top of page

JUSTIÇA COLONIAL ESPORTIVA: Um novo conceito

A Copa do Mundo de Futebol Masculino é, sem dúvida, o evento esportivo mais assistido do planeta. A competição organizada pela FIFA atinge bilhões de pessoas, superando até mesmo os Jogos Olímpicos em termos de audiência acumulada e de pico de espectadores para uma única partida. Na Copa do Catar, em 2022, esse fenômeno já era notório e, na Copa de 2026, diversas partidas tiveram seleções latino-americanas, caribenhas e africanas conquistando a torcida de cidadãos das mais variadas nacionalidades.


A estreante seleção de Curaçao protagonizou um momento de pura catarse coletiva em sua primeira Copa do Mundo. No duelo contra a tetracampeã Alemanha, o time caribenho surpreendeu ao marcar um gol de empate histórico antes da parada técnica. Embora a Alemanha tenha vencido o confronto por 7 a 1 graças ao talento individual, a valentia da menor nação do torneio contagiou o público neutro.


Os "Tubarões Azuis", de Cabo Verde, foram a maior sensação da fase de grupos. No jogo mais marcante contra um dos favoritos europeus, travaram um duelo tático impecável e arrancaram um empate por 0 a 0 contra a Espanha. O resultado surpreendeu as bancas de apostas e garantiu a festa africana. Logo depois, a equipe confirmou a boa fase ao empatar em 2 a 2 com o Uruguai, avançando às oitavas de final.


Em uma das maiores reviravoltas da competição, o Equador derrotou a Alemanha por 2 a 1 na última rodada da fase de grupos. A vitória equatoriana expôs os problemas defensivos da equipe europeia e pavimentou o caminho para sua eliminação no mata-mata.


A Costa do Marfim foi responsável por outro momento dramático ao vencer o Equador por 1 a 0 e dificultar a vida dos gigantes do grupo. A seleção de Senegal também protagonizou uma das trajetórias mais intensas, emocionantes e dramáticas da Copa do Mundo de 2026, lutando bravamente em um dos grupos mais difíceis da competição.


Pelas oitavas de final, a República Democrática do Congo, que já havia avançado de forma heroica ao vencer o Uzbequistão de virada por 3 a 1, deu trabalho para os inventores do futebol. Os congoleses lideraram o placar contra a Inglaterra por mais de uma hora de jogo, com uma atuação brilhante que inflamou a torcida, antes de sofrerem uma virada dolorosa nos 15 minutos finais.


Já o Paraguai conquistou a torcida latino-americana ao segurar a Alemanha no mata-mata da rodada de 32, também chamada de 16 avos de final, eliminando os europeus em uma emocionante disputa de pênaltis. A Justiça Colonial Esportiva não se resume aos brasileiros, mas constitui um sentimento que se espalhou por diversas nações. Eu, particularmente, assisti ao jogo entre Paraguai e Alemanha em um resort na República Dominicana, onde a maioria dos hóspedes era composta por latino-americanos, e a torcida pela seleção sul-americana foi gigantesca. Foram centenas de pessoas torcendo e vibrando pela vitória paraguaia e pela eliminação da Alemanha nos pênaltis.


Colonização é o processo de ocupação, povoamento e exploração de um território por um grupo de pessoas que migram de outra região. É o efeito de colonizar, adquirir uma colônia, ou seja, conquistar um novo território fora de seu domínio geográfico principal. No contexto histórico, esse termo descreve a relação de domínio político, econômico e cultural estabelecida por uma nação, a metrópole, sobre o território conquistado, a colônia. Na Idade Antiga já existem relatos de processos colonizadores, como nas cidades-estado gregas. A colonização ocidental avançou durante a Idade Média em território europeu entre os Estados formados com a desintegração do Império Romano do Ocidente. No século XV, ganhou grande impulso com as navegações de longa distância realizadas inicialmente por Portugal, seguido pela Espanha, com a conquista de entrepostos comerciais na África e na Ásia, além de todo o continente americano, e, posteriormente, por outros Estados europeus. O processo de colonização nas Américas foi extremamente cruel, pois ocorreu juntamente com a escravidão de africanos e indígenas, o racismo, as teorias e doutrinas raciais e outros fenômenos que fizeram do processo colonial americano um dos mais violentos da história.


