ENTRE O SILÊNCIO E A VOZ: Religião, música e a reconstrução da autonomia feminina no Brasil contemporâneo.
- Nieissa Pereira

- 10 de mai.
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Em uma sociedade marcada por polarizações políticas, disputas ideológicas e conflitos culturais constantes, poucos acontecimentos conseguem atravessar diferentes grupos sociais e gerar identificação coletiva. Mas foi exatamente isso que aconteceu com dois episódios recentes que, embora pertençam a universos completamente distintos, acabaram dialogando profundamente entre si: a repercussão da fala da pastora Helena Raquel, denunciando violência doméstica, abuso sexual e pedofilia dentro de ambientes religiosos, e o show histórico de Shakira em Copacabana, no dia 1º de março, transformando a praia carioca em um grande símbolo de força feminina, reconstrução emocional e autonomia.
À primeira vista, os dois acontecimentos parecem desconectados. Um nasce dentro de um congresso religioso evangélico; o outro, em um espetáculo musical diante de 2 milhões de pessoas. Entretanto, ambos revelam algo muito maior sobre o Brasil contemporâneo: a ruptura gradual de estruturas históricas de silenciamento feminino.
No fundo, tanto a fala da pastora quanto o show de Shakira tratam da mesma disputa: o direito da mulher de existir sem precisar suportar sofrimento em silêncio.
A fala da pastora Helena Raquel ganhou repercussão nacional justamente porque confrontou uma cultura historicamente naturalizada em diversos espaços religiosos: a ideia de que determinadas violências devem ser abafadas para preservar reputações institucionais. Ao denunciar abusadores dentro do próprio ambiente religioso, a pastora rompe um pacto de silêncio profundamente enraizado em muitas estruturas sociais.
Durante décadas, inúmeras mulheres ouviram frases como: “Ore mais”; “Preserve seu casamento”; “Não exponha a igreja”; “Deus vai transformar ele”. Enquanto isso, casos de violência doméstica, abuso psicológico e até abuso sexual permaneciam escondidos sob o discurso da preservação moral e institucional.
A grande força da fala da pastora está justamente no fato de ela surgir de dentro do próprio meio religioso. Não se trata de um ataque externo à fé cristã, mas de uma crítica interna ao uso da religião como mecanismo de silenciamento. Quando Helena Raquel afirma que abusadores não podem ser protegidos apenas porque ocupam posições religiosas, ela desloca o debate para algo essencial mostrando que nenhuma autoridade espiritual pode estar acima da dignidade humana.
E talvez o aspecto mais simbólico tenha sido justamente a repercussão política de sua fala. Figuras da direita e da esquerda compartilharam e elogiaram o discurso. Isso demonstra que determinados temas ultrapassam fronteiras ideológicas. O combate à violência contra mulheres e crianças não deveria ser tratado como pauta partidária, mas como compromisso ético mínimo de qualquer sociedade civilizada.
Mas o debate ganha uma dimensão ainda mais interessante quando colocado ao lado do show de Shakira em Copacabana, no evento “Todo Mundo no Rio”. Após a repercussão dos números de pessoas que compareceram às areias da praia de Copacabana para assistir a cantora no maior show da sua carreira e comemorando 30 anos de história no mundo da música, vários sites e jornais noticiaram que a apresentação transformou a praia em um verdadeiro “altar de força feminina, amor ao Brasil e volta por cima”. E talvez seja impossível compreender a dimensão emocional daquele show sem entender o que Shakira passou a representar culturalmente nos últimos anos.
Após a exposição mundial de sua separação com o ex-jogador de futebol Gerard Piqué, a cantora colombiana transformou seu sofrimento pessoal em narrativa pública de reconstrução emocional. Em vez de permanecer associada à imagem tradicional da mulher abandonada e fragilizada, Shakira converteu dor em discurso de autonomia, autoestima e reinvenção.
Esse fenômeno é analisado em uma pesquisa acadêmica sobre empoderamento feminino e música, na qual a autora Vitória Lopes Gomes destaca como o álbum Las Mujeres Ya No Lloran rompe com a representação tradicional da mulher presa ao sofrimento amoroso. Segundo o estudo, a obra transmite justamente a ideia de que mulheres podem sofrer, mas também podem se reconstruir e seguir em frente sem permanecer aprisionadas à dor.
O próprio título do álbum carrega enorme força simbólica quando afirma que“As mulheres já não choram” e isso não significa ausência de sofrimento. Significa recusa em permanecer definida apenas por ele. E talvez seja exatamente aqui que o caso de Shakira se conecta de maneira tão profunda com a fala da pastora Helena Raquel. Ambas representam mulheres rompendo estruturas históricas de silêncio.
