EU QUERIA QUE ESSA FANTASIA FOSSE ETERNA...



Glitter. Confetes. Abadás. Paetês. Trios elétricos. Bonecos de Olinda. Galo da Madruga. Escolas de Sambas. Blocos. Fantasias. Gente, muita gente. Alegria. Abraços. Beijos. Sorrisos. Afetos. Praia. Feriadão. Cerveja. Sol. Chuva de verão. Amigos. Relaxamento. Ao menos uma dessas palavras nos representaria em época de carnaval.


Salvador estaria transformada. Ambulantes para todo lado, catadores de latinha, pipoca, camarote. Bloquinho. Pêlo, Barra-Ondina, Campo Grande. Axé. Olodum. A procura de abadás, os turistas chegando. Apesar de todas as desigualdades carnavalescas, ainda seria possível testemunhar corpos dançantes em algum lugar da cidade.


Outros estariam longe da folia. Tomando banho de mar ou cachoeira, mas aproveitando o feriadão da melhor forma possível. Enquanto a cidade vibraria carnaval. Colocaria a poeira para levantar-se. Tiraria o pé do chão e concentraria todo a energia nesse estado de ser que é carnaval. A festa da carne, das paixões. A festa....


Esse ano, a festa não rolou e não vai rolar a festa. Quem imaginária Salvador sem carnaval? Nem nos nossos piores pesadelos... A cidade grita vazio enquanto acontece uma chuva de TBTs. O thought back, relembrar é viver. E tudo o que desejemos agora é viver e sobreviver.


Enquanto isso, o setor musical afunda, com praticamente nenhum apoio dos órgãos de cultura. Grandes marcas deixam artistas emblemáticos de fora do rol de patrocínio para lives -aqui me permito citar Margareth Menezes - se voltado para o puro e simplesmente setor mercadológico com nomes como Ivete Sangalo e Claúdia Leite, uma reprodução digital da exclusão de blocos e personalidades afro. E o Olodum? O Ilê Aiyé? O Gandhi? Os pequenos artistas? Nem se falam deles.


Não obstante, vários profissionais do terceiro setor ficaram sem renda nessa época do ano, principalmente os vendedores ambulantes, que desde o lockdown têm sofrido os impactos negativos da pandemia. Ainda que a prefeitura de Salvador tenha aberto um edital para apoiar trabalhadores informais, o valor ainda é extremamente escasso e provavelmente não cobrirá todos os trabalhadores dessa área. O governo do estado da Bahia, por sua vez, nada anunciou sobre alguma ajuda de custo para essa população.


No mais, algumas empresas privadas estão se mobilizando para tentar arrecadar algo para os ambulantes, à exemplo da Ambev, mas visando algum lucro, já que parte da renda depende do uso de cupom de descontos por consumidores. Mas quem? Se não há consumidor. Outro ponto é a dificuldade de acesso a essas plataformas que majoritariamente são digitais, como foi o caso do auxílio emergencial.


Se gente é para brilhar e não para morrer de fome, nesse carnaval a nossa gente não brilha de suor ou glitter, mas morre de fome. A barriga não espera. E nem dá para converter a dor do cotidiano na catarse em que o carnaval produz. Muitas sensações ficaram nos carnavais passados, nessa potência musical: dos tambores e dos tamborins, na potência da dança, do corpo no centro. Na festa da carne, infelizmente, a nossa carne apodreceu no congelador...




Indicação de leitura: Restos de carnaval, conto de Clarice Lispector. Pode ser lido em Suplemento Pernambuco. 
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Veja aqui no Soteroprosa: Carnaval de Salvador em risco: risco pra quem? , O carnaval: leitura para quem ama e odeia a festa, Guardando para quando o carnaval chegar? 


Foto de capa: Valter Pontes (Secom). re- edição: Jacqueline Gama.


Fontes:


A TARDE, por: Gabriel Andrade. Sem Carnaval, economia baiana perde e trabalhadores informais buscam auxílios. <https://atarde.uol.com.br/bahia/noticias/2157430-sem-carnaval-economia-baiana-perde-e-trabalhadores-informais-buscam-auxilios>


OBSERVATÓRIO DA MÚSICA, por: Louise Barbosa. Margareth Menezes não tem patrocínio para realizar live de Carnaval. <https://observatoriodemusica.uol.com.br/noticia/margareth-menezes-nao-tem-patrocinio-para-realizar-live-de-carnaval>