DE BUDAPESTE A MINNEAPOLIS, A BUSCA PELA LIBERDADE E A REAFIRMAÇÃO DA POLÍTICA
- Miguel Pereira Filho

- 26 de jan.
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Milhares de pessoas pacificamente tomando as ruas, em passeatas contra ações autoritárias do regime vigente. Esta descrição, que poderia ser tanto a das manifestações que começam a se espalhar por dezenas de cidades americanas, quanto a dos protestos que tomaram o Irã, faz referência ao início da Revolução Húngara, que completará 70 anos em outubro deste ano. Como venho afirmando há algum tempo, em momentos em que as brumas das incertezas tornam nossos caminhos enevoados a ponto de não termos certeza de para onde caminhar, convém olhar para o passado em busca de pistas sobre o tempo que vivemos.
Em solidariedade aos trabalhadores poloneses que haviam se insurgido na cidade de Poznań, o ato estudantil em Budapeste rapidamente se transformou em uma insurreição popular que, com trabalhadores, intelectuais e até setores das forças armadas que aderiram ao movimento, exigia eleições livres e a retirada das tropas soviéticas, que tutelavam o país húngaro sob a égide do Pacto de Varsóvia. Dias depois, a resposta do governo soviético veio por meio dos tanques que tomaram as ruas da capital húngara. Para além do massacre de milhares de manifestantes, outras centenas tiveram que abandonar seu próprio país.
Por mais que o desfecho da Revolução Húngara não tenha sido positivo, conforme observou Hannah Arendt, o episódio não poderia ser visto como um fracasso, mas sim como uma reafirmação da própria política, que para Arendt tem como característica a capacidade de, em conjunto, iniciarmos algo novo, ainda que (ou talvez por causa delas) sob condições extremas. A revolta húngara mostrou que a liberdade só pode se manifestar de maneira plena enquanto houver espaço público, ainda que de maneira fugidia.
Passados quase setenta anos dos acontecimentos em Budapeste e quase trinta e cinco desde o fim da União Soviética, a morte de Alex Pretti durante uma operação do ICE (Immigration and Customs Enforcement), em meio aos milhares que ocupam as ruas americanas, parece trazer à tona um axioma: quando a bota do soldado está sobre o pescoço de alguém, não importa se é a bota esquerda ou direita. Além disso, a morte de Renee Nicole Good soma-se aos casos de brutalidade contra qualquer pessoa que se oponha aos agentes do ICE.
Com efeito, os atos de desobediência aos agentes da imigração parecem ser impulsionados não apenas pela indignação diante de uma situação objetiva, mas pela percepção difusa de que algo mais profundo pode estar em jogo: o esgarçamento das garantias republicanas em nome da ordem, da segurança e de uma retórica nacionalista excludente. Na última sexta-feira, um memorando interno do ICE autorizou agentes a invadirem residências para prender imigrantes, sem ordem judicial, no que é um golpe direto à Quarta Emenda da Constituição americana. O ataque não é apenas a indivíduos, mas ao pacto social que é a alma da fundação dos Estados Unidos da América. A vitalidade histórica dos Estados Unidos sempre esteve ligada a esse fato: por séculos, o país foi destino de ondas sucessivas de imigrantes que, apesar de conflitos e exclusões, ampliaram o espaço público e renovaram o corpo político.
Em Sobre a Revolução, Arendt insiste que a singularidade da experiência americana reside no ato fundador – um pacto político consciente, deliberado, orientado à criação de instituições duráveis para garantir o bem mais precioso de todos: a liberdade. O Pacto de Mayflower, documento anterior à independência, foi a encarnação desse momento inaugural: homens que, antes mesmo de desembarcar, decidem se vincular por leis comuns, não por coerção, mas por promessa mútua, pelo compromisso coletivo com a liberdade.
Nesse sentido, o drama contemporâneo dos Estados Unidos é lido por muitos como mais um caso de uma democracia que estaria em transição para um regime autoritário. Do ponto de vista da literatura especializada, autores como Juan Linz e Alfred Stepan não nos autorizam a classificar os Estados Unidos como um regime autoritário, porque instituições continuam operando, eleições municipais aconteceram e tudo indica que haverá o pleito das midterms ; e os tribunais do país afora sustaram diversas medidas do governo Trump. E ainda que a tentação de associar o regime trumpista à eclosão da experiência nazista, com agentes do ICE que mais lembram os homens da SA, seja grande, a semelhança vem por outro caminho, muito mais contextual. Em tom melancólico, ao final de As Origens do Totalitarismo, Arendt nos adverte que, malgrado a experiência totalitária alemã e soviética, os elementos estruturais para o surgimento desse regime não desapareceram: tanto o racismo quanto o imperialismo continuam como tecnologias amplamente empregadas mundo afora. Assim, não é que Trump seja o novo Hitler, mas sim que a ameaça de um governo totalitário não pode ser descartada em qualquer contexto. Aquilo que caracteriza a milícia trumpista não é apenas infligir abusos pontuais, mas são sintomas de uma lógica que transforma determinados grupos em supérfluos. Se o regime nazista produziu campos de extermínio, o início do processo se deu quando populações passaram a ser consideradas descartáveis, privadas de pertencimento político.
