CRUCIFICADOS DE HOJE: Um Ensaio Teólogico-Político Sobre a Paixão de Cristo no Tempo Presente
- Everton Nery

- há 1 dia
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A crucifixão de Jesus não é apenas um evento localizado no tempo histórico da Palestina ocupada pelo Império Romano; ela se repete, metaforicamente, em cada tempo onde a injustiça se ergue como sistema, onde os corpos são torturados em nome da ordem, e onde o sangue derramado dos inocentes ainda clama por justiça. A paixão de Cristo é, portanto, um arquétipo da dor dos que resistem e dos que são esmagados por sistemas de dominação. O madeiro da cruz é reconfigurado nas celas escuras da tortura, nos becos das periferias, nos acampamentos indígenas incendiados, nos corpos negros alvejados pelo Estado. Temos vários representantes hoje:
Jesus, o Torturado; O Cristo crucificado é hoje o indígena Yanomami esquecido, o jovem negro alvejado numa blitz policial, o transexual assassinado em silêncio, a criança faminta que morre, o corpo político do povo favelado que resiste. Jesus, torturado e pendurado entre o céu e a terra, é hoje a síntese da violência estrutural do capitalismo e do racismo de Estado. O que o açoite romano foi para Jesus, é hoje o chicote neoliberal que nega dignidade aos corpos precarizados.
Os Soldados Romanos e os Agentes do DOI-CODI. Estes soldados que bateram, cuspiram e zombaram de Jesus são os agentes da repressão de ontem e de hoje: os do DOI-CODI durante a ditadura militar brasileira, os que operavam sob a lógica da tortura institucionalizada, os que ainda hoje perpetuam a lógica da “limpeza social”. Os porões da ditadura são extensões da sala onde Jesus foi esbofeteado e onde riram de sua coroa de espinhos. A brutalidade atravessa os séculos, aperfeiçoada por novos dispositivos de poder.
Pilatos, o Governante Covarde. Pôncio Pilatos é a encarnação do governante que se lava das responsabilidades com a justiça. É o político que se omite, que joga a culpa nas mãos do povo manipulado, que terceiriza o julgamento. Hoje, Pilatos é o Congresso que se cala diante das chacinas, o Judiciário que posterga decisões sobre os povos quilombolas, é também aquele que se diz neutro diante da barbárie. A neutralidade, nesse contexto, é cumplicidade. Pilatos não é só quem entrega, é quem lava as mãos com água suja de indiferença.
Coronel Ustra como Chefe dos Centuriões. Se há um nome que ressoa com a figura do chefe dos centuriões, é o do coronel Brilhante Ustra, símbolo da tortura institucional brasileira. Sua figura representa o comando da dor, a engrenagem que ordena a humilhação. Ele é quem legitima o açoite, quem organiza o espetáculo da destruição do corpo para garantir o medo como ferramenta de governo.
E Bolsonaro, quem seria? Bolsonaro é o Herodes que teme o nascimento do novo, é o fariseu que veste o nome de Deus para legitimar a morte, é o novo César que se orgulha da violência. É aquele que grita “bandido bom é bandido morto”, é o que louva a tortura, é o que zombaria de Jesus se ele viesse como refugiado, como negro, como pobre, como gay. Não seria discípulo. Estaria com a multidão que grita “Crucifica-o!”.
Simão de Cirene faz parte dos solidários da esperança. Simão de Cirene é o trabalhador que leva marmita ao despossuídos, aos famintos, é o professor que insiste em ensinar a verdade, é o defensor público que visita presídios superlotados. É cada sujeito que, mesmo sem ter escolhido, carrega a cruz do outro porque compreende a força da compaixão política. Em cada pessoa que se solidariza com os caídos do sistema, Simão reaparece, suado, exausto, mas presente.
Os ladrões ao lado de Jesus. Os dois ladrões crucificados com Jesus representam os destinos opostos diante da dor: um se revolta e zomba; o outro reconhece a inocência de Jesus e pede memória. Eles são os pobres criminalizados, os corpos aprisionados nas estruturas punitivistas, mas também a complexidade dos sujeitos diante da opressão. Um reproduz a lógica do opressor, o outro rompe com ela. Neles, vemos os dilemas éticos da periferia: resistir ou se render à lógica da brutalidade?