Durante séculos, a sociedade construiu modelos femininos baseados em tolerância ao sofrimento, submissão emocional e silenciamento. Mulheres eram ensinadas a suportar humilhações para preservar famílias, relações ou instituições. A dor feminina frequentemente era romantizada, naturalizada ou invisibilizada.
A pesquisa acadêmica destaca que o empoderamento feminino surge justamente como reação histórica a essas estruturas de dominação e apagamento social. O conceito envolve autonomia, tomada de decisão, consciência crítica e liberdade sobre a própria vida.
E isso ajuda a explicar por que tantas mulheres se identificaram emocionalmente tanto com a fala da pastora quanto com a trajetória recente de Shakira. Porque ambas falam sobre mulheres recuperando controle sobre suas próprias narrativas. Uma denúncia estruturas que exigiam silêncio diante da violência. A outra transforma sofrimento afetivo em afirmação pública de autonomia emocional.
Em ambos os casos, existe uma recusa em aceitar a dor como destino inevitável. O mais interessante é perceber que esse movimento não acontece apenas no campo individual. Ele possui dimensão cultural, política e coletiva.
Quando milhares de mulheres lotam uma praia para cantar músicas sobre superação emocional, isso não é apenas entretenimento. Existe ali uma experiência coletiva de identificação. Mulheres enxergam na artista experiências semelhantes às suas próprias dores afetivas, traições, frustrações e processos de reconstrução pessoal.
As relações amorosas ainda são marcadas por profundas desigualdades emocionais e sociais. Mesmo mulheres extremamente bem-sucedidas continuam submetidas a padrões históricos de vulnerabilidade afetiva e exposição emocional.
Por isso, quando Shakira transforma vulnerabilidade em força simbólica, ela acaba representando muito mais do que sua própria história. Ela representa uma mudança cultural importante na qual as mulheres estão cada vez menos dispostas a permanecer emocionalmente silenciadas.
Da mesma forma, quando uma líder religiosa denuncia violência dentro do próprio ambiente institucional, ela rompe uma lógica histórica em que a reputação da instituição valia mais do que a proteção da vítima. Nos dois casos, o que está sendo questionado é a cultura da normalização do sofrimento feminino. Talvez seja exatamente isso que explique a força social desses acontecimentos.
Eles dialogam diretamente com uma transformação profunda da sociedade contemporânea com mulheres reivindicando espaço de fala, autonomia emocional e protagonismo sobre suas próprias vidas. E isso inevitavelmente produz desconforto.
Porque toda ruptura de estruturas históricas de poder gera resistência. O empoderamento feminino ainda enfrenta obstáculos estruturais relacionados à cultura, política, religião e relações sociais. A desigualdade de gênero continua profundamente enraizada em práticas sociais, afetivas e institucionais.
Por isso, tanto a fala da pastora quanto o show de Shakira possuem dimensão tão simbólica. Ambos mostram mulheres ocupando espaços historicamente controlados por estruturas masculinas, seja o púlpito religioso, seja a indústria cultural global, para afirmar algo extremamente simples, mas profundamente revolucionário: nenhuma mulher deveria ser obrigada a sofrer em silêncio para preservar expectativas sociais, relações afetivas ou instituições.
No fundo, talvez os dois episódios revelem a mesma mensagem: o silêncio nunca protege verdadeiramente as vítimas. Ele apenas protege estruturas de poder. E romper esse silêncio talvez seja uma das formas mais importantes de reconstrução humana e social no nosso tempo.
Referências:
ABRIL. Pastora prega contra violência e pedofilia na igreja e atrai apoios da direita e da esquerda. Veja, São Paulo, 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/politica/pastora-prega-contra-violencia-e-pedofilia-na-igreja-e-atrai-apoios-da-direita-e-da-esquerda/. Acesso em: 8 maio 2026.
GAÚCHAZH. Shakira transforma Copacabana em altar de força feminina, amor ao Brasil e volta por cima. Porto Alegre, 2026. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/musica/noticia/2026/05/shakira-transforma-copacabana-em-altar-de-forca-feminina-amor-ao-brasil-e-volta-por-cima-cmopml6ke00a5013lhzbk322s.html. Acesso em: 8 maio 2026.
GOMES, Vitória Lopes. Empoderamento feminino na música: análise do álbum "Las Mujeres Ya No Lloran"(2024) de Shakira. 2025. 58 f. Monografia (Graduação em Jornalismo) - Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2025.

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