ELEVADOR EX-LACERDA?: A Mudança de Um nome Modificando a História

Fundado em 1873, o Elevador Lacerda foi a primeira plataforma elevatória urbana do mundo, idealizada e arquitetada pelo engenheiro Antônio de Lacerda. Em 1928, ganhou o formato atual. O equipamento tem a serventia de transportar pedestres da parte alta da cidade à baixa - do centro financeiro para o centro comercial. Com o tempo, se tornou cartão postal e ativo turístico. Não tem quem não venha visitar a cidade que não tire uma foto panorâmica da Baía de Todos os Santos, juntando Mercado Modelo, Forte de São Marcelo e o famoso elevador na mesma imagem. Originalmente, chamava-se Elevador Hidráulico da Conceição.
Pois então… o nome oficial desse meio de transporte pode estar com os dias contados. Há um projeto na Câmara de Vereadores - situada logo ali nas proximidades desse elevado - apresentado para modificar sua nomenclatura, partindo da edil Eliete Paraguassu. A proposta é homenagear a educadora e líder religiosa Makota Valdina. O texto está numa comissão da Casa e precisa ser votada favoravelmente para ir à plenário.
Salvador tem uma série infinita de problemas e muita gente, quiçá a maioria esmagadora de seus habitantes, não tem ideia desse projeto, e talvez nem ligue se o nome vai mudar ou não, embora a população deveria sim ser consultada e até o momento isso tem sido esboçado “à boca pequena”. Pra muitos, importa que o velho Lacerdão continue com seu papel locomotivo, mas o que me interessa aqui é a necessidade da mudnça, ligado à motivação: uma apuração do Ministério Público que investiga a origem da fortuna da família Lacerda, que bancou toda a construção. Se esses recursos foram oriundos da exploração escravocrata, como parece indicar, o órgão deve orientar dois caminhos: ou a mudança do nome, ou a colocação de uma placa informando o contexto histórico dessa construção, algo como, em baianês “opaió! esse pombo sujo subiu essa porra aí com cascalho, metendo a desgraça na galera, esse sacana!”
Bem, mudanças de nomes, em determinadas circunstâncias, são bemvindos. A antiga Avenida Adhemar de Barros virou Milton Santos, um político paulista - que nada teve a ver com a Bahia - substituída pelo famoso geógrafo baiano; a Praça Cairu virou Maria Felipa, um nobre com títulos substituído por uma heroína da nossa independência. Essas trocas foram louváveis. Já o nome do aeroporto… Trocas de nomes de cidades são polêmicas. Santo Amaro do Ipitanga se tornou Lauro de Freitas; Mimoso do Oeste, Luís Eduardo Magalhães. Cidade com nome de pessoas soa esquisito, em minha opinião. Mas no caso de um símbolo tão nosso, tão identificado com o coditiano soteropolitano, vale a pena mudar?
Valdina de Oliveira Pinto ficou conhecida por sua luta contra o racismo e à intolerância religiosa, foi professora da rede municipal, ganhou diversos prêmios e recebeu muitas homenagens. O título de Makota se deve à função de conselheira no Terreiro Tanuri Junsara, no bairro da Federação. Makota faleceu em 2019, aos 65 anos. Dada sua importância, seu nome batiza instituições de ensino e centros culturais em nossa cidade, além de editais, coletivos, e centros de apoio à mulheres. Sua brilhante trajetória nomear um ilustre equipamento ícônico da nossa capital seria uma honra.
Atendo-se ao principal motivo da troca, o Ministério Público teria que criar um departamento próprio com a tarefa de registrar todos os nomes de pessoas e seus antecedentes que ganharam dinheiro com escravidão ou alguma atividade criminosa, hedionda, ou ilícita. Daí, a sugestão de modificar nomes de escolas, eventos, praças, ruas, instituições diversas, e toda ordem de entidades “flagradas” em todo tipo de infração. E até nome de municípios, distritos, e vilarejos. Claro que isso é inviável, mas cito precedentes que podem ser abertos, caso esse tipo de verificação prevaleça.
Quem são os descendentes da família Lacerda? Vivem aqui? Existem? Contribuíram com mais alguma coisa posteriormente à construção desse símbolo municipal? Porque se não for louvável averiguar a colaboração que os descendentes de escravocratas e uma retificação de seus antepassados, boa parte da classe política brasileira nem era pra se candidatar! Pensem comigo: como seria possível o desenvolvimento de toda história republicana se não por indivíduos marcados pela acumulação de riqueza proveniente da exploração de escravizados? Levando-se em conta que suas posteriores gerações ainda vivem calcados no mesmo tipo de exploração das classes mais baixas, não seria digno que todos eles também deixassem a vida pública?
Posso ter viajado na maionese? Posso, claro. No entanto, deixo claro que é complexo bater o martelo e considerar que toda mudança de nomenclatura baseado numa história passada é simplesmente aceitável e pronto. Uma placa sinalizando quem foi Antônio de Lacerda e do que sua família se locupletou pra construir o elevador, seria legítimo, assim como em todos os monumentos que homenageiam um bando de FDP mundo afora. Por que monumentos, estátuas, e outros fazem parte da paisagem urbana e com o passar dos anos podem ser ressignificados pelas novas gerações. No mais, continuo a acompanhar esse imbróglio e saber se o elevador é Lacerda ou ex-Lacerda.
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