FÉ NO MENGO: o primeiro tetracampeão da Libertadores da América
- Jacqueline Gama

- 29 de nov. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 30 de nov. de 2025

Existem narrativas no futebol que são inexplicáveis. E alguns times possuem uma aura de campeão, este é o Clube de Regatas do Flamengo (CRF), que contra tudo e contra todos, do céu ao inferno, mobiliza multidões de corações apaixonados, formando a maior torcida do Brasil, pulsando de ponta a ponta. Se nos seus anos de endividamento e pouco investimento o Flamengo já era tudo isso, hoje ele é muito mais.
No dia 29 de novembro de 2025 aconteceu talvez uma história de redenção, diante do seu maior rival da atualidade, o Palmeiras, que ganhou o título da Libertadores sobre o Flamengo em 2021 com o antagonista, Andreas Pereira. O vilão da Nação rubro-negra se tornou um dos heróis palmeirenses, tanto que chegou no Allianz Parque como ídolo do grande clube alviverde.
Mas, a história vermelha e preta opera resignação e milagre. Em 2022, o Flamengo fez uma campanha histórica, sem perder um jogo e conquistou a terceira glória eterna. Em 2019, o bicampeonato veio depois de 38 anos, e todo flamenguista deve se arrepiar até hoje ao lembrar da virada de Gabriel Barbosa, Gabigol, que, diante de um dos maiores River Plate, marcou dois gols: “Olha a virada Gabriel”. Em 3 minutos, o Flamengo operou milagres e se consagrou campeão.
Comparativo entre 2019 com 2025
Em ambos os anos existiu um sentimento de AURA: “Atmosfera imaterial que envolve certos seres: uma aura de santidade.” Em 2019, o Flamengo de Jorge Jesus pelas fases da Libertadores sofreu com oscilações, decidiu os pênaltis contra o Emelec e protagonizou uma goleada contra o Grêmio, o famoso "cincum" (5x1).
Em 2025, passou nos pênaltis contra o Estudiantes de La Plata, nas quartas. E nas semis, venceu em casa, mas no jogo de volta contra o Racing, precisou segurar um empate na Argentina com um a menos em campo. Mais um caminho de oscilação e um sofrimento ainda maior.
Nesses dois anos o Flamengo não chegou como favorito. Em 2019, o River Plate era o atual campeão da competição (2018), após vencer um clássico contra o Boca Juniors, seu rival direto, em uma partida inesquecível, assim como esse Flamengo e Palmeiras.
Em 2025, apesar da fase ruim do Palmeiras na reta final do campeonato Brasileiro, o time alviverde havia chegado como a melhor campanha da Libertadores, inclusive ganhando do River Plate e feito uma remontada histórica em casa, após perder de 3x0 na altitude de Quito, ele virou o placar: 4x0 contra a LDU e uma vaga na final.
Outra coincidência; ambas as finais ocorreram no Estádio Monumental “U”, em Lima, no Peru. Neste ano de 2025, o Flamengo também lotou Lima, esgotou os ingressos para o seu setor. Além de contar com a presença dos jogadores Arrascaeta e Bruno Henrique, do técnico Filipe Luís, e do membro da comissão técnica Rodrigo Caio.
Os quatro estavam em campo naquela final de 2019. E, conduziram o time, em 2025, para mais uma taça histórica. Menção para Filipe, ídolo do Flamengo, que, em pouco mais de um ano como técnico profissional mostrou inteligência, perspicácia, paciência, humildade e pés no chão.
Mas, o apelo principal que iguala 2025 com 2019 é o peso do título, em dezenove existia a chance do bicampeonato após quase 40 anos, o que parecia impossível, e, de fato a glória foi uma manifestação de milagre para quem assistiu àquela partida, com a virada em 3 minutos, nos 43'' e nos 46'' do segundo tempo.
Em 2025, o apelo era a conquista do tetracampeonato na maior competição da América, algo inédito para um time brasileiro, igualando aos argentinos River Plate e Estudiantes de La Plata. No caso do Flamengo, mais um sabor, a possibilidade de revanche ou redenção pela Libertadores de 2021. A mobilização da torcida foi tão grande no tetra quanto no ano do bicampeonato.
Aerofla e fé
Como em 2019, a torcida se mobilizou no Aerofla, típica manifestação de torcedores do Flamengo que, em multidão, percorreram as avenidas do Rio de Janeiro (RJ) para apoiar o clube. Milhares de torcedores foram em fé e alegria “empurrando” o ônibus, fazendo um cinturão de força e amor, até o Galeão, aeroporto internacional do RJ, transbordando paixão pelo time.
Em 2025, tivemos um Aerofla épico, “seja na terra, seja no mar”, a pé, em embarcações, e motos. Até torcedores subiram no ônibus e invadiram, o que causou polêmica pela falta de segurança, expondo os jogadores. Mas, que se evidenciou como um gesto de carinho, apoio e gratidão, como se a torcida no seu intimo clamasse: “vocês estão nos braços do povo”, “precisamos lavar a alma, “tragam o tetra”, "façam história". O voo para Lima bateu recorde, foi o mais acompanhados na história de um clube de futebol.
