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HOMO DISTRACTUS E A NOVA DIVISÃO SOCIAL

Atualizado: 31 de dez. de 2025


O que é o homo distractus? Um ser humano que se alimenta de distração constante. Seu habitus[1], seu estoque de disposições incorporados, seu jeito de ser e estar no mundo, é de uma pessoa pouco centrada, uma vida automatizada, desconcentrada e irrefletida.


Zeitgeist[2], o espírito do tempo, a tônica dominante da sociedade atual, é o reino das distrações, atuando como uma espécie de imperativo categórico, ao estilo kantiano. Com a ascensão do mundo digital, disparou um boom de distração gratuita, contra aspectos importantes na nossa formação biológica, sobretudo conexões neurais de ordem cognitiva e emocional.


Como todos sabem, as sociedades são divididas pela cultura, geografia, política, no campo militar e na economia. Também criamos outros tantos graus de hierarquia, incluindo gênero, sexo, raça e etnia. Essas hierarquias têm grandes vinculações com relações de poder, favorecendo alguns em detrimento da maioria. O que não estão nos contando é que está em curso mais uma divisão, que vai gerar uma nova desigualdade: o homo concentratus versus o homo distractus. O homem concentrado e o homem distraído. Quais as diferenças e seus efeitos?


Antes de tudo, é preciso lembrar que o homo sapiens sapiens é um primata mamífero sobrevivente, com uma rica e complexa organização celular e sistêmica, e com um sistema nervoso complexo. Portanto, um ser biológico. Comecemos desde aqui.


O homo concentratus, termo em latim, trazido ao centro ou reunido no ponto, está sendo forjado para o desenvolvimento de amplas sinapses do sistema nervoso. Ele aprende uma gama de habilidades e aplicações. Em casa, na escola e na comunidade, esse indivíduo está imerso em vários aspectos da aprendizagem: motora, cognitiva, emocional, interpessoal. Ele não fica horas e horas em jogos online, no Instagram, Tiktok e outras ferramentas de distração automática. Nem a família permite, nem a escola.  Esse indivíduo está imerso em uma realidade em que poderá ocupar, futuramente, espaços de vanguarda e liderança na ciência, na política, na arte, na economia. Ou seja, a sua formação inicial foi forjada para ser alguém capacitado para desenvolver várias habilidades e competências para um cérebro rico expansivo, no qual a atenção e a repetição são cruciais para explorar seu potencial. As elites e alguns países já perceberam isso. E estão se mexendo.


Já o homo distractus, em latim, arrastado para longe, é alguém que respira, come e bebe distração. Uma espécie desfocada, desatenciosa. Em casa, sempre teve a seu dispor uso de jogos e redes sociais, com negligência dos pais e parentes. Sem filtragem, sempre teve a televisão a seu dispor. E na escola? Tudo liberado, pois não há regimentos restritivos ao uso de aparelhos dentro e fora da sala de aula. E entre os colegas? Sem interação, isolado, se entretendo com joguinhos online, vídeos curtos aleatórios, reels acelerados e feed infinito sobre quaisquer bobagens que incitam distração. O cérebro é hiper estimulado a gratificações curtas, imediatas. Esse indivíduo vive mergulhado em likes, recompensas, notificações. Também não é talhado a ler livros ou trabalhar a concentração. E, por fim, é submetido a desníveis diários de dopamina, o que prejudica o foco, seja por causa do tédio, seja por um cérebro acelerado - incapaz de concentrar-se e fazer tarefas demoradas.


Como não há legislação e nem ética que se preocupe com essa questão pública, o homo distractus possui um déficit no desenvolvimento de relações interpessoais, de equilibro emocional, pobre senso de sentimentos e alto risco de tornar ineficaz as conexões de memórias remotas e de longo prazo sobre assuntos importantes, como matemática, português, história, filosofia, ciência em geral.  Não tem foco. Corre, também, riscos de desenvolver depressão, ansiedade, TDH, TDA e outros problemas decorrentes.


Eccoci, aqui estamos. Muitos países já entenderam que a falta de interferência pública na formação das novas gerações, limitando o uso gratuito de tecnologias de distração, vai desenvolver a epidemia do homo distractus. E é esse perfil de pessoa candidata a afundar sua nação, com impactos na cultura e na política. Não podem liderar, não impulsionam o conhecimento, ciência, arte e filosofia. Imagine um país com essa legião? Corre risco de declínio gradual.


Um alerta final para as democracias atuais: a liberdade não deve ser um imperativo absoluto. Ou começamos a entender como a ordem/autoridade tem um papel importante no direcionamento civilizatório, ou seremos arrastados para o fundo do poço. Por isso, os que apostarão na formação do homo concentratus terão vantagens significativas. Os que acharem a liberdade total um mantra incondicional, formarão um exército de zombie hi tech.


Em resumo, está em curso o nascimento de uma nova divisão social.


Para terminar, quero agradecer muitíssimo a todos que contribuíram para a Soteroprosa em 2025. Estaremos firmes e fortes no próximo ano, com textos novos e reflexivos.


Feliz Ano Novo!


@soteroprosa

@dr.rangell

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[1] Conceito do sociólogo francês Pierre Bourdieu.

[2] Termo alemão popularizado por Johann Gottfried von Herder e Georg Wilhelm Friedrich Hegel ao falar da cultura e arte geral de uma época.


Link da imagem: Twitter de Eric Topol

1 comentário

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jerusamouras@gmail.com
31 de dez. de 2025
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O texto propõe uma reflexão contundente sobre os efeitos da hiperdistração na sociedade contemporânea, ao contrapor o homo distractus ao homo concentratus. Ao articular referências sociológicas, filosóficas e biológicas, o autor alerta para uma nova forma de desigualdade social baseada na capacidade de atenção e concentração. A análise evidencia o papel da família, da escola e das políticas públicas na formação humana, apontando que o uso irrestrito das tecnologias pode comprometer o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das novas gerações. Trata-se de um chamado urgente à responsabilidade coletiva diante dos rumos da educação, da democracia e do futuro civilizatório. Feliz Ano Novo, meu mestre.

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