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FLÁVIO E MICHELLE DISPUTAM O CONTROLE DA DIREITA NOS PRÓXIMOS ANOS



Enquanto o Brasil ganha uma espécie de bálsamo com a Copa do Mundo – em que as mazelas do dia-dia, se não combatidas, ao menos têm uma espécie de alívio –, o cenário político continua a todo vapor. A mais recente querela gira em torno do conflito deflagrado entre Flávio Bolsonaro e sua madrasta, Michelle Bolsonaro. A crise foi tão grande que fez Valdemar Costa Neto (sim aquele mesmo), presidente do Partido Liberal (PL), retornar de sua viagem aos Estados Unidos para debelar a situação e, ao que parece, sem sucesso.


Contudo, o vídeo publicado por Michelle no último dia 25 de junho não é um raio numa noite de céu sereno, mas talvez deslinde um movimento importante da política brasileira e que diz respeito ao destino do bolsonarismo e da hegemonia do campo da direita nos próximos anos. Em primeiro lugar, resta claro e evidente, não apenas pelas coisas que foram ditas sobre as atitudes de Flávio Bolsonaro por sua madrasta, mas pela rápida mobilização de influenciadores ligados ao bolsonarismo nas redes sociais, como os ataques desferidos por Paulo Figueiredo, que para além do que Michelle não disse, a questão é também de gênero.


Em tempo, se é verdade que, estatisticamente, mulheres votam de maneira diferente de homens, o neto do nosso último ditador partiu para um argumento que não tem nada de novo, mas está longe de representar um caso isolado. Tem crescido o número de movimentos nos Estados Unidos que, abertamente, questionam o voto feminino. Ou seja, o apoio de Paulo Figueiredo a Flávio, que ele diz repudiar, se conecta a um movimento mais amplo de questionamento aos princípios historicamente consolidados das democracias liberais, entre eles a universalidade do sufrágio e o princípio da igualdade.


Aliás, diga-se de passagem, não é apenas a direita equestre que é boa em inferiorizar mulheres, porque, nesse país, ela parece ser ambidestra, como comprovam os vis ataques que a jornalista Malu Gaspar sofreu ao longo das apurações sobre o escândalo do Banco Master.


Contudo, parece-me que Flávio e Michelle Bolsonaro não ensaiam apenas um escândalo familiar, desses que grassam nas tardes televisivas, mas ambos apontam para um fenômeno de caráter sociológico da rotinização do carisma, que apareceu pela primeira vez em Max Weber, na obra póstuma, Economia e Sociedade. Ao analisar os tipos de dominação, Weber afirma que, quando a autoridade de um líder carismático precisa ser institucionalizada para sobreviver para além de sua figura de autoridade centrípeta, ela se converte em estruturas de dominação tradicional ou racional-legal — processo que ele batiza de rotinização do carisma.


O "dilema weberiano" da rotinização do carisma está justamente em compreender os mecanismos que podem traduzir apelo pessoal em capital social ou político. Uma das maneiras que Weber aponta é a transmissão para um sucessor, algo semelhante ao que Jair Bolsonaro fez ao nomear o "01" como seu candidato a presidente, numa espécie de rotinização do carisma pela via da tradição. Afinal, não se trata necessariamente de ganhar a eleição, mas sim de manter o bolsonarismo, em particular, e a direita, de maneira geral, sob a batuta dos Bolsonaro. Com efeito, esse processo, inserido na contingência constitutiva da política, não é automático e pode estar aberto a disputas, algo que também tem paralelos em nossa história.


Em seu fabuloso Sindicatos, carisma e poder: o PTB de 1945 a 1965, Maria Celina d'Araújo reconstrói o processo de formação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), em que as diversas correntes que o formaram, malgrado algumas defecções, mantiveram-se coesas mesmo após a morte de Getúlio Vargas, que já havia escolhido João Goulart como sucessor.


Com efeito, o getulismo não se restringia apenas ao herdeiro político, mas era um recurso simbológico mobilizador e aglutinador da máquina partidária. Como disse certa vez Alberto Pasqualini, intelectual petebista, o getulismo saíra de um quadro de personalização para a personificação do trabalhismo. Não obstante, o PTB conviveu com disputas internas pela hegemonia do partido, em que trabalhistas e moderados (para utilizar a terminologia de Ângela Gomes), disputavam a legitimidade do controle partidário.


E é exatamente isso que estamos assistindo: com Bolsonaro fora do jogo, a luta agora é pelo controle desse apelo pessoal centrado em sua figura que, malgrado os adoradores de pneus, constituiu-se, desde 2018, no principal polo de oposição ao Partido dos Trabalhadores (PT). Nesse sentido, é preciso encarar Michelle para além da fachada aparente de esposa do Jair, mas como uma liderança política que vem realizando um intenso trabalho de mobilização partidária, especialmente junto ao eleitorado feminino conservador. O recorde de investimentos no setor feminino entre os partidos pertence ao PL, que desembolsou cerca de 16 milhões de reais, quase o dobro do PT, partido que, historicamente, sempre esteve ligado a movimentos de mulheres.


