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FILHOS ARRUINAM VIDAS E NINGUÉM QUER MULHERES FALANDO DISSO



Não se assuste com meu título sem rodeios e quase cruel. Fiz questão de pegar a frase polêmica para causar o incômodo que fará o leitor/a refletir sobre o assunto. Falar sobre filhos e família, especialmente para as mulheres, é um grande tabu social porque lhes é entregue o roteiro mais mediano sobre como tratar esses assuntos ou como se sentir ao viver essa experiência, excluindo qualquer emoção negativa do cardápio da relação mãe e filho.


Escrevo também dentro do contexto de mais um desses escândalos do mundo web. Duas mulheres famosas falam, sem papas na língua, sobre como seus filhos afetam negativamente suas vidas e são duramente criticadas pelos juízes da internet. As pessoas em questão são a cantora britânica Lily Allen, que tem duas filhas, de 10 e 12 anos, que disse tranquilamente em um podcast: “Minhas filhas arruinaram minha carreira”, e complementou:


“Eu as amo e elas me completam, mas em termos de estrelato pop, arruinaram tudo”.

Dentro da conversa, ela explica que, ao escolher a maternidade como prioridade, em termos de acompanhar mais de perto as filhas, teve a sua vida profissional diretamente afetada e, em suas próprias palavras,”arruinada”.


A outra é a participante do BBB 24, Fernanda, mãe de dois filhos, Marcelo, de 11 anos, que é autista e foi abandonado pelo pai com um ano de idade, e Laura, de 5 anos, que tem o pai presente. Em um desabafo com a amiga Pitel, ela comenta sobre os dias difíceis da maternidade, quando está exausta e sem paciência com os filhos.  É uma fala cheia de vulnerabilidade e descritiva de seu sofrimento na criação das crianças, porém, um trecho dela viralizou:


“Tem dia que você quer matar seus filhos. Você quer ser presa. Tem dia que você olha aquelas crianças e você fala: ‘Se eu morasse em um prédio, eu jogava pela janela’.”

Pronto! Esse foi o estopim para as pessoas massacrarem a carioca e invalidarem sua maternidade e seu amor materno, incluindo aí comentários de pessoas famosas como Xuxa que a criticou. 


Por outro lado, homens abandonam filhos rotineiramente, como trazem os dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) sobre as mais de 172 mil crianças no Brasil em 2023 sem o nome do pai na certidão de nascimento (5% maior do que o registrado em 2022), e normalizamos o comportamento masculino. De fato, estamos estruturados em uma sociedade que escolhe exatamente qual é o lugar de cada gênero quando o assunto é reagir ao que lhe incomoda, com infinito perdão a atitude dos homens, e com desconfiança e criticismo a qualquer sinal de explanação de problemas da conjuntura feminina. 


Isso não é à toa! O silenciamento das dores das mulheres normaliza a posição delas de exclusividade no espaço de cuidado da vida privada, ainda que ela esteja submetida a situações insuportáveis em termos de estresse e cansaço. Existe até um quadro clínico para definir o cansaço e o estresse crônico de mães sobrecarregadas com as funções materna, o “mommy burnout”, que é caracterizado por sentimentos constantes de culpa, excesso de pessimismo, exaustão mesmo após o repouso, sentimento de fracasso e impotência, irritabilidade sem motivo aparente e muito mais. 


Quando pessoas se assustam com mulheres-mães falando como os filhos atingem suas vidas, não porque as crianças em si sejam dotadas com poderes de destruir a vida de alguém, mas, devido o fato de escolhermos um modelo beirando ao colapso ao acumular o espaço de cuidar inteiramente para as mulheres da família, é porque é incabível validar os sentimentos de sofrimento para aquilo que aparentemente foi criado para ser feito apenas em nome do amor. No entanto, as mães estão por aí, nos avisando que o amor materno não passa de uma mera fantasia que transforma a experiência de uma relação importante e intensa incabível de ser questionada ou reajustada. 


Dos exemplos citados, o que as pessoas esperam é que a cantora em questão não diga que as filhas arruinaram sua carreira, mas que ela escolheu abandonar a profissão por amor a elas. Só que não foi isso o que aconteceu! A mulher que quis ser cantora e amar sua profissão é a mesma que cuida e protege suas filhas plenamente. A sociedade que não lhe deu permissão, apoio ou uma mínima estrutura para assumir essas áreas e sentir-se satisfeita como mulher, no profissional e no pessoal. Da mesma forma, a Fernanda do BBB deveria comentar das suas dores maternas dentro dos limites do ditado “padecer no paraíso”. Transparecer que ela chega ao limite de exaustão ao ponto de cogitar comportamentos violentos pelo estresse causado é insuportável, não importa os anos de sacrifício dela pelos seus filhos e todo o amor que ela oferece a eles. Proferir essas palavras é diminuir a sacralidade materna. 


Enfim, essas situações que causaram tanto polêmica podem ser um bom motivo para reavaliar nosso espanto ao receber o inesperado das mulheres-mãe e, quem sabe, ouvir atentamente o que elas têm a dizer sobre suas vivências na parentalidade sobrecarregada e solitária que normalmente lidam no dia a dia. Quebrar essa aura ilusória sobre ser mãe depende que, por um lado, elas rompam seu silêncio e, por outro, que nós aceitemos as palavras proferidas sem julgamentos, sem interrupções desnecessárias e sem alardes absurdos. Deixem as mães falarem. Deixem as mães reclamarem. 



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Eu sou solteira e não tive filhos. Quando uma mulher "ousa" dizer que não deseja ser mãe, ter filhos, isso soa cruel e frio, como se a maternidade amorosa estivesse no DNA de toda mulher, como se ser mãe não fosse uma escolha, como é "natural" ser ou não ser pai para os homens. Perpetua-se a crença, muito conveniente, de que existem "inclinações" próprias para as mulheres que tendem ao aprisionamento, e outras para os homens que tendem a espaços de total liberdade.

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Pouquíssimos homens saberão o que é ser uma mulher abandonada com filhos pra criar sozinha.

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