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FILOSOFIA, TEOLOGIA E POLÍTICA: Ressentimento, moral dos ressentidos e inveja

há 22 horas
8 min de leitura

Há sentimentos que gritam. A raiva é um deles. Há outros que choram, como a tristeza. O ressentimento, porém, costuma sussurrar. Ele não chega dizendo seu nome. Disfarça-se de justiça, de indignação, de superioridade moral e, algumas vezes, até de virtude. É exatamente por isso que se torna tão difícil reconhecê-lo. O ressentido raramente diz: “eu me ressinto de você”. Prefere dizer: “há algo errado com você”.


Nietzsche compreendeu como poucos essa arquitetura subterrânea da alma humana. Em Genealogia da moral (Nietzsche, 1998, p. 25), especialmente na primeira dissertação, ele investiga não simplesmente aquilo que chamamos de bem e mal, mas pergunta de onde vieram essas palavras, quem teve o poder de pronunciá-las e quais afetos estavam escondidos quando determinados valores foram transformados em verdades morais.


Essa pergunta é decisiva porque Nietzsche desconfia da inocência das palavras, pois quando alguém chama alguma coisa de “boa”, talvez não esteja apenas descrevendo uma qualidade. Pode estar produzindo uma hierarquia. Quando chama alguém de “mau”, talvez não esteja apenas realizando um julgamento moral. Pode estar tentando diminuir aquilo que não consegue alcançar.


É nesse terreno que aparece o ressentimento. Este nasce quando a força não encontra caminho para tornar-se ação. Alguma coisa foi sentida, sofrida, desejada ou invejada, mas não pôde ser enfrentada diretamente. O afeto não desaparece. Ele permanece. Retorna. Repete-se. Alimenta-se da memória.


Ressentir é, nesse sentido, sentir novamente. Não é simplesmente sofrer uma ferida. É impedir que a ferida termine de acontecer. A pessoa ressentida transforma o passado em residência. Aquilo que aconteceu ontem continua acontecendo hoje porque ela necessita retornar à cena, reconstruir o acontecimento, alimentar a ofensa e conservar o culpado. Há sempre alguém que precisa continuar sendo responsável pela sua dor. Talvez seja essa uma das tragédias do ressentimento: o ressentido acredita estar aprisionando o outro em sua condenação, mas é ele quem permanece preso ao condenado.

Nietzsche percebe, entretanto, algo ainda mais profundo. O ressentimento pode ultrapassar a esfera individual e tornar-se produtor de valores. É quando chegamos àquilo que poderíamos chamar de moral dos ressentidos.


Na interpretação nietzschiana, existe uma diferença fundamental entre afirmar a própria existência e construir a própria identidade pela negação da existência do outro. A moral nobre começa dizendo “sim” a si mesma. A moral do ressentimento necessita primeiro dizer “não” ao outro.

Esse detalhe muda tudo. Há uma existência que afirma: Eu sou. E há outra que necessita dizer: Você não deveria ser. A segunda somente consegue estabelecer sua própria grandeza diminuindo aquilo que está diante dela.


Mas o ressentimento não permanece necessariamente sozinho. Ele procura companhia. E quando ressentimentos semelhantes se encontram, podem experimentar uma sensação poderosa de pertencimento. É aqui que a moral dos ressentidos se aproxima daquilo que Nietzsche identifica como moral de rebanho.


O rebanho oferece ao ressentido aquilo que sozinho talvez não possuísse: legitimação. Aquilo que era uma antipatia particular pode adquirir aparência de causa coletiva. O incômodo individual passa a falar na primeira pessoa do plural. Já não se diz “eu não gosto”. Diz-se “nós não aceitamos”. Já não se diz “eu me sinto ameaçado”. Afirma-se que “todos estamos ameaçados”. Já não se reconhece “eu gostaria de possuir aquilo que ele possui”. Declara-se que “ninguém deveria possuir aquilo”.


O “eu” ressentido aprende rapidamente a pronunciar “nós”. É justamente aqui que precisamos distinguir aquilo que poderíamos chamar de coletivo daquilo que proponho chamar de pseudocoletivo. Desta forma, o coletivo autêntico não significa a eliminação da singularidade. Pelo contrário, somente existe comunidade onde diferentes singularidades conseguem habitar um espaço comum sem precisarem tornar-se cópias umas das outras. O coletivo pressupõe diferenças, conflitos, negociações, dissensos e reconhecimento.


O pseudocoletivo funciona de maneira diferente. Ele produz uma aparência de comunidade enquanto exige uniformidade. As pessoas estão juntas, mas sua união depende da existência de alguém contra quem possam permanecer juntas.


Não é propriamente um “nós com”. É um “nós contra”. É um “nós contra”. E essa diferença é fundamental. Há comunidades que nascem do desejo de construir alguma coisa. Outras somente conseguem permanecer reunidas porque necessitam destruir simbolicamente alguém. Nesse segundo caso, o inimigo torna-se indispensável. Se ele desaparecer, o grupo corre o risco de descobrir que talvez não possua mais nenhuma razão para continuar unido.