Assim, a brutalidade das ações do ICE, ao emular práticas de expurgo, não replica o nazismo, mas aciona uma gramática política perigosa, especialmente quando respaldada por discursos oficiais. Efetivamente, o governo Trump assume a violência como a língua franca e oficial da Casa Branca, tendo na política de caça aos imigrantes uma ação de alfabetização social.
Por outro lado, as ações do governo Trump têm servido como correia de transmissão para grupos que criticam a ordem liberal, que veem em episódios como esse a manifestação da farsa da “democracia burguesa” – afinal, para quê ter direitos se eles são violados? Aqui, o diálogo com Norberto Bobbio é inevitável: as democracias vivem sob o peso de promessas não cumpridas, mas isso não invalida a Constituição como horizonte normativo.
Aliás, a crítica à democracia representativa não é nova e acompanha praticamente toda a história republicana no Brasil. Contudo, o problema não está, necessariamente, no cumprimento das leis, mas sim no esquecimento do espírito que as animou. Constituições não são apenas um conjunto de regras, mas sim o pacto social a que me referi anteriormente: um conjunto de princípios pelos quais uma sociedade se organiza.
Nesse sentido, tratar direitos como “papel inútil” é cair numa leitura empobrecida da lei. E é justamente em tempos obscuros que a Constituição deve ser vista como uma casamata, um verdadeiro abrigo institucional contra a arbitrariedade. Em nosso caso, é a Carta de 88 que tem nos servido como bússola em nossa pachorrenta marcha em direção à realização do Ocidente, lugar do qual, como muito bem lembrou José Guilherme Merquior, descendemos e pertencemos inequivocamente. O mesmo vale, mutatis mutandis, para a tradição constitucional americana.
Assim, as ações autoritárias do governo norte-americano, ao suplantarem os princípios do Pacto de Mayflower através da sua milícia imigratória, não buscam contornar empecilhos jurídicos, mas configuram uma afronta ao princípio pelo qual a nação americana se organizou. No entanto, embora a esfera do consumo – que paulatinamente transformou cidadãos em consumidores – possa ter tornado esse pacto algo esquecido, isso não significa que ele tenha desaparecido. Ele permanece como possibilidade latente — um “baú enterrado”, a herança da tradição política, à espera de ser reaberto pela ação política, como parece ser o caso.
Para muitos, os protestos em Minneapolis podem soar como trombetas do apocalipse. Mas, arendtianamente falando, talvez indiquem outra coisa: não o fim da política, mas sua reaparição. Enquanto cidadãos ainda se reúnem, protestam, desobedecem e reivindicam, o espaço público não foi inteiramente colonizado pelo medo.
A história não oferece garantias. Budapeste em 1956 ensina que a coragem não assegura vitória. Mas ensina também que a liberdade não desaparece sem deixar rastros. Se os Estados Unidos caminham perigosamente sobre o fio da navalha, a reação civil mostra que o pacto republicano ainda não foi inteiramente dissolvido. E isso já é tudo que importa: enquanto houver ação conjunta, a política ainda respira.
Referências Bibliográficas
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2016.
_____. Crises da república. Tradução de José Volkmann. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010.
_____. Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. (Edição definitiva, revista e ampliada).
_____. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. 11. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
LINZ, Juan J.; STEPAN, Alfred. Transições para e consolidação da democracia: problemas do mundo contemporâneo. Tradução de Sérgio Bath. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
MERQUIOR, José G. Um outro Ocidente. Presença, n. 18, p. 69-91, 1990.
PAXTON, Robert O. A anatomia do fascismo. Tradução de Patrícia de Queiroz Carvalho Zimbres e Eduardo G. R. Zimbres. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
Referências das imagens:
MAGNUM PHOTOS. Erich Lessing's photographs of the Hungarian Revolution. Magnum Photos, [s.d.]. Disponível em: https://www.magnumphotos.com/newsroom/conflict/erich-lessing-hungarian-revolution/. Acesso em: 26 jan. 2026.FACTORA, Adrienne; FOLKENFLIK, David (apresentadores). Minnesotans protest ICE on 'A Day Without Immigrants'. NPR, 23 jan. 2026. Disponível em: https://www.npr.org/2026/01/23/nx-s1-5686733/minnesotans-day-of-ice-protests. Acesso em: 26 jan. 2026.

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