Dark Room (2021)



Por Diandra Rocha*



Conheci Rafael na academia, mas foi nas redes sociais que tive acesso aos seus processos criativos e de inclinação literária. As resenhas e comentários que ele publicava em suas redes, pareciam demonstrar como as leituras que ele fazia o atravessava. Sempre me encantou as suas análises literárias e as relações que ele conseguia estabelecer entre o texto e a teoria. Sempre imaginei como seria ler um livro feito por ele.


Quando abri as portas do quarto preto, pude ver como tal influência se dava na prática. "Dark Room" apresenta alguns traços que transbordam as regras literárias convencionais, mostrando a pluralidade e as potencialidades da literatura contemporânea brasileira. Não existem fronteiras entre o leitor e o escritor. O que aproxima o leitor da obra, e faz com que ele compreenda mais sobre a forma e sobre o todo do livro é a forma com que Rafael -autor- segura gentilmente na mão do leitor e apresenta os espaços secretos da caixa preta. Ele diz: “Vamos fazer um pacto? Quando as letras estiverem minúsculas, é André que fala. Nas outras ocasiões, sou eu, autor”.


Dessa maneira, pensar em "Dark Room" é pensar em confissões. É nesse quarto-livro-caixa, que encontro espaços para imaginar o erótico, a angústia, os astros, os oráculos e as paixões. É a partir da fragmentação da histórias de André, um professor de literatura, que mantém relações conturbadas consigo e com o mundo, e do encontro dessa história com o Ravel, aluno de letras, fã de Almodóvar, intenso e que pertence tanto ao mundo do ator-autor que, vez ou outra, aparece na narrativa um pouco de mim, um pouco do leitor. As confissões são objetivas e nos fazem pensar em novas formas de construções literárias.


“Eu não saberia dizer outra coisa. Estes foram os encontros que tive. E que guardei no cu. Literatura também é corpo, mamãe”.


Um livro provocador, inspirador, que extrapola as estruturas convencionais da ficção e do romance. É com esse livro, que Rafael Gurgel põe em prática a sua crítica, através da organização do seu texto, da apresentação dos temas e da estrutura do romance. Uma forma genial de dissecar temas que são tão caros para contemporaneidade, como a sexualidade e a afetividade do homem gay.


Do instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, para o mundo: Rafael Gurgel.