O mantra aplicado ao movimento de base feito pelo PL país afora é ter a família como principal bússola que, aliás, integra o kit distribuído a todas as mulheres que participam das reuniões. No vídeo em que se defende de Flávio, Michelle reiteradamente põe sua decisão não como um desiderato individual, mas uma espécie de dever para com a família. Assim, é necessário encarar o óbvio: o que está em jogo é o poder decisório dentro do partido, pelas indicações e, sobretudo, para onde irá o bolsonarismo pós-Bolsonaro. E, se depender de Michelle, ainda que fora das hostes do partido, esse caminho será feminino.


E essa senda trilhada por Michelle retoma uma discussão acadêmica de mais de meio século sobre a formação dos partidos políticos no Brasil. Passando pelo período oligárquico de baixíssima participação eleitoral, o período entre 45 e 64 deu ao país a possibilidade de que partidos políticos conseguissem representar setores da sociedade, ainda que os dois maiores – o PTB e o Partido Social Democrático (PSD) – tenham sido forjados nos escombros do Estado Novo, seguidos pela União Democrática Nacional (UDN) e o saudoso Partido Comunista Brasileiro, este operando quase que todo o tempo na ilegalidade.


Como nos lembra a autora Maria do Carmo Campello de Souza, em seu Estado e partidos políticos no Brasil (1930 a 1964), um dos entraves para o enraizamento do sistema partidário foi a excessiva centralização dos recursos no aparelho burocrático estatal, favorecendo a lógica de partido como correia de transmissão clientelista, malgrado a crescente participação nas eleições. Contudo, excetuando o PT e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) em seu nascedouro, a tese de um descolamento entre representação e eleição mantém sua disjuntiva durante o período pós-ditadura. Em que pese o voto obrigatório, o país ostenta bons níveis de comparecimento às urnas, mas há pouca conexão entre eleitor e eleito.


E é aí que entra o fenômeno Michelle: guardadas as diferenças históricas e ideológicas, o movimento que ela encabeça tem uma capacidade de mobilização territorial que, sob certos aspectos organizacionais, lembra as Comunidades Eclesiais de Base, fecundas nas periferias brasileiras nos anos 80 e que também serviram de base para a formação do PT.


Assim, ela tem conseguido criar uma militância feminina orgânica, real e, pela primeira vez, fora da órbita progressista. O que se desenha é a possibilidade de que, seja lá em que partido abrigar seu projeto, Michelle lidere um movimento político, com bastante representatividade demográfica: mulheres de perfil conservador, um eleitorado com o qual a esquerda não parece querer qualquer tipo de interlocução, para além das formulações teóricas de uma elite encastelada (e pendurada) em universidades.


Ainda que pareça inusitado, basta olhar a mudança do perfil do eleitorado que vota à direita, para perceber que o setor progressista não é mais o estuário das preferências da classe trabalhadora, frustrada com os rumos da globalização. Assim, enquanto o jogo de 2026, malgrado qualquer incidente, parece manter o roteiro das duas últimas eleições, há um movimento muito mais importante que, assim como a rotação terrestre, ocorre sem que nos demos conta. Para quem queria conexão entre sociedade e política, aguardem as cenas dos próximos capítulos, porque, se esse mesmo eleitorado foi o fiel da balança em 2022, nada garante que ele ainda se mantenha pretensamente como muleta para a defesa da democracia.



REFERÊNCIAS UTILIZADAS


CNN BRASIL. Entenda o atrito envolvendo Michelle e Flávio Bolsonaro. CNN Brasil,

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_____. Michelle fala em "punhalada" e expõe atrito com Flávio Bolsonaro. CNN

Brasil, São Paulo, 25 jun. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/michelle-fala-em-punhalada-e-expoe-atrito-com-flavio-bolsonaro/. Acesso em: 5 jul. 2026.

 

_____. "Me maltratou", "foi ríspido": veja as frases de Michelle sobre Flávio.

CNN Brasil, São Paulo, 25 jun. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/me-maltratou-foi-rispido-veja-as-frases-de-michelle-sobre-flavio/. Acesso em: 5 jul. 2026.

 

D'ARAUJO, Maria Celina. Sindicatos, carisma e poder: o PTB de 1945-65. Rio de

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GADELHA, Igor. Valdemar volta dos EUA e procura Flávio e Michelle Bolsonaro.

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REVISTA OESTE. Valdemar volta dos EUA às pressas para conter racha no PL. Revista Oeste, São Paulo, 26 jun. 2026. Disponível em: https://revistaoeste.com/politica/valdemar-volta-dos-eua-as-pressas-para-conter-racha-no-pl/. Acesso em: 5 jul. 2026.

 

SOARES, Jussara. PL vê Michelle extrapolar limites ao expor atrito com Flávio. CNN Brasil, São Paulo, 25 jun. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/jussara-soares/politica/pl-ve-michelle-extrapolar-limites-ao-expor-atrito-com-flavio/. Acesso em: 5 jul. 2026.

 

SOUZA, Maria do Carmo Campello de. Estado e partidos políticos no Brasil (1930 a

1964). São Paulo: Alfa-Ômega, 1976.

 

WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. v. 1. Tradução de Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa. Brasília: Editora UnB, 2000.

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