DEUS SALVE A RAINHA?



No dia 8 de Setembro de 2022 foi anunciada a morte da monarca do Reino Unido, Elizabeth II. Chefe de Estado desde 1952. Nascida em 1926, muitos diziam que a rainha era imortal, inclusive vários memes utilizavam a palavra “imorrível” para adjetivar a longevidade da dona da coroa real britânica . Entretanto, o beijo da morte um dia chega para todos, sendo essa a verdade implacável da vida.


A morte da rainha nos faz lembrar que nem o trono nos tornará um deus imortal. Nem Deus poderá salvar a rainha do seu último suspiro. E não salvou.

Lembro do livro de Saramago As intermitências da morte,obra em que o autor português tece uma realidade em que a morte avisaria uma semana antes a sua chegada e assim as pessoas poderiam se preparar para a partida final. Desse modo ocorreu com a rainha que já tinha seu percurso fúnebre preparado desde 2007.


Mas além dos tramites burocráticos e materiais que a morte implica, cabe também pensar na história que será deixada para trás. A rainha tal qual personagens importantes da cultura pop e da política, dois lugares os quais ela ocupava e continuará ocupando postumamente (principalmente o primeiro) nos incube de refletir essa história de dor e glória, penumbras da família Real Britânica.


Elizabeth II foi uma personalidade que marcou seu tempo. Fez campanha com os militares durante a Segunda Guerra Mundial, apoiando a Grã-Bretanha que se opunha ao regime Nazifascista. Também foi a primeira monarca inglesa a retomar as relações com a Alemanha Ocidental , que havia sido o epicentro desse momento tenebroso da história do Ocidente, incorrendo no extermínio de milhares de judeus. A Inglaterra não tinha contato com o poder alemão desde a Primeira Guerra Mundial.


A rainha marcou a sua presença na China Continental, onde firmou posições diplomáticas que hoje são extremamente importante para as relações comerciais no mundo. Enfrentou atentados ao longo de sua vida, se mostrando resiliente, uma vez que era uma pessoa pública de grande importância mundial e não deixou de cumprir sua agenda, apesar dos riscos.


Conseguiu manter a sua popularidade em meio a crises que envolviam sua família, em especial o divórcio do Príncipe Charles com Diana e a morte da princesa, que era muito bem quista na mídia local e global. Apesar dos fatos terem abalado bastante a Grã-Bretanha, a rainha se manteve firme em seu trono.


Em 2021 a saída de seu neto Harry da monarquia, principalmente por conta de acusações de racismo dentro do Palácio de Buckingham foi uma querela para o mundo inteiro, comparada ao divorcio e a morte de Diana na década de 1990.

Mais uma vez a Família Real envolvida em um escândalo.


No fatídico dia D, a morte da rainha, várias postagens não pararam de serem compartilhadas e muitas delas comemorando o fim dessa Era. Algumas considero desrespeitosas por se tratar da morte de uma pessoa, seria no mínimo falta de respeito com os próximos da monarca. Entretanto, reconheço as incongruências da sua biografia.


Elizabeth II leva glorias em seu leito de morte, mas também um passado funesto com genocídios nas costas, principalmente dos países de África e dos países da América Central em que o Reino Unido se apropriou das riquezas e não queriam largar o osso.


Muitos desses países só conquistaram suas independências na década de 1960, depois de muito suor e sangue, e ainda assim, até hoje vivem em estado de pobreza ou de desenvolvimento, assim como a maioria dos países colonizados que tiveram riquezas roubadas.


O tratamento das ex-colônias de exploração foi/é bem diferente comparado com os demais países que compõem o Reino Unido, composto por uma maioria branca, muitos não foram explorados, mas serviram de fuga para os momentos de guerra e de tensões na Europa. Esses receberam tratamento VIP, enquanto a maioria dos países do Sul* sofreram e sofrem com o subdesenvolvimento, o extermínio, a fome e as doenças promovidas pela colonização.


Com isso não quero maldizer a rainha, acredito numa ética do respeito para com a morte, mas não acredito em ícones que tem como função na terra ser algo próximo a Deus. Muitos governantes quiseram ou querem ser Deus e nunca chegaram nem chegarão lá, afinal ninguém é imortal. Quando cito essa entidade mor, estou pensando na infalibilidade que a ideia de Deus carrega.

Apesar dessa história contraditória e envolta em sangue e gloria, Deus salvará a rainha? Talvez tenha salvo durante toda a sua vida quando lhe concedeu uma bela família e seus 96 maravilhosos anos de vida, a maioria deles ao lado do seu marido, príncipe Philip, que viveu até os 99 anos, falecido em abril de 2021.

Eles viveram bem, tal qual a maioria -para não dizer todas- as realezas ao Norte do mundo. Deus já salvou a rainha quando lhe concedeu a oportunidade de viver uma vida plena com prestígio e riquezas e aqui não estou pensando no Direito Divino dos Reis, que o Iluminismo lutou com unhas e dentes para combater. Estou falando de uma sorte soberana que chega para poucos em um mundo tão desigual.


Até pode ser que Deus tenha salvo a rainha, mas será que a realeza britânica, o Reino Unido e quem o compõe, porque não podemos nos esquecer que o Parlamento Inglês existe e está aí a todo vapor, tal qual as máquinas na Revolução Industrial, nunca sofrerão as consequências da história?!


É simbólico que a rainha tenha falecido em 2022, um ano após a saída de seu neto da família Real Britânica em uma derrocada de códigos de conduta e de ideias retrogradas. Inclusive ele foi penalizado por isso, por seu ato corajoso contra os trâmites praticamente intocáveis da realeza, mas que ela também derrubou em certa medida em sua Era de Ouro. Porém, a rebeldia teve consequências para ele.


Se ela tivesse falecido na primeira década dos anos 2000 talvez a recepção mundial fosse outra, a imagem imaculada da rainha, como a da Virgem não poderia ser malograda, nem pichada, me recordo de uma fotografia em que a estatua da rainha leva os dizeres “parasite” representando uma forte referência ao roubos que a coroa Britânica cometeu nos países do Sul Global.


Comemorar a morte da rainha seria um sacrilégio, porque é imoral, principalmente para os princípios cristãos. Se pessoalmente eu não concordo com o ato. Penso numa potência simbólica de que sim, é possível não idolatrar à rainha, assim como é possível não ter ídolos religiosos ou políticos, não há nada que não possa escapar no contemporâneo.


Mas talvez a rainha já tenha deixado de ser imaculada quando perdeu sua áurea** e se tornou a Rainha Pop, estampada em camisetas e reproduzida em quadros de Andy Warhol. God Bless the queen um hino de pastiche. Se o papa é Pop a rainha também. O fim chega para todos, assim como os símbolos.


Nessa roda da fortuna, que continua girando infinitamente, quais serão os próximos passos da realiza britânica? Deus salvará um legado positivo da rainha ou a história será implacável? A realeza resistirá? A realeza será salva? God will save the queen and/or will bless the people? (Deus irá salvar e/ou irá abençoar o povo?).


*Aqui estou pensando o Sul a luz da teoria de Stuart Hall, em especial no texto O Ocidente e o resto (2016). Ver em: https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/30023.


** Faço referência ao texto A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin (1936)


Foto de capa, retirada de: <https://s.yimg.com/ny/api/res/1.2/XMltfKjXvRVNww0SRfhLbQ--/YXBwaWQ9aGlnaGxhbmRlcjt3PTY0MDtoPTUyMA--/https://s.yimg.com/os/creatr-uploaded-images/2021-07/3af9c160-ee46-11eb-b77f-346d17871912>

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