Entre gritos de apoio, santinho de São Judas Tadeu, santo das causas impossíveis, padroeiro do Flamengo, e pela força de Xangô, Deus africano, cultuado no Candomblé, conhecido por trazer a justiça, e que, pelo sincretismo religioso é feita a analogia com o santo católico, a torcida transcendeu nas ruas.
E o flamengo com muita fé e futebol chegou no topo, com um gol do zagueiro Danilo, que é declarado flamenguista. Selando o placar de 1x0. Ele subiu no segundo andar para colocar a bola na rede. Penso: ele voou, ele foi carregado pelos deuses do futebol. O batedor, ou melhor, a assistência do escanteio veio de Giogian De Arrascaeta, o camisa 10 da Gávea, número da lenda do futebol brasileiro e rei do Flamengo: Zico. O uruguaio se tornou Rei da América em 2025.
Sem dar um chute no gol, o Palmeiras se tornou vice do Flamengo em um jogo pegado, com dois lances polêmicos de Rafael Veiga do Palmeiras, um dos autores de gol em 2021, e Eric Pulgar, o volante pitbull do Flamengo. Ambos pertinentes de cartão vermelho, mas que foram julgados como amarelos pela arbitragem argentina. Porém, lances a parte, venceu quem jogou melhor, e esse foi o Clube de Regatas do Flamengo.
Flamengo: patrimônio cultural do Brasil
Em 2025, o Flamengo teve o reconhecimento como patrimônio cultural imaterial do Rio de Janeiro. O Flamengo possui a maior audiência de TV, movimenta bares, restaurantes, e mobiliza as torcidas a favor e adversária. Lota o Maracanã. E ao redor do Brasil, esgota os setores visitantes, além de mobilizar a torcida da casa, batendo recordes de público.
O hino do Flamengo já foi interpretado por Tim Maia e Jorge Ben, que, flamenguista raiz, compôs duas músicas em homenagem ao Mengão: “Fio Maravilha” homenageou o atacante homônimo das décadas de 60 e 70. E “Camisa 10 da Gávea”, em homenagem ao Zico.
Além disso, tricolores, como Gilberto Gil, torcedor do Bahia e Fluminense, também celebrou o Flamengo em “Aquele Abraço” ao citar a torcida magnética na letra. E o dramaturgo, torcedor do Fluminense, Nelson Rodrigues, já dizia: “Bastará à camisa, aberta no arco. E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.”
Hoje, a camisa do Flamengo é uma bastilha de “Raça, Amor e Paixão”. E ser Flamengo, meu amigo e minha amiga, é inexplicável. Ser flamengo é amuleto, é ser chamado de “mulambo”, expressão elitista, já que a torcida se criou majoritariamente na favela, tendo como maioria pessoas negras e pobres. Ser flamengo é ser hostilizado e amado, mas continuar andando feliz.
Ser Flamengo é resistência em história. Após inúmeras manifestações racistas que utilizavam o “urubu” como ofensa, num clássico contra o botafogo, uma ave de urubu foi solta pela torcida do flamengo, pousando no campo, dando sorte para a vitória de 2x1. E a partir daí se tornou mascote do rubro-negro.
Flamengo é herança de pai para filho/filha, de avô para neto/neta, embora exista a narrativa de que se popularizou no país porque eram os jogos do Rio e São Paulo que passavam na Tv aberta nos anos 1980, fazendo com que o time chegasse nas casas dos brasileiros, convertendo os naturais de outras regiões, como Norte e Nordeste. Mas, por que só o Flamengo? A narrativa não bate.
Essa pauta até hoje promove xenofobia, já que muitos torcedores do Flamengo que não são do centro sofrem preconceito das torcidas das localidades. Mas, como dizer que paixão se explica? Flamengo é herança e cultura e hoje também é sinônimo de títulos e vitórias.
O tetracampeonato da Libertadores não poderia ter sido mais épico se não para o time com 40 milhões de apaixonados, se não para aquele que agrega as populações vulneráveis, e para a torcida que coloca a bandeira e o time em seus braços, deixando tudo para trás.
O Flamengo abre uma nova era para os times brasileiros, como fez em 1981, como fez em 2019, fazendo com os outros clubes se estruturem para competir contra o Flamengo e elevar o nível das competições nacionais e internacionais. O Flamengo entrega fé, alegria e é festa.
Vamos celebrar mais um brasileiro no topo e este é o Clube de Regatas do Flamengo (CRF). Dedico este texto ao meu pai, que me fez Flamengo desde o berço, não poderia ser e sentir outra emoção se não a extrema euforia flamenga, e me lembro dos tempos inglórios para viver as vitórias. Saudações rubro-negras (SRN).
Crédito da imagem de capa: Foto oficial Libertadores, retirada de: <https://www.metropoles.com/esportes/flamengo-palmeiras-libertadores-final>
Links dos vídeos:
Canal Paparazzo Rubro Negro:
Canal oficial da Libertadores:
Link das notícias:



Excelente! Fé e afetividade, futebol e cultura. Contra os preconceitos e os antis. Sempre seremos.