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ESTADO DE GRAÇA

há 22 horas
3 min de leitura

*Juliana Maras


“Minha vida está sem graça” é uma expressão que usualmente usamos para dizer que a vida está chata, parada. Eu tenho a impressão de que entendemos essa expressão pelo contrário, uma vida parada não necessariamente deveria significar uma vida sem graça e é sobre isso que quero falar hoje.


Não me entenda mal, não quero dizer que uma vida parada é uma boa vida, até porque de alguma forma mesmo sem nos movimentar, estamos em movimento. Você pode estar parada ou parado lendo esse texto e mesmo assim você segue respirando, o seu estômago segue digerindo o que você comeu há horas atrás e a sua mente faz diversos movimentos tentando conectar esse conteúdo com os conteúdos que você já tem aí dentro. Como já dizia Heráclito, não é possível o mesmo homem adentrar o mesmo rio, pois ambos já são outros após a experiência, portanto, movimento é vida e tentar fixar algo é, na minha opinião, uma das principais causas de adoecimento psíquico.


Atualmente acabamos atrelando movimento à performance, ou seja, quanto mais coisas eu faço, mais interessante a minha vida é. Será mesmo? Suspeito que muito desse fazer acaba se tornando um mecanismo de defesa para justamente não entrar em contato com o movimento da vida, com o real movimento que é seu. Esse tanto de movimento na sua vida é para quê e para quem? Estar se movimentando não necessariamente quer dizer que você está saindo do lugar e não necessariamente não sair do lugar quer dizer que você não está se movimentando. Tem uma frase da peça A Alma Imoral que eu não consigo parar de pensar e acho que ela ilustra bem o que quero dizer: “O quanto dos nossos esforços são oferendas ao nada?”


Portanto uma “vida sem graça” pode ser uma vida muito interessante e na verdade ter muita graça. Acabamos atrelando estresse, problemas, apagar incêndios e matar um leão por dia com um lugar de utilidade na vida, mas isso não tem nada a ver com uma boa vida ou uma vida com graça, apenas nos é um lugar familiar mas que aos pouquinhos acaba nos machucando e adoecendo. É importante tentarmos fazer diferente, porque, assim como o músculo que cresce no descanso após um treino de musculação, e as relações que se aproximam no entre-encontros e não apenas nos encontros, acredito que um estado de graça só se alcança no não movimento, no não fazer. Um não fazer como um espaço potencial criador, para que então possa surgir uma resposta criativa, ou seja, criada por você e não mais pelo outro, pelo mundo exterior. Dessa forma, os movimentos surgem não mais como uma fuga de você mesmo(a) mas como uma expressão e criação de quem você é, de quem você passa a ser, momento a momento. Para mim, isso sim é uma vida cheia de graça, por mais “sem graça” que ela possa parecer para o mundo externo.


Qual é o fio condutor que te tece? Que ao mesmo tempo que muda de cor, que avança na linha, ele segue sendo o mesmo? Que ao mesmo tempo que te transforma, segue te levando a ser cada vez mais você? Se conectar a esse tecido me parece ter mais graça do que movimentos feitos para agradar a uma sociedade que se desconectou há muito tempo do seu próprio novelo. Concorda?


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*Juliana é administradora que vem se tornando psicóloga. Utiliza o esporte como guia para os enfrentamentos da vida e tenta se conscientizar dos processos que são seus para não transbordar nos outros. Acredita que o inconsciente comanda o mundo.


Referência da Imagem: A artista Sareh e a foto publicada no Instagram na data do dia 15/08/2026.


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