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DIA DOS NAMORADOS: Do Romantismo Comercial ao Erotismo Emocional

Enquanto escrevo, é provável que muita gente – entre delírios e delícias – já esteja vivenciando os prazeres típicos de uma data especial. No único país onde o Dia dos Namorados é celebrado a 12 de junho, presentes fazem parte do circuito amoroso de 91% das pessoas em uma relação, equivalente a 114 milhões de pessoas. Roupas e acessórios lideram a lista de presentes, seguidos por chocolates e cosméticos. Para celebrar o momento, almoçar ou jantar fora, cinema, passeio ou mesmo uma programação caseira – assistir um filme bem juntinho – estão nos planos. Somos, de fato, uma população sagaz: equilibramos o desejo e as contas. Se ir a um lugar chique e depois passar a noite em um motel sair muito caro, ficamos em casa, assistindo a um filme, enquanto trocamos carícias! Mas, claro, se for possível presentear com uma bela roupa – de preferência, uma lingerie bem sexy – seguimos por essa trilha de amor e sedução, investindo todo o possível na certeza do clímax entre momentos íntimos de êxtase...


Diferente de outros países, tanto pela formação histórica, quanto pela diversidade cultural, o Brasil também é ímpar ao celebrar a ocasião do chamego. Em 1948, João Agripino da Costa Doria, publicitário e pai do ex-governador de São Paulo, João Doria, recebeu uma tarefa da Clipper, uma loja de departamentos: aquecer o comércio em junho, um mês supostamente abatido do ponto de vista comercial, haja vista ser posterior ao Maio das Mães. Doria-Pai encontrou o ponto de partida no Dia de Santo Antônio, na cultura popular, “o santo casamenteiro” e posicionou o enlace comercial para um dia antes dessa data. Nascia o Dia dos Namorados. O êxito do varejo foi estrondoso! A campanha trazendo a legenda “não é só com beijos que se prova amor”, iniciada em São Paulo, se estendeu a todo o país, aquecendo o consumo, gerando empregos e garantindo rentabilidade aos empresários.


Distante das homenagens a São Valentim, concedidas a 14 de fevereiro, por ocasião de ele realizar casamentos, contrariando as ordens do imperador Cláudio II, sendo executado por isso e ainda mais distante da Lupercalia romana, na qual os lupercos, uma horda de adolescentes, “paquerava” as mulheres, atirando tiras de couro de cabra contra elas, o Dia dos Namorados no Brasil foi pensado em torno de uma estratégia de marketing. Nesses termos, o êxito da propaganda se encontra exatamente na manipulação dos afetos transformados em impulsos para aquisição de bens de consumo. Um dia no qual amar se converte em presentes e sexo em ação digna de um templo especial: o motel.


Contudo, apesar do forte apelo comercial, devemos admitir a evocação afetiva, amorosa e sexual deste instante. Para aqueles em um relacionamento atravessado pelo tempo e seus habituais desgastes, trata-se da oportunidade para esquentar o clima e reacender a chama. Essa chance permite a vinculação entre o afeto e a excitação, gerando intimidade e conexão. Na prática, isso provoca o aumento de neurotransmissores como a oxitocina e a dopamina, resultando em profunda satisfação. Todavia, para além de expressar a sensualidade, o Dia dos Namorados possibilita subverter as normas sociais e desafiar tabus. Nele, podemos encontrar a linguagem profunda do tesão, sempre pronto a transgredir e superar os maiores limites, como a língua pronta para tocar, lamber e sugar as fendas do corpo amado. Tal volúpia se permite ser utilizada para namorar a si mesmo; quem não se encontra em uma relação também pode se presentear em um gesto de autoerotismo, afinal, o orgasmo não necessariamente precisa ser apenas uma descarga fisiológica. Ele também está presente no autocuidado, no acolhimento de si mesmo, na paixão pelo próprio eu.


A dois, em um trisal, em relações monogâmicas, não-monogâmicas e mesmo só: a sugestão é aproveitar tudo aquilo que a experiência humana proporciona. É hora de se inundar do outro e de si mesmo!


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Imagens retiradas do banco de imagens Pexels


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