O pseudocoletivo precisa, portanto, fabricar continuamente seus desviantes, seus culpados, seus traidores, seus inadequados. Precisa encontrar aquele que pensa diferente, aquele que se destaca, aquele que não repete as palavras esperadas, aquele que não participa do coro.


O rebanho suporta mal a diferença porque a diferença revela que seria possível existir de outra maneira. Talvez seja isso que mais incomode. Não necessariamente aquilo que o outro faz, mas o fato de que sua existência demonstra que outros modos de vida são possíveis.


A moral de rebanho transforma então a conformidade em virtude. Ser semelhante torna-se sinal de bondade. Pensar igualmente torna-se demonstração de pertencimento. Repetir determinadas palavras passa a funcionar como certificado moral. Aquele que pergunta demais começa a parecer perigoso. Aquele que discorda torna-se suspeito. Aquele que se afasta do consenso passa a ser interpretado não simplesmente como alguém diferente, mas como alguém moralmente inferior.


É nesse momento que a moral do rebanho encontra sua força mais perigosa: a possibilidade de transformar ressentimentos privados em condenações coletivamente autorizadas. Aqui encontramos uma inquietante proximidade entre ressentimento, moral de rebanho e inveja. Esta última talvez seja um dos afetos humanos mais difíceis de confessar. Admitimos tristeza, medo, ansiedade, raiva. Podemos até confessar ódio. Mas dificilmente alguém diz tranquilamente: “tenho inveja daquela pessoa”. A inveja possui vergonha de seu próprio nome. Por isso ela se fantasia. Pode vestir a roupa da crítica. Pode aparecer como preocupação. Pode assumir a linguagem da prudência. Pode transformar-se em julgamento moral. E pode, sobretudo, encontrar enorme satisfação em descobrir defeitos naquele que possui aquilo que desejamos.


Não podendo dizer “eu gostaria de ter aquilo”, dizemos: “aquilo não tem valor”. Não podendo dizer “eu gostaria de chegar onde ele chegou”, dizemos: “ele não merece estar ali”. Mas há uma operação ainda mais sofisticada. Em vez de simplesmente dizer “ele não merece”, procuramos outras pessoas dispostas a dizer conosco: “Ele não merece.” A inveja individual encontrou o rebanho. Agora já não parece inveja. Parece consenso.


E talvez poucas coisas sejam tão perigosas quanto um ressentimento que conseguiu transformar-se em consenso moral. A quantidade de pessoas que repetem uma acusação não revela necessariamente a verdade da acusação. Algumas vezes revela apenas a capacidade de determinado afeto produzir contágio.


Nietzsche nos ajuda a desconfiar justamente desses consensos demasiadamente confortáveis. Não para concluir que toda coletividade seja rebanho ou que toda crítica coletiva seja ressentimento. Essa seria uma leitura pobre e politicamente irresponsável de Nietzsche. Existem lutas coletivas legítimas, movimentos históricos de resistência, comunidades organizadas contra injustiças reais e experiências de solidariedade capazes de produzir transformação. O problema não é o coletivo. O problema é o pseudocoletivo. O problema aparece quando a comunidade deixa de existir para alguma coisa e passa a existir apenas contra alguém.


Talvez as redes sociais sejam um dos laboratórios mais interessantes para observar esse fenômeno em nosso tempo. Nunca estivemos tão expostos ao olhar dos outros e nunca tivemos tantas oportunidades de observar a vida alheia. Vemos viagens, corpos, livros, títulos, relacionamentos, casas, restaurantes, conquistas profissionais, afetos e felicidades cuidadosamente enquadradas. E a comparação incessante produz seus próprios fantasmas.


Mas as redes oferecem algo que Nietzsche não conheceu tecnologicamente, embora talvez tenha antecipado filosoficamente: a possibilidade de formação instantânea do rebanho. Basta uma postagem. Um comentário. Uma frase retirada do contexto. Um erro. Uma fotografia. E rapidamente se forma uma multidão moral. Todos julgam. Todos condenam. Todos parecem possuir absoluta certeza sobre aquilo que aconteceu. E cada participante recebe do outro a confirmação de sua própria virtude.


O rebanho contemporâneo pode possuir hashtags, grupos, bolhas, seguidores e algoritmos. Pode inclusive utilizar uma linguagem aparentemente libertária, progressista, conservadora, religiosa, acadêmica ou revolucionária. O ressentimento não possui ideologia fixa. Ele pode habitar qualquer discurso quando o discurso deixa de buscar compreensão e passa a funcionar como instrumento de vingança.


Por isso é necessário cuidado. Nem toda indignação coletiva é rebanho. Nem toda denúncia é ressentimento. Nem toda crítica é inveja. Mas também não devemos imaginar que utilizar palavras como justiça, democracia, comunidade, fé, ciência, igualdade ou liberdade nos torne automaticamente imunes ao ressentimento.


O ressentimento também sabe ler. Também sabe escrever. Também sabe rezar. Também frequenta universidades. Também participa de movimentos. Também sobe aos púlpitos. Também ocupa cargos. Também publica nas redes sociais. E, sobretudo, o ressentimento sabe utilizar palavras bonitas.


