram violências dentro da escola. Há quem diga que a instituição escolar por si só, nos modelos propostos é violenta, e eu concordo, desde seu currículo a sua arquitetura. 


Nesse contexto, é necessário um braço ou tentáculos, como preferirem, autoritário da instituição, e é aí que a equipe docente faz seu trabalho, ela é a contenção da geração vigente. O projeto civilizatório de sociedade promove a construção de uma equipe multidisciplinar dentro das escolas. Professores e equipe técnica com diversas funções ideológicas atribuídas. Haverá sempre o professor “carrasco” e o professor “amigão”, até parece Good Cop, Bad Cop (Policial bom, Policial Mau, em língua portuguesa). A figura do diretor ou diretora, sempre associado a alguém castrador, ou mesmo se for alguém legal já é visto como espetacular, porque lógico, o sarrafo é baixíssimo. Os bedéis pelos corredores vigilando os comportamentos, os encontros, as parcerias. O controle curricular por meio de uma equipe docente extra escola e que tem como intuito a padronização do ensino no Brasil, que por muitas vezes se estabelece com arbitrariedades e exclusões.


Digo tudo isso porque a violência contra os professores é reflexo, também, de uma crise de autoridade por parte dos professores e por parte de como a sociedade enxerga os professores. Convenhamos que se nos debruçarmos sobre o passado, relembraremos episódios de violência na escola entre alunos em que os professores se abstiveram de qualquer responsabilidade. Ou seja, o passado de alguns muitos de uma geração anterior, é o descaso dos professores para com o bullying, por exemplo. Essa geração teve filhos e hoje advogam contra os professores. Sinceramente, faz sentido! O problema é que os professores do passado, não estão mais em sala de aula e essa nova geração de professores está recebendo crianças e adolescentes com pais e ou responsáveis com aversão à escola, diferente da geração anterior de pais e ou responsáveis que embasava a autoridade dos professores. 


Os professores são agentes da Educação, como parte de todo o aparato de pessoas que circundam a instituição escolar, mas diferente dos demais agentes, os professores são os com contato direto, por excelência. Não há intermediação entre alunos e professores no fazer pedagógico. Nesse sentido ocupam o papel de personificação da instituição escolar pelos alunos e seus familiares. Aliado a tudo isso, o projeto contínuo de desvalorização da carreira docente em qualquer nível se mantém firme e forte na agenda brasileira, mesmo com avanços advindos dos anos de governo petista na unidade federativa. O esforço da elite brasileira em sucatear a Educação Pública por meio do pagamento de salários baixos aos professores, infra estrutura precarizada, formações docentes carentes de pensamento crítico, sejam eles funcionários públicos ou funcionários de instituições privadas de Ensino.


E a violência contra eles? Nesse caldeirão suculento de repressões, estigmas, preconceitos, ignorâncias, mal dizeres, cultura do cancelamento, hipervigilância, aversão ao discurso científico, ressentimentos do passado se dá a instituição escolar hoje. Que época calamitosa! Preocupante! 


Além disso, as novas tecnologias e as redes sociais engrossam o caldo pelo qual a instituição escolar está envolvida nos dias atuais. São alunos viciados em endorfina que se estimulam com as telas, baseada na recompensa rápida e pontual. Esse ambiente de exposição exacerbada e por isso, preocupação exorbitante com a imagem, com o que os outros pensam e dizem de nós. Além claro, de que qualquer vacilo pode se tornar um possível cancelamento, vídeos expostos e sua vida social e virtual completamente desacreditada. Não é fácil ser jovem nos dias de hoje. Mas como qualquer adolescente que se preze, especialmente, nas sociedades ocidentais contemporâneas, o que eles pedem é somente limite. 


Uma possível compreensão para a violência pela qual a escola e sua equipe vem sofrendo é a de que ela  não ocupa o papel de dispositivo de futuro, ou seja, o espaço onde a juventude possa ter alguma garantia de trabalho e vida digna no futuro.  Ela não responde a essas demandas e o discurso do empreendedorismo ganhou espaço, desestabilizando o poder do pensamento crítico, da compreensão das técnicas, do hábito de leitura, da socialização com os pares, da produção de conhecimento, entre outros possíveis papéis da instituição escolar. Eles não são os guias dos projetos de futuro. Esse papel ficou com a Virgínia, talvez…


De maneira alguma, a intenção desse texto é apontar as falhas dos professores, mas estamos perante uma resposta da sociedade por anos de uma Educação tradicional, conteudista, repressora, excludente e principalmente, a mando do capital. 


A crise de autoridade não se dá porque os jovens são revolucionários contra as dominações do capital e a instituição escolar e consequentemente os professores são a representação disso. A crise de autoridade dos professores se dá justamente porque eles não ocupam mais o espaço de inspiração. Essa juventude continua sendo reprimida e acuada e não somente dentro da escola. Ou melhor, não reconhecem a autoridade dos professores e da gestão escolar, por isso não temem. Não há respeito! Mas é claro que temem outros dispositivos de controle que estão sendo operados para a juventude dos dias de hoje.


________________________________________________________________

*Naiara Siqueira Silva (@nanananasiqueira) também conhecida como Naná Siqueira é Mestre em Linguística Aplicada, socióloga e educadora. Tem interesse em Educação, Cultura, Línguas e Linguagens. Monitora do Portal Soteroprosa.


REFERÊNCIAS: 





Imagem retirada do Portal Correio



Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page