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DEUS, CRIADOR DO BEM E DO MAL





Em Jó 2,10, diante da devastação absoluta de sua existência, Jó responde à sua mulher com uma afirmação que atravessa séculos de teologia e filosofia: “Receberemos o bem de Deus, e não receberíamos também o mal?” (Jó 2,10). Essa sentença não é apenas um lamento resignado, mas uma declaração radical da soberania divina sobre a totalidade da realidade. O texto bíblico não suaviza o escândalo: o mesmo Deus que concede a vida, a bênção e a prosperidade é reconhecido como aquele sob cuja permissão, ou ação, também irrompem o sofrimento, a perda e a dor.


Essa concepção não é isolada no livro de Jó. Em Isaías 45,7, o próprio Deus declara: “Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas essas coisas.” Aqui, o mal não aparece como um princípio autônomo, nem como uma força rival a Deus, mas como algo que, de algum modo, se inscreve na ordem do mundo governado por Ele. A teologia bíblica primitiva não opera com um dualismo metafísico rígido entre bem e mal; tudo está, de alguma forma, sob o horizonte da soberania divina.


Do ponto de vista filosófico, essa afirmação rompe com tentativas simplificadoras de absolver Deus à custa de transferir o mal para uma entidade externa, seja o diabo, seja o acaso, seja uma estrutura impessoal da realidade. O pensamento hebraico bíblico prefere sustentar a tensão ao invés de resolvê-la. O mal não é explicado, mas assumido como parte do mistério da relação entre Deus, mundo e humanidade. Nesse sentido, o livro de Jó é profundamente antiteodiceico: ele não busca justificar Deus racionalmente, mas confrontar o ser humano com os limites de sua pretensão de compreender o sentido último do sofrimento. Aqui destaque-se que teodiceico é todo esforço de explicar o mal para defender a justiça e a bondade de Deus. Já antiteodiceico é o pensamento que prefere sustentar a dor sem justificá-la, em vez de explicá-la para salvar a imagem de Deus.


Outros textos reforçam essa lógica paradoxal. Em Lamentações 3,38 lemos: “Porventura não procede do Altíssimo tanto o mal como o bem?” Já em Amós 3,6, o profeta pergunta: “Sucede algum mal na cidade, sem que o Senhor o tenha feito?” Essas afirmações não devem ser lidas como uma apologia da violência ou da injustiça, mas como a recusa bíblica de conceber um Deus domesticado, moralmente previsível ou subordinado aos critérios humanos de justiça. Deus não cabe nos esquemas éticos que o ser humano constrói para se proteger do absurdo da existência.


Filosoficamente, essa visão dialoga com tradições que recusam uma ontologia ingênua do bem. Em Agostinho, por exemplo, o mal será reinterpretado como privatio boni, ausência ou corrupção do bem. Contudo, essa solução metafísica, embora influente, não elimina a força perturbadora dos textos bíblicos. O Deus de Jó não se explica como mera ausência; Ele se manifesta como presença excessiva, que excede o entendimento humano. Quando finalmente fala, no final do livro, Deus não justifica o sofrimento de Jó, nem explica suas causas; apenas desloca a questão, revelando a assimetria radical entre o saber humano e a complexidade do real.


Teologicamente, afirmar Deus como criador do bem e do mal não significa atribuir a Ele uma moralidade perversa, mas reconhecer que o mal, enquanto experiência histórica e existencial, não escapa ao horizonte da criação. Isso desloca a responsabilidade humana: o mal não pode ser explicado apenas como vontade divina, pois a própria Escritura insiste na responsabilidade ética do ser humano. Textos como Deuteronômio 30,15: “Eis que hoje te proponho a vida e o bem, a morte e o mal”, mostram que, embora tudo esteja sob Deus, a escolha concreta pertence ao humano. Há aqui uma tensão não resolvida entre soberania divina e liberdade humana, que constitui o núcleo dramático da fé bíblica.


No Novo Testamento, essa tensão não desaparece, mas é reinterpretada à luz da cruz. Em Atos 2,23, a morte de Jesus é apresentada como resultado da maldade humana e, ao mesmo tempo, do “desígnio determinado e presciência de Deus”. O maior mal histórico torna-se, paradoxalmente, lugar de revelação e redenção. Isso não elimina o escândalo do sofrimento, mas afirma que nem mesmo o mal extremo está fora do alcance da ação divina.


Assim, a teologia bíblica não oferece uma resposta reconfortante ao problema do mal. Ela oferece, antes, uma travessia: Deus é afirmado como Senhor do bem e do mal, não para legitimar a dor, mas para impedir que o sofrimento seja interpretado como vazio absoluto ou como território abandonado por Deus. Em Jó, a fé não é recompensada por explicações, mas sustentada no abismo. Deus não é o garantidor de um mundo justo segundo critérios humanos; Ele é o fundamento último de um mundo trágico, no qual o sentido não se entrega à razão, mas se impõe como mistério.


Nesse horizonte, crer em Deus criador do bem e do mal é aceitar uma fé sem anestesia: uma fé que não nega o sofrimento, não o romantiza e não o explica plenamente, mas o enfrenta à luz de um Deus que permanece, mesmo quando tudo parece desmoronar. É uma fé que não absolve Deus, mas também não o abandona e, justamente por isso, permanece radicalmente bíblica.



IMAGEM: Portal Igreja Deus

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