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ESPERANDO PARA GOZAR



À primeira vista, esperar alguém chegar lá para gozar junto, pode ser uma coisa fascinante. Que delícia quando a pessoa está no mesmo time da gente e conseguimos dividir essa sensação quase que no mesmo instante. 


Mas e quando ela não está, porém, mesmo assim, continuamos esperando o outro para gozar? Ou pior, quando nós não estamos, mas mesmo assim fingimos estar, na tentativa de não decepcionar esse outro que compartilha tal prazer conosco. 


Entretanto, uma situação como essa só seria uma decepção se a gente criasse expectativas sobre ela. Tudo bem que os gozos venham em times diferentes, afinal as pessoas possuem sensibilidades distintas a determinados estímulos. 


Como entre o saber e o assimilar existe um grande abismo, não necessariamente compreender algo nos fará saber lidar com ele da melhor maneira. 


Sobretudo, por vezes, a sociedade acaba colocando, em determinados corpos, uma carga muito intensa dessas dimensões de gentileza e atenção/zelo a tudo ao nosso redor. Até porque, o contrário (que não pode ser controlado)  assusta muita gente. E a solidão pode vim. 


Mas, uma boa alternativa é questionar a expectativa. O que esperamos está alinhado com o que desejamos, logo, guardar o gozo (ou desejar que o façam) é experimentar o gostinho da satisfação de um afeto compartilhado


É claro que a prática descrita nessas linhas, se faz com mais de um, porém ao contrário do que muitos acreditam, nem sempre se forma uma atmosfera simbiótica entre as praticantes. São pessoas distintas, buscando o gozo por motivos diferentes, em contextos diferentes, não um ritual de unificação a partir da carne. Aqui eis a dimensão da individualidade


Com a individualidade precisa vir o autoconhecimento e a luta contra o sexo automático e performático do que há de mais rígido (que não um falo ou um bico do seio). 


Vamos abordar, mas não pensando no outro, sim, pensando na gente mesmo. 

Em um cenário onde o cuidado e a idealização da prática sexual se fazem presentes, é comum pensar no outro e em seu prazer. 


Onde, inclusive, um dos discursos mais presentes é justamente a tomada de prazer para si a partir da sensação de oferecer prazer para o outro.


Podemos questionar esse lugares também, mas vamos pensar no que mobiliza nosso próprio gozo. Nos nossos fetiches, desejos, necessidades e esperas.


É claro que preciso do outro ali comigo, atento às minhas demandas e desejos, da mesma forma em que estarei, mas não me venha tirar de mim também a minha responsabilidade pelo meu próprio prazer. Afinal, ele é meu e não vai ser você, que trará a salvação para um corpo nunca gozado. Até porque, eu gozo demais, e antes de você chegar. 


Penso que, ao final dessa busca a noção de sermos nós mesmos o nosso objeto de prazer, pode ser uma descoberta interessante. 


Mas não é egoísta? Depende do seu ponto de vista e o debate pode girar exatamente em torno disso. Afinal, até onde estamos sendo egoístas de mais ou de menos quando pensamos no deleite do eu


Mas e você, costuma esperar para gozar?



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Imagem: (Katsushika Hokusai/Reprodução)


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4 Comments

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Goza melhor quem sabe gozar só. E gozar junto é um presente, um privilégio - como tal, não pode ser cobrado. Ótimo texto.

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Obrigada, Felipe! Ótimo, o seu comentário.

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Realmente o gozo próprio é uma busca importante nesse processo conturbado que chamamos de vida. Tanto para nós, quanto para os outros que não devem ser tão responsabilizados por nos fazer gozar.


(Assim como Caetano seguiu com seus orgasmos)


Adorei a capa e o texto!

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Com certeza. Precisamos reivindicar nossa autonomia!!

Obrigada pelo comentário

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