Diante de tantos privilégios europeus e estadunidenses em detrimento, sobretudo, das Américas, do Caribe e da África, mas também da Ásia, a Justiça Colonial Esportiva tem se mostrado uma aliada do esporte, visto que uma parcela significativa da população mundial tem apoiado, em competições esportivas, nações historicamente colonizadas. Esse comportamento aponta para a permanência de uma memória e de uma consciência colonial.


A Justiça Colonial Esportiva é um novo conceito aqui proposto que descreve o sentimento coletivo de solidariedade e identificação que se manifesta na torcida em competições esportivas em favor de nações historicamente colonizadas, periféricas ou economicamente menos favorecidas, e, em contrapartida, contra antigas potências coloniais ou países que ocupam posições hegemônicas no sistema internacional. Trata se de um fenômeno sociocultural que ultrapassa a dimensão esportiva, pois expressa memórias históricas do colonialismo, da escravidão, da exploração econômica e das desigualdades produzidas pela expansão imperial europeia e pela hegemonia dos Estados Unidos. Nesse sentido, a torcida deixa de ser motivada exclusivamente pelo desempenho técnico das equipes e passa a incorporar elementos de justiça histórica, reconhecimento simbólico e reparação moral.


Sob essa perspectiva, a Justiça Colonial Esportiva pode ser compreendida como uma manifestação contemporânea da consciência decolonial no campo esportivo. Ao apoiar seleções da África, do Caribe, da América Latina ou de outras regiões historicamente submetidas ao colonialismo, milhões de torcedores expressam, ainda que de forma não institucionalizada, uma crítica às hierarquias construídas pelo sistema colonial e às assimetrias que permanecem estruturando as relações internacionais, sobretudo na geopolítica. O esporte transforma-se, assim, em um espaço simbólico de disputa de narrativas, no qual vitórias e derrotas adquirem significados que transcendem o resultado da partida, representando, para muitos espectadores, uma forma de reparação simbólica diante de séculos de dominação, exclusão e violência colonial.


Diferentemente de uma oposição dirigida aos povos das antigas metrópoles, a Justiça Colonial Esportiva direciona-se às estruturas históricas de poder que consolidaram privilégios econômicos, políticos e culturais em favor de determinadas nações. Trata-se, portanto, de uma categoria analítica que permite compreender como a memória do colonialismo permanece influenciando comportamentos sociais contemporâneos, revelando que o esporte constitui também um espaço de produção de sentidos, de resistência, de memória e de reivindicação por justiça histórica no cenário global.


Vamos refletir? Se o esporte é frequentemente apresentado como neutro, por que tantas torcidas escolhem apoiar justamente as nações historicamente colonizadas? Até que ponto as disputas esportivas contemporâneas também refletem disputas históricas por memória, reconhecimento e justiça? É possível compreender as emoções despertadas por uma Copa do Mundo sem considerar os séculos de colonialismo que moldaram as relações entre as nações? Quando uma antiga potência colonial é eliminada por uma nação historicamente colonizada, estamos diante apenas de um resultado esportivo ou de uma vitória carregada de significado histórico? A chamada neutralidade esportiva não seria, muitas vezes, uma forma de silenciar debates sobre memória, colonialismo e desigualdade? Seria a Justiça Colonial Esportiva um fenômeno passageiro das Copas do Mundo ou um reflexo das transformações das consciências históricas no século XXI? O futebol pode ser compreendido apenas como entretenimento quando desperta sentimentos tão profundos de identidade, pertencimento e reparação histórica? Estaria a Justiça Colonial Esportiva anunciando que a memória do colonialismo permanece viva muito além dos livros de História? Afinal, quando um torcedor escolhe apoiar uma seleção historicamente colonizada, ele está apenas escolhendo um time

ou também tomando posição diante da história? Deixe sua opinião nos comentários.


________________________________________________________________

Referências:


LOIOLA, Vanessa. Da Copa do Mundo ao Super Bowl: veja quais são os eventos esportivos mais assistidos do mundo. Exame, 11 jun. 2026. Disponível em: https://exame.com/esporte/da-copa-do-mundo-ao-super-bowl-veja-quais-sao-os-eventosesportivos-mais-assistidos-do-mundo/. Acesso em: 09 jul. 2026.


SOUSA JUNIOR, Manuel Alves de. Colonização / Descolonização. In: SOUSA JUNIOR, Manuel Alves de (org). Dicionário racial: termos afro-brasileiros e afins. v. 1. Curitiba: Appris, 2024.


Imagem gerada por IA

bottom of page