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LUDOPATIA: O que está por trás do vício em apostas?

Pense em você assistindo partidas de futebol, vôlei e outros esportes. Entre gols e pontos marcados, para a sua surpresa, não há nenhuma comemoração e as competições seguem todos os dias, 24 horas. Pouco a pouco, o estranhamento dá lugar a certeza: existe manipulação nos jogos. Pessoas vulneráveis, ganhando remunerações miseráveis, operam na clandestinidade, como esportistas amadores, a serviço de casas de apostas: são as sport betting farms, as fazendas de apostas esportivas. Nelas, conteúdos artificiais são gerados antes, enquanto e depois de você ler esse artigo. A produção de inúmeras chances de apostas promove inúmeras tentativas, os “jogadores” vão a campo todos os dias, em condições insalubres, os apostadores têm perdas gigantescas e as plataformas digitais enriquecem, parasitando todos os envolvidos. Os “atletas” recebem orientações para atingir o placar ideal e se manter ali, sem nenhuma intenção de mudança. Tudo para preservar os apostadores confiantes, e, por conseguinte, aumentar os ganhos das plataformas. Qual a ideia? Fabricar eventos amadores para