O Soldado da lança, aquele que tem o corpo marcado pelo sangue. O soldado que fere Jesus e se banha de seu sangue é aquele que, sem saber, participa da revelação. Ele é o policial que chora após matar, é o torturador que adoece mentalmente após anos de violência, é o agente do sistema que se depara com o humano do outro e se vê atravessado por sua própria desumanização. O sangue de Jesus, metáfora do amor derramado, respinga em todos os que tocam o sofrimento alheio, mesmo quando a intenção inicial era ferir.
Maria, a Mãe. Maria é cada mãe de favela que sepulta seu filho assassinado pela polícia. É a Mãe de Maio, é a mulher que transforma sua dor em luta por memória e justiça. Ela está aos pés da cruz como estão as mães nas portas dos IML’s, como estão nas ruas clamando por justiça com a foto do filho no peito.
Maria Madalena e a resistência amorosa. Madalena é a mulher que se recusa a desaparecer da cena do luto, é a que unge, que toca, que ama, que não teme os corpos considerados malditos. Hoje, é a travesti que cuida dos seus, é a mulher em situação de prostituição que ampara, é a militante feminista que resgata a dignidade dos corpos femininos marginalizados. É a avó que cuida de todos. É presença amorosa e insurgente.
O Véu rasgado e a ruína do sagrado manipulado. Quando o véu do templo se rasga, cai a separação entre o sagrado e o profano, entre o que era reservado aos sacerdotes e o que era interditado ao povo. O rasgo é a metáfora da ruptura com a religião a serviço do poder. É o colapso da teologia da prosperidade, o fim da idolatria do templo, a abertura do acesso ao divino por todos os corpos. É o momento em que o sagrado desce ao chão e se encontra com o povo crucificado.
Já o Deus que chora é Aquele que não governa de cima, mas que se compadece desde dentro. É o Deus que sofre com os que sofrem, que não impede a crucificação, mas a atravessa. É o Deus que se recusa ao poder da força para ser presença solidária. O Deus que chora é aquele que vê cada desaparecido político, cada torturado, cada criança que morre por desnutrição, e não desvia o olhar, mas chora com elas.
Este texto não é apenas releitura da paixão; é denúncia. É proclamação da Paixão contínua dos povos oprimidos. Mas também é anúncio: ainda que crucificado, o Cristo ressurge nos gestos de justiça. O madeiro se transforma em memória viva, e o túmulo vazio desafia o poder de morte.

Ótima essa análise da crucificação ao relacionar com os acontecimentos sociais atuais. Mostra como, ainda hoje, os oprimidos continuam sendo “crucificados” por aqueles que se dizem religiosos e defensores dos pobres.
Muitos que se dizem seguidores de Jesus o crucificariam novamente. Muitos utilizam o seu nome como instrumento de manipulação para atrair religiosos e os oprimidos, sem consciência de sua classe, a fim de encobertar sua real face e seu mau-caratismo.
É um texto impactante que usa a crucificação de Jesus como metáfora para denunciar injustiças atuais e provocar reflexão sobre sofrimento, poder e responsabilidade social.
Eu achei o texto bem forte e reflexivo, porque ele mostra que a crucificação de Jesus não ficou só no passado, mas ainda acontece de outras formas hoje em dia, principalmente nas injustiças que a gente vê na sociedade. Ele faz a gente pensar sobre o nosso papel diante disso tudo, principalmente quando fala da omissão e da violência. Ao mesmo tempo, eu gostei porque não fica só na crítica, também traz uma ideia de esperança, mostrando que ainda existem pessoas que ajudam, resistem e lutam por um mundo melhor.
O texto nos leva a, não só, enquanto cristã que sou, reviver a páscoa, a paixão de Cristo, apenas na imagem de Jesus. Mas de perceber na nossa realidade e vivência, que pessoas são crucificadas todos os dias.
Fantástico!