DA PRÉ-ECLÂMPSIA À MÃE DE UTI
- Jacqueline Gama

- há 19 horas
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Atualizado: há 18 horas

Quando escrevo este texto faz um mês que meu filho nasceu. Estou vivenciando essa descoberta de ser mãe em casa faz 13 dias. Ele ficou 17 dias na UTI neonatal, uma experiência que não desejo para ninguém, mas que foi de grande aprendizado.
Ele nasceu com 8 meses. De 36 semanas e 6 dias, porém PIG (Pequeno para a Idade Gestacional) e com dificuldade de sucção. Infelizmente minha placenta não o alimentou direito e tive uma pré-eclâmpsia com sinais de gravidade que poderia ter matado nós dois em poucos dias.
Por sorte ou benção do destino fomos salvos pela minha mãe que é enfermeira e também passou por uma pré-eclâmpsia. Ela e meu pai me levaram de imediato ao hospital quando minha pressão subiu muito.
Mesmo com relutância da minha parte e eu quase não tendo aceitado o internamento, pensei em evadir com a pulseira laranja, porque queria sentir as contrações, algo que infelizmente não pude ter.
Aceitei toda àquela situação simbolicamente agonizante e claustrofóbica porque tive meu marido, parceiro e melhor amigo ao meu lado, em todo o processo do meu internamento e do nosso filho.
Também por estar em contato com a minha obstetra, segui a razão. Mesmo muito nervosa, sem entender a gravidade de tudo o que estava acontecendo, aceitei a condição que estava me sendo imposta pela vida.
Sabia que a pré-eclâmpsia podia ocorrer e fiz a prevenção dela em todo o pré-natal. Falo isso para tentar sanar o sentimento de culpa que ainda me ronda. Inclusive tratei dessa possibilidade em terapia: "E se eu tivesse que fazer uma cesariana de emergência?" Eu teria que fazer para sobreviver e manter meu filho vivo.
Ainda bem que tive um bom parto, levando em consideração a importância do pré-natal e uma equipe humanizada. O que poderia ter se tornado trauma virou objeto de alegria e de afeto.
Guardo com carinho as minhas memórias do parto. E sinto que transcendi na gelada mesa de cirurgia em que as luzes brancas incandescentes se transformaram em um portal para outro mundo.
Eu também fui um bebê de UTI, fiquei 20 dias internada. Com o meu filho passei pela mesma experiência que a minha mãe comigo. No caso dela talvez um pouco pior porque nasci ainda mais prematura, com 7 meses.
Tive dificuldade de respirar ao nascer, precisei maturar o pulmão, ficar numa incubadora e tive duas paradas cardíacas. Quis o destino que o caso do meu filho fosse menos grave que o meu. E que a história repetida tivesse desvios.
Porém, o meu estado de saúde como grávida, comparado com o de minha mãe à época, foi mais grave. Tanto que não visitei o meu filho em sua primeira noite. Precisei tomar Sulfato de Magnésio e por protocolo do hospital passei 3 dias na UTI: a noite em que fui internada, a noite do dia em que meu filho nasceu, até a tarde seguinte.
Apesar do afastamento dos primeiros 2 dias de vida, me senti um pouco mais feliz quando meu marido foi visitar nosso filho na primeira noite e me disse que ele havia reconhecido a sua voz.
Meu esposo foi minha principal rede de apoio, ainda que também estivesse sofrendo com tudo e estando com medo de perder a sua família.
Meu marido demostrou coragem e amor, além do papel fundamental de apoio que o homem deve ter na relação, principalmente na gravidez e, mais ainda, quando há momentos delicados na gestação, no parto e no puerpério.
Ainda estou tentando processar tudo o que aconteceu numa mistura de fé e gratidão, mas também de aprendizado.
Não queria fazer uma cesárea, mas precisei de uma. Não queria dormir longe do meu filho na sua primeira noite e gostaria de ter cuidado do umbigo dele, infelizmente não aconteceu. Mas isso não me torna menos mãe.
Nesse primeiro mês ele passou mais tempo no hospital do que de fato nos braços da mãe. Nos meus braços.
Ainda naquele lugar ouvi de uma mãe: "aqui não somos mãe de verdade", e isso me doeu, porque não existe maior amor ou doação do que aceitar a impotência de ver o filho em um local de sofrimento, e o apoiar em seu processo de recuperação.
O que ficou de aprendizado foi que o amor supera qualquer barreira. E não há força maior do que a de uma mãe fazendo de tudo para que o filho sobreviva.
As mães de UTI não são menos mães, são sobreviventes, assim como os filhos e filhas delas. Sou uma sobrevivente desde o meu nascimento ao parto do meu filho.

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