ENTRE CRONOS E KAIRÓS: O Tempo de ser Pai
- Everton Nery

- há 2 dias
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Há muitas maneiras de falar sobre um pai. Talvez uma das mais bonitas seja falar sobre o tempo. Os gregos antigos perceberam que o tempo não possuía uma única face. De um lado estava Kronos, o tempo que passa, que pode ser contado, dividido e medido. É o tempo dos dias, dos meses, dos anos. O tempo do relógio e do calendário. Do outro lado estava Kairós, o tempo que não se mede, porque não diz respeito à quantidade, mas à intensidade. Kairós é o instante oportuno. Aquele momento que chega, acontece e, depois que passa, jamais pode ser vivido exatamente da mesma maneira.
Talvez todo pai habite esses dois tempos. Há o pai-Kronos. É o pai dos dias sucessivos. Aquele que acompanha o crescimento dos filhos e percebe, algumas vezes assustado, que o menino cresceu, que a menina cresceu, que os brinquedos desapareceram dos quartos, que a voz mudou, que os caminhos se multiplicaram e que os/as filhos/as, pouco a pouco, começaram a caminhar com as próprias pernas. Amanda e Gabriel fizeram isso! Kronos é implacável.
Ele transforma o bebê em criança, a criança em jovem, o jovem em adulto. Também transforma o jovem pai em homem de cabelos brancos (os meus estão nesse tom). Kronos conta os aniversários. Conta os primeiros passos, os primeiros dias de escola, as formaturas, as partidas, os retornos. Conta também aquilo que gostaríamos que permanecesse.
Mas existe outro deus habitando a experiência da paternidade. Seu nome é Kairós. Ele não pergunta quantos anos se passaram. Ele pergunta: O que fizemos do instante que nos foi dado? Porque há momentos que duram apenas alguns segundos e, misteriosamente, permanecem conosco durante uma vida inteira. Um abraço na hora certa. Uma mão segurando outra mão. Uma palavra pronunciada quando tudo parecia perdido. Um conselho que naquele momento não compreendemos, mas que muitos anos depois retorna à memória. Uma frase aparentemente simples: “Eu acredito em você.” “Pode ir. Estou aqui.” “Não tenha medo.” “Eu amo você.” Esse é o território de Kairós. Participei de um jogo-treino de basquete com Gabriel (o filho) e foi um momento inesquecível. Com Amanda, o primeiro dia na escola foi inusitado, pois ela simplesmente deu as costas e entro na escola, parecendo que ali era seu espeço, esse que ela já parecia dominar: uma surpresa enorme.
Talvez nossos pais tenham vivido conosco milhares de dias de Kronos. Entretanto, quando fechamos os olhos e procuramos por eles na memória, quase nunca encontramos calendários. Encontramos instantes. Uma viagem. Uma conversa. Uma bronca. Uma gargalhada. Uma mesa. Um almoço de domingo. Um caminho percorrido juntos e fizemos um percurso de bicicleta juntos (eu, Gabriel, Amanda e D. Mira – a avó, que é minha mãe) 15 km no Paque de Pituaçu, foi uma maravilha. Uma mão pousada sobre nosso ombro. Um silêncio que dizia muito mais do que qualquer palavra.
E então compreendemos algo profundamente humano: a grandeza de um pai não está apenas no tempo que passou conosco, mas naquilo que conseguiu fazer habitar dentro desse tempo.
Kronos nos ensina que tudo passa. Kairós nos ensina que nem tudo que passa desaparece.
E talvez aí esteja um dos mistérios mais bonitos da paternidade. Um dia os filhos crescem.
Um dia os caminhos se afastam. Um dia algumas cadeiras ficam vazias. Um dia o telefone já não toca como antes. E, para alguns de nós, chega também aquele dia doloroso em que já não podemos abraçar nosso pai.
