ENQUANTO DISCUTEM CORPOS, MULHERES CONTINUAM MORRENDO
- Nieissa Pereira

- 22 de mar.
- 6 min de leitura

Entre o medo, o cansaço e o silêncio institucional, a violência contra mulheres segue sendo tratada como pauta secundária.
Durante essa semana, fomos bombardeados por notícias nada agradáveis. O mês de março é conhecido como o mês da mulher por conta do dia 08, data em que é comemorado o dia internacional da mulher. Mas, o que vimos durante esta semana nos telejornais não é nada digno de comemoração. Pelo contrário: causa repulsa, revolta, tristeza e principalmente medo.
Vejam abaixo as principais manchetes:
Na Bahia, o desaparecimento da jovem Thamiris mobilizou a população e ganhou contornos ainda mais chocantes com a prisão de um suspeito, revelando uma sequência de acontecimentos que expõe a vulnerabilidade de crianças e a brutalidade de crimes que abalam toda a sociedade.
Em São Paulo, um caso que rompe ainda mais as expectativas de proteção institucional: um tenente-coronel da Polícia Militar foi preso acusado de matar a própria esposa, também integrante da corporação, marcando o primeiro caso de feminicídio envolvendo um oficial da PM desde 2015.
Aqui na Bahia, mais precisamente em Alagoinhas, no dia de hoje (sábado, dia 21/03) uma jovem sofreu uma tentativa de feminicídio ao ser incendiada enquanto dormia. O principal suspeito é o próprio companheiro, em mais um episódio que reforça a face mais cruel da violência doméstica.
Esses casos, embora distintos em suas circunstâncias e em distância geográfica, possuem um ponto em comum: a violência contra a mulher. Normalmente, trago aqui no Soteroprosa textos com análises jurídicas, buscando ser o mais imparcial possível, afinal, é isso que a minha profissão de advogada exige, sobretudo quando nos debruçamos sobre casos ainda em fase inicial, onde o olhar técnico precisa prevalecer. Este também é um espaço onde compartilho reflexões sobre gênero e sexualidade, dialogando com a história, a cultura pop, indicações de livros e séries, ou ainda textos que têm como pano de fundo a psicologia criminal, fruto das minhas pesquisas no mestrado.
Mas, no texto de hoje, peço licença a você, caro leitor e leitora, e também aos meus colegas de revista, para fazer algo diferente. Hoje, preciso descer do degrau da imparcialidade. Preciso usar esse espaço não apenas como jurista, mas como alguém profundamente atravessada pelos acontecimentos que nos cercam. Aqui, neste texto, não está a Nieissa Pereira advogada ou professora. Está a Nieissa mulher, filha, que sente, que se inquieta e que, diante de tudo o que temos visto, já não consegue apenas analisar, precisa também falar, questionar e, sobretudo, desabafar.
E talvez seja justamente por isso que esse texto se faz necessário. Porque, quando uma menina jovem, de apenas 14 anos de idade, que voltava da escola, com tanta vida pela frente, desaparece e tem sua história atravessada pela violência, ou quando uma mulher é morta dentro de casa por quem exerce o papel de proteção para a população nas ruas e dentro do sistema de justiça e que deveria protegê-la sendo o seu esposo, ou quando outra é incendiada enquanto dorme dentro do espaço que deveria ser o mais seguro que é o seu lar, não há como permanecer apenas no campo técnico, distante, neutro.
Essas não são apenas notícias. Não são apenas “casos”. São histórias que escancaram uma realidade que nós, mulheres, conhecemos bem demais. Uma realidade que atravessa o medo cotidiano, os silêncios forçados, as violências que começam muitas vezes de forma invisível e terminam de forma brutal. E o mais angustiante é perceber que esses episódios não são exceção e sim repetições. São o reflexo de uma estrutura que insiste em falhar na proteção de quem mais precisa. Que naturaliza, relativiza e, muitas vezes, só reage quando já é tarde demais.
Como advogada, eu poderia aqui discutir tipificações penais, qualificadoras, causas de aumento de pena, falar sobre feminicídio, sobre o sistema de justiça criminal. Mas hoje isso não basta. Porque antes de qualquer enquadramento jurídico, existe dor. Existe ausência. Existe uma sensação coletiva de insegurança que nenhuma teoria, por mais bem fundamentada que seja, consegue acolher completamente.
Hoje, eu escrevo não para explicar, mas para sentir junto, para provocar reflexão e, sobretudo, para não permitir que essas histórias se tornem apenas mais números ou mais uma manchete esquecida na próxima semana. A sensação, como mulher, é de medo e cansaço. Medo porque não sabemos o que nos aguarda quando saímos na rua para trabalhar, estudar, viver, basta virar a primeira esquina e tudo pode mudar. Saímos, mas será que iremos voltar?
E, se voltarmos, voltar para onde? Para o lar? Mas será que ainda podemos chamar de lar um lugar onde tantas mulheres são violentadas diariamente, muitas vezes pelos próprios companheiros, dentro de casa, dentro do espaço que deveria ser sinônimo de proteção? Dormir deveria ser um momento de descanso do corpo e da mente. Mas, para muitas de nós, nem isso é garantido. Até no silêncio da madrugada, existe o medo. Existe a vigilância. Existe a necessidade de estar alerta o tempo inteiro, como se viver fosse, constantemente, um exercício de sobrevivência. E junto com o medo, vem o cansaço. Um cansaço profundo, que se arrasta e se repete todos os dias, todas as semanas, todos os anos. O cansaço de ter que gritar o óbvio, de ter que implorar pelo mínimo: Parem de nos matar.
E como se tudo isso não bastasse, ainda precisamos conviver com discursos que tentam justificar, relativizar ou até mesmo inverter essa realidade. Discursos que ganham força em movimentos como o chamado “red pill”, que se alimentam de ressentimento e reforçam ideias perigosas sobre o papel da mulher na sociedade, naturalizando a violência, culpabilizando vítimas e tratando direitos básicos como ameaças. Não se trata apenas de opiniões divergentes, mas sim de narrativas que, quando reproduzidas, contribuem para um ambiente ainda mais hostil, onde a violência deixa de ser exceção e passa a ser tolerada, explicada ou até incentivada de forma velada. Mas parece que nada disso é realmente preocupante. Nada disso importa.
A vida das mulheres vítimas citadas nas três notícias aqui mencionadas, e de tantas outras que sofrem violência diariamente, segue sendo tratada como algo secundário. Mulheres que são intimidadas e ameaçadas para não denunciar. Mulheres que até denunciam, que buscam medidas protetivas de urgência, mas acabam esquecidas por um sistema de justiça que, muitas vezes, se mostra ineficaz. Mulheres que, mesmo após a violência, retornam para o mesmo ambiente, para o mesmo agressor, não por escolha, mas por falta de apoio psicológico, dependência financeira ou, simplesmente, por não terem para onde ir. E, ainda assim, isso não parece ser o centro das preocupações.
A maior pauta da semana não foi a proteção dessas mulheres. Não foi o debate sobre políticas públicas eficazes, sobre fortalecimento da rede de apoio, sobre mecanismos reais de prevenção e enfrentamento da violência. A preocupação que dominou discursos e debates foi outra: o fato de a Deputada Federal Erika Hilton, mulher trans, ter assumido a Presidência da Comissão da Mulher na Câmara dos Deputados. Em vez de discutirmos propostas, projetos e caminhos concretos para proteger mulheres e meninas no Brasil, o foco foi desviado para um debate raso e violento sobre o corpo, a identidade e a existência de quem ocupa aquele espaço. Questionou-se o que há “entre as pernas” de uma mulher, como se isso fosse critério legítimo para definir sua capacidade de representar, dialogar ou legislar.
Enquanto isso, mulheres continuam morrendo. Continuam sendo violentadas. Continuam sendo silenciadas. E isso, ao que parece, segue não sendo prioridade. E talvez seja aqui que a discussão mais se distorce. Porque representatividade não se mede por critérios biológicos, nem por experiências corporais específicas. Representatividade se constrói a partir de compromisso, de atuação, de defesa concreta de pautas que nos atravessam e que impactam diretamente nossas vidas. No contexto da violência contra a mulher, o que se espera de quem ocupa espaços de poder não é a vivência individual de cada experiência possível como gestar, parir ou menstruar, mas sim a capacidade de compreender, defender e lutar por políticas públicas que nos protejam, que enfrentem a violência e que garantam dignidade.
Reduzir esse debate ao fato de uma mulher não poder ter filhos, não menstruar ou não sentir a dor de um parto é, além de simplista, profundamente desrespeitoso. É ignorar que a luta por direitos nunca foi, e nunca deve ser limitada à experiência individual, mas sim à responsabilidade coletiva de transformação. Enquanto se perde tempo questionando corpos, deixa-se de cobrar o essencial: posicionamento, ação e compromisso real com a vida das mulheres. Talvez o que mais assuste não seja apenas a violência em si, mas a naturalização dela. O silêncio. O desvio constante de foco. A facilidade com que se discute qualquer outra coisa, menos o essencial. Enquanto nos distraem com debates vazios, seguimos enterrando mulheres. Seguimos contando histórias interrompidas. Seguimos vivendo com medo. Não se trata de ideologia. Não se trata de opinião. Trata-se de vida. Trata-se de urgência.
Quantas mais precisarão morrer para que isso seja, de fato, prioridade? Quantas mais precisarão gritar, denunciar, pedir ajuda para que sejam ouvidas antes que seja tarde? Este não é apenas um texto. É um incômodo. É um chamado. É um lembrete de que não podemos aceitar como normal aquilo que deveria nos revoltar todos os dias. Porque enquanto houver uma mulher vivendo com medo, nenhuma de nós estará realmente segura. E enquanto a resposta for o silêncio, o desvio ou a indiferença, nós continuaremos fazendo o que sempre tivemos que fazer:
Falar. denunciar. resistir.
E, sobretudo, sobreviver.
REFERÊNCIAS:
BAHIA NOTÍCIAS. Jovem é incendiada na cama enquanto dormia em Alagoinhas; principal suspeito é o companheiro da vítima. Disponível em: https://www.bahianoticias.com.br/municipios/noticia/50011-jovem-e-incendiada-na-cama-enquanto-dormia-em-alagoinhas-principal-suspeito-e-o-companheiro-da-vitima. Acesso em: 21 mar. 2026.
G1. Caso Thamiris: entenda a linha do tempo do desaparecimento da menina até prisão de suspeitos na Bahia. Disponível em: https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2026/03/21/caso-thamiris-entenda-a-linha-do-tempo-do-desaparecimento-da-menina-ate-prisao-de-suspeitos-na-bahia.ghtml. Acesso em: 21 mar. 2026.
Fonte da imagem: https://www.instagram.com/p/DVlYndWDtab/

Comentários