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ELAS AVANÇAM: Mulheres da extrema direita conquistam espaço no Congresso

há 10 horas
4 min de leitura

*Clênia Trindade Lucena Cavalcante


Os resultados das urnas no primeiro turno das eleições de 2026 no Brasil, realizadas no último domingo, confirmam uma tendência que pesquisadores da política vêm observando há algum tempo, existe um avanço da extrema direita no mundo e o Brasil acompanha essa tendência relativamente global. Curiosamente chama a atenção um fenômeno que acompanha este processo, o crescimento da presença de mulheres ligadas a este espectro político nos espaços de representação política, especialmente nos parlamentos.


Existe hoje um processo em curso de disputa política e de construção de novos sentidos sobre os rumos da política brasileira, marcado pela defesa de valores diferentes daqueles associados à esquerda lulista. Nesse contexto, observa-se o crescimento da representatividade de grupos identificados com a extrema direita em diferentes espaços de poder, e essa ocupação não se limita aos cargos do Poder Executivo. A presença desses representantes também se amplia no Legislativo, espaço fundamental para a formulação de leis, a definição de agendas políticas e a disputa em torno das políticas públicas.


Nesse movimento, chama atenção a crescente participação de mulheres que aderiram a esse projeto político e passaram a disputar de forma mais ativa espaços de representação. Cada vez mais, mulheres se lançam a cargos eletivos e conquistam espaço nas estruturas partidárias e nos parlamentos, este fenômeno revela que a expansão da extrema direita não se dá apenas pela atuação de lideranças masculinas, mas também pela entrada e pelo fortalecimento de mulheres que passaram a ocupar posições de destaque nesse campo político. No caso brasileiro, esse crescimento pode ser observado tanto na Câmara dos Deputados, quanto no Senado Federal e os resultados positivos para as mulheres, no primeiro turno das eleições no Brasil, demostram essa tendência.


No Senado, o Partido Liberal (PL), legenda que reúne grande parte das principais lideranças bolsonaristas, ampliou sua presença para a legislatura que se inicia em 2027, assim como os partidos aliados ao bolsonarismo, que também conquistaram novas cadeiras, e algumas mulheres se destacam, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, foram eleitas para representar o Distrito Federal, enquanto Carol de Toni, também do PL, conquistou uma cadeira por Santa Catarina. Elas se somarão a Damares Alves, do Republicanos, que já possui mandato até 2031. Com isso, o Distrito Federal, por exemplo, terá, pela primeira vez, uma bancada inteiramente feminina no Senado, formada por Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Damares Alves, todas do espectro político conservador.


A eleição de Michelle Bolsonaro tem um peso simbólico particular. Ex-primeira-dama e esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro, ela foi eleita em sua primeira disputa por um cargo eletivo, após desenvolver, ao longo dos últimos anos, um amplo trabalho como presidente do PL Mulher, período em que atuou no recrutamento de mulheres em diferentes estados para aderirem a um projeto político conservador. Embora atualmente não esteja mais à frente da organização, sua atuação nesse período contribuiu para torná-la uma figura central na ampliação da participação do eleitorado feminino identificado com o bolsonarismo e com candidatos vinculados a esse campo político, incluindo Flávio Bolsonaro.


Com destaque para a temática família o PL Mulher desenvolveu cartilhas para orientar as mulheres no que diz respeito a valores a serem perseguidos, “acreditamos que o fortalecimento da família é condição essencial para o desenvolvimento humano, social e econômico do nosso País”, e também no que diz respeito a orientações práticas a serem seguidas pelas mulheres que desejam entrar na política. As publicações apresentam guias que ensinam, até mesmo, como se portar diante de uma atuação mais ativa politicamente, “emitir opiniões fortes, influenciar pessoas e crescer na internet sem medo de processo”, intitulado O Guia das Mulheres Imparáveis.


É importante destacar a expressiva votação obtida por essas candidatas, evidenciando a força eleitoral alcançada por essas mulheres ligadas ao campo conservador. Michelle Bolsonaro recebeu 938.496 votos, correspondentes a 29,1% dos votos válidos no Distrito Federal. Bia Kicis, que já havia exercido dois mandatos como deputada federal, obteve 886.616 votos, equivalentes a 27,44%. Carol de Toni, por sua vez, recebeu 150.156 votos e também chegou ao Senado, após uma trajetória política marcada pela atuação parlamentar alinhada à ideologia bolsonarista.


O fenômeno também aparece na Câmara dos Deputados, foram 22 mulheres eleitas pelo PL, entre os nomes de maior destaque estão Julia Zanatta, de Santa Catarina e Chris Tonietto, do Rio de Janeiro, além de outras parlamentares que construíram suas trajetórias políticas em torno de pautas conservadoras e de alinhamento ao bolsonarismo.


Os resultados revelam, portanto, uma dupla transformação. Ao mesmo tempo em que cresce a presença feminina no Congresso Nacional, aumenta também a participação de mulheres identificadas com a direita e, em alguns casos, diretamente vinculadas ao bolsonarismo. As eleições de 2026 mostram que a disputa política não se limita à ocupação do Poder Executivo, ela passa também pela conquista de espaços no Parlamento, onde essas mulheres participarão da definição da agenda política e da formulação das leis nos próximos anos.


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*Clênia Trindade Lucena Cavalcante é advogada, mestra em sociologia e doutoranda em Políticas Públicas pela Universidade Estadual do Ceará. @cleniatrindade; @democraciaeigualdade


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