Existe uma pergunta simples para reconhecer o pseudocoletivo: o que aconteceria com esse grupo se desaparecesse a pessoa contra quem ele se organiza? Se a resposta for “o grupo perderia sua razão de existir”, talvez não tenhamos propriamente uma comunidade.


Talvez tenhamos um ressentimento compartilhado. O coletivo verdadeiro possui projeto. O pseudocoletivo possui inimigo. O coletivo produz. O pseudocoletivo acusa. O coletivo suporta diferenças internas. O pseudocoletivo exige fidelidade. O coletivo consegue perguntar. O pseudocoletivo necessita de certezas. O coletivo deseja construir alguma coisa que ainda não existe. O pseudocoletivo deseja impedir que alguém continue existindo como diferença.


Aqui a moral do rebanho revela sua profunda dificuldade diante da singularidade, pois o indivíduo singular incomoda porque não necessita da aprovação permanente do grupo. Sua existência pode colocar em questão os valores que o rebanho transformou em evidências. Por isso Nietzsche insiste tanto na capacidade de criação.


Criar valores exige suportar certa solidão. Não a solidão narcísica daquele que acredita ser superior a todos, mas a solidão daquele que consegue perguntar mesmo quando todos parecem satisfeitos com as respostas.


É aqui que a inveja pode sofrer uma transformação. Aquilo que invejamos revela, algumas vezes, aquilo que secretamente desejamos. Em vez de destruir simbolicamente aquele que possui aquilo que nos falta, talvez possamos perguntar o que aquela existência revela sobre nossos próprios desejos.


A inveja poderia então deixar de ser veneno e tornar-se diagnóstico. O outro não precisaria diminuir para que eu pudesse crescer. Sua luz não precisaria apagar para que a minha pudesse existir. Sua conquista não seria necessariamente a declaração da minha derrota.


Existe espaço suficiente no mundo para que a existência do outro não seja interpretada como uma ofensa à minha. Talvez seja justamente isso que o ressentido não consiga suportar: a existência do outro em sua diferença, potência e alegria.


Por isso tenta moralizá-lo. Reduzi-lo. Desqualificá-lo. E quando sozinho não consegue realizar essa tarefa, procura o rebanho. Este oferece testemunhas. Oferece aplausos. Oferece a confortável sensação de que, se muitos pensam da mesma maneira, então devemos estar certos. Mas Nietzsche nos obriga a desconfiar justamente desse conforto.


A verdade não se torna verdadeira porque recebeu muitos aplausos. E a crueldade não se torna justa simplesmente porque passou a ser praticada coletivamente. No fundo, o ressentimento é uma estranha forma de dependência. O ressentido afirma odiar determinada pessoa, mas continua organizando sua existência ao redor dela. Fala dela. Pensa nela. Observa-a. Compara-se com ela. Espera sua queda.


Quando encontra outros ressentidos, transforma essa dependência individual em ritual coletivo. Todos passam a vigiar o mesmo inimigo. Todos falam sobre ele. Todos aguardam seu erro. Todos celebram sua queda. E aquilo recebe o belo nome de “coletividade”.


Mas talvez não seja. Talvez seja apenas solidão compartilhada. Um conjunto de indivíduos que não conseguiu transformar suas próprias feridas e, por isso, encontrou na ferida comum uma maneira de permanecer junto.


Que extraordinária ironia: aquele que desejamos diminuir acaba ocupando um lugar gigantesco dentro de nós. E aquele que o rebanho pretende expulsar termina ocupando o centro simbólico do próprio rebanho.


Talvez Nietzsche nos convidasse, então, a uma pergunta ainda mais incômoda: quanto daquilo que chamamos de coletivo nasce realmente do desejo de construir um mundo comum e quanto é apenas ressentimento individual que encontrou outras vozes para pronunciar “nós”?


Há uma diferença profunda entre comunidade e rebanho. A comunidade pode nascer do encontro entre diferenças. O rebanho necessita transformar diferenças em ameaças. A comunidade constrói vínculos. O rebanho procura culpados. A comunidade consegue existir sem inimigos. O pseudocoletivo necessita deles.


Há venenos que matam rapidamente. O ressentimento não. Ele prefere doses pequenas. Cotidianas. Persistentes. Assim, quando encontra a inveja, aprende a desejar a queda do outro. Quando encontra a moral, aprende a chamar essa queda de justiça. Quando encontra o rebanho, aprende a chamar sua vingança de vontade coletiva.


E talvez seja justamente aí que o veneno alcance sua forma mais sofisticada: quando o “eu” ressentido desaparece atrás de um “nós” aparentemente virtuoso. Superar o ressentimento, portanto, não significa apenas libertar-se daquele que nos feriu. Significa também ter coragem suficiente para abandonar o conforto do rebanho quando percebemos que aquilo que chamávamos de comunidade era apenas uma reunião de feridas procurando alguém para culpar.


Porque nem todo “nós” é comunidade. Às vezes, é apenas o ressentimento falando no plural.


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Referência


NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.




 
 
 

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