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DEIXA O CARNAVAL PASSAR...




Ah, eu não vou mentir, eu amo o Carnaval de Salvador. Não quero dizer que amo tudo, todos os aspectos que fazem o nosso carnaval. Amo a rua, especificamente, o Circuito do Campo Grande e da Avenida Sete de Setembro, aquele movimento de antes de um trio elétrico passar, em que as pessoas se sentam no asfalto para descansar as pernas, observar os vendedores ambulantes carregados de novidades, dá tempo para um bate papo e também para combinar um plano B com rotas de fuga e ponto de reencontro, caso alguém se perca na multidão, essas coisas que fazem o carnaval.


É, já fui uma foliã bastante participativa. Saía todo ano com meu irmão mais velho, sempre com ele, divertido e protetor, não deixando que nada de mal me acontecesse, nem um empurrão ou uma pisadela no pé. Mas, de uns tempos para cá, me tornei uma foliã mais para o tipo contemplativa. Prefiro ver o Carnaval passar.


É que o tempo passa para todo mundo, não é? Para mim, passa mais rápido nos ossos e articulações dos joelhos e quadris. Costumo dizer que meus joelhos são uns 30 anos mais velhos que eu. Por isso, sair na Avenida durante o Carnaval significa ficar de pé durante horas! Eu não aguento mais fazer isso... Para compensar, uso a fotografia para tornar esse lugar de observadora mais divertido.


Todo ano eu faço planos mentais para curtir o Carnaval de Salvador: quem sabe saio de novo no Cortejo Afro? Quem sabe dou uma voltinha no Pelourinho? Como vou perder a Mudança do Garcia, na segunda-feira de Carnaval?


Comigo não tem mais essa de “me jogar e depois ver como é que fica”. Eu sou maluca, mas tenho juízo! E, Juízo é a capacidade de julgar a partir de categorias e critérios pré-estabelecidos. Saber pesar os prós e os contras antes de decidir.


A maturidade, às vezes, nos coloca bem no meio de dolorosos dilemas existenciais do tipo “Com que roupa que eu vou...” ou me deixa ficar aqui no bloco do “Concentra, mas não sai”. Eu não desejo isso para ninguém…


Mas, a gente muda, o mundo muda e o Carnaval também muda numa dinâmica que nos atravessa. A memória de outros tempos de outras idades e de outros carnavais alimenta nossa alma de boas lembranças e aí, a gente quer repetir, a gente quer mais. No fundo, todo mundo sabe que não tem repetição. Mesmo a tradição, se reinventa todos os anos!


E, tem o aspecto mais perverso: a voracidade do capitalismo, que encontra vaga em tudo, principalmente, no que para nós sempre foi só prazer e entretenimento despretensioso. O Carnaval virou um negócio de milhões!


Até os chamados foliões “pipoca”, pulam atrás de trios que custaram muito dinheiro (de nós contribuintes e de patrocinadores que monopolizam o Carnaval com sua marca).


A ideia aqui não é pensar na “indústria cultural” que o Carnaval se tornou, antes, a festa mais espontânea, a manifestação mais popular do planeta. Isso se vê, isso se sabe. O que não se vê, ou só se enxerga bem de perto, são as ilhas de genuína expressão do Carnaval não monetizado. Prestem atenção quando saírem por aí… Quem disse que não dá para ser contemplativo no Carnaval?


Meu irmão acabou de me dizer que o Carnaval no bairro do Santo Antônio além do Carmo está liberado. Ele me chamou…eu preciso pensar se vou lá conferir essa novidade. Brincar o Carnaval, será que eu vou?


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