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ELE, O JAZZ! A VOZ DA NEGRITUDE



Dia 30 de abril é comemorado em todo mundo o Dia Internacional do Jazz. Descobri por acaso, assistindo o comercial de um canal especializado em música (Bis) que irá transmitir nessa data um especial contando a história, trajetórias artísticas de grandes nomes do gênero, sucessos, e claro, muitas canções memoráveis embalando os telespectadores, em clipes talvez raros. Memoráveis, virgula, pois acredito que por não ser algo tão radiofônico, muita gente ignore grande parte do repertório jazzístico, no entanto, devem ter ouvido falar ou escutado em rádios e discos por aí alguns nomes notórios.


Bom, fui pesquisar um pouco sobre essa celebração e descobri que foi criada pela UNESCO e anunciada pelo pianista Herbie Hancock. Para o órgão ligado à ONU, o jazz uniu os povos pelo mundo, já que está relacionado à luta pela liberdade dos afro-americanos nos Estados Unidos e fruto da abolição da escravatura por lá. Teria surgido entre o final do século XIX e início do século seguinte. Centenário, deriva de cantos de trabalho dos negros, principalmente os que labutavam na lavoura. Sua naturalidade, dizem, é Nova Orleans, uma cidade reconhecida mundialmente por sua musicalidade. Como não é caracterizado especificamente em um combo sonoro, é classificado como uma interface entre blues, ragtime, gospel, e o que mais apareceu depois, como funk, soul e rhythm and blues. Quando me dei conta que o jazz existia, considerava ser algo instrumental, acelerado, com performances virtuosísticas, e músicas quilométricas. Passando o tempo, fui dar conta de que ele também é interpretado e permeado de divas e crooners.


Quando se procura uma lista dos nomes que compõem o cenário do jazz – especialmente o norte-americano – vai estar garantido nomes como Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Miles Davis, Louis Armstrong, John Coltrane, Ray Charles, Etta James, Bessie Smith, Nina Simone, Sarah Vaughan, Aretha Franklin, e Frank Sinatra (único branco nessa turma). Como o estilo é uma conformação que agrega e cria pontes entre vários gêneros musicais negros, nomes do Blues como Robert Johnson, B.B. King, e Sister Rosetta Tharpe (monumental guitarrista, uma das melhores da história dos EUA!) aparecem. Até Lady Gaga!! Mas não vi nenhuma lista que contenha o nome de Stevie Wonder. Estranho...


Os músicos de jazz que tocavam nos enfumaçados bares nos idos dos anos 1930 até 1950, eram proibidos de entoarem qualquer canção ao vivo que falasse da segregação racial que os negros viviam nesse período. Também eram bastante perseguidos por policiais do Departamento de Narcóticos, que buscavam drogas e ligações desses artistas com o mercado ilegal de psicotrópicos. A maioria deles tocavam para plateias de brancos, se quisessem levantar algum dinheiro, porém, sempre tratados como cidadãos de segunda classe fora dos palcos. Muitos morreram jovens, ou relativamente novos, sucumbindo a uma vida dura de racismo e carência de recursos. Billie Holiday faleceu aos 44 anos; Sister Rosetta Tharpe, aos 58 anos, após amputar a perna devido à diabetes; Bessie Smith se foi aos 43 anos, após um acidente de carro. Foi sepultada em uma cova comum, até Janis Joplin construir uma lápide decente para seu tumulo. Os demais nomes citados acima morreram já mais idosos, alguns quase que no ostracismo.


O Jazz pode ter sido uma fonte de integração entre a comunidade negra, porém, alguns músicos passaram batido pelas gloriosas interpretações de seus difusores. O pianista Don Shirley – retratado no ganhador do Oscar “Greenbook, o Guia” – enquanto viajava pelas estradas em turnê, ouvia seu motorista branco escutando as rádios e cantando clássicos do jazz. Numa cena, ele pergunta: “quem é essa que está cantando?”. Surpreso, o motorista responde “Meu Deus, você não conhece Aretha Franklin? É gente de seu povo!” Faz parte.


E assim o estilo foi influenciando muita gente ao redor do mundo ao longo de décadas até revelar – na minha opinião – o grande nome do século XXI: Amy Winehouse. Várias fusões marcam o ritmo: Cool Jazz, Bebop, Latin Jazz, Jazz Fusion... Ganhou muito destaque o jazz suave e sereno de Norah Jones, amaciando corações. No Brasil, nomes como Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, e Sérgio Mendes são ligados a ele. Aconteceu por aqui – São Paulo e Rio de Janeiro - anos atrás um evento bem aclamado, o Free Jazz Festival, entre 1985 e 2001. Nomes requisitados vieram tocar aqui como Chat Baker, Nina Simone (que fez dueto com Maria Bethânia), Ray Charles, Stanley Jordan, entre outros. Como era promovido por uma marca de cigarros, sucumbiu diante de campanhas que combatiam eventos patrocinados por indústrias de tabaco.


E essa foi minha contribuição nas homenagens ao Jazz. Um texto improvisado, assim como o ritmo, produzido por um leigo total. Faltou falar muita coisa, como histórias envolvendo alguns nomes acima. Mas isso fica pra uma próxima. Espero que todo dia 30 de abril você possa sacar seu saxofone imaginário e curtir essa data musicalmente especial.


FONTE:








HARI, Johann. Na fissura: uma história do fracasso no combate às drogas. Companhia das letras, 2018, 528 pág.







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