Kronos venceu? Não. Porque há coisas sobre as quais Kronos não possui poder. O tempo pode levar a presença, mas não consegue apagar aquilo que um verdadeiro encontro escreveu em nós. Por isso, alguns pais continuam existindo nos gestos dos filhos. Seu Everaldo (meu pai) continua em mim. Na maneira de falar. Na maneira de sorrir. Na forma de cuidar. Nos valores que permaneceram. Na coragem diante da vida. Até mesmo em certas manias que um dia juramos que jamais repetiríamos. Kairós permanece onde Kronos não consegue alcançar.
Por isso, neste Dia dos Pais, talvez a pergunta mais importante não seja: “Quanto tempo temos?” A pergunta talvez seja: “O que estamos fazendo com o tempo que temos?” Porque nossos filhos provavelmente esquecerão muitos dos presentes que receberam. Esquecerão datas. Esquecerão lugares. Talvez esqueçam até algumas palavras. Mas dificilmente esquecerão como se sentiram quando estivemos verdadeiramente presentes.
Ser pai, portanto, talvez seja aprender a viver entre esses dois deuses.
Reconhecer humildemente que somos filhos de Kronos, porque nosso tempo é limitado.
Mas aprender também a ser discípulos de Kairós, porque dentro desse tempo limitado podemos produzir instantes infinitos.
Um abraço pode durar dez segundos e permanecer cinquenta anos. Uma palavra pode durar alguns segundos e acompanhar alguém por toda a existência. Um gesto pode acontecer uma única vez e nunca mais abandonar a memória.
No final, talvez seja isso que os filhos carreguem dos pais. Não a quantidade de tempo. Mas a intensidade da presença. Não apenas os anos vividos juntos. Mas aqueles instantes nos quais puderam sentir: “Meu pai estava ali.”
E quando verdadeiramente estamos ali, inteiros, atentos, disponíveis, amorosos, acontece algo extraordinário: por alguns instantes, Kronos deixa de contar as horas e Kairós transforma o tempo em eternidade.
Feliz Dia dos Pais. Aos pais que ainda podemos abraçar, que saibamos reconhecer o instante enquanto ele ainda vem em nossa direção.
E aos pais que já fizeram a travessia, que possamos reencontrá-los nesse lugar misterioso onde o relógio já não alcança: a memória amorosa daqueles instantes que o tempo passou, mas não conseguiu levar.
E talvez eu compreenda tudo isso de um lugar muito particular, porque neste Dia dos Pais habito, ao mesmo tempo, os dois lados dessa travessia. Sou o filho que já não pode abraçar seu pai, seu Everaldo, e sou o pai que ainda pode abraçar Gabriel e Amanda. Quando olho para trás, encontro meu pai naquele território de Kairós onde o amor não envelhece e a ausência não consegue apagar a presença; quando olho para o presente, encontro meus filhos e compreendo que Kronos continua correndo e que preciso agarrar, enquanto posso, cada instante que a vida nos oferece. Entre a saudade de ser filho e a graça de ser pai, descubro que o amor talvez seja justamente isso: aquilo que recebemos de quem veio antes de nós e que, atravessando nosso corpo e nossa história, entregamos àqueles que vieram depois. Hoje, meu abraço alcança Gabriel e Amanda, mas, de algum modo que o relógio não sabe explicar, alcança também seu Everaldo. E assim seguimos: meu pai em mim, eu em meu filho e minha filha, e o amor fazendo do tempo uma eternidade.

“Portanto, vede prudentemente como andais, não como
néscios, mas como sábios, remindo o tempo; porquanto os
dias são maus.” (Efésios 5:15-16)
É exatamente o que este texto nos propõe, a vivermos intencionalmente e aproveitarmos as oportunidades segundo a vontade de Deus, ou seja, a vivermos com propósito.
Usar nosso tempo e com sabedoria é o que Deus nos instrui.
E que esses elementos Chronos e kairos ambos são aliados na construção de nossa história e de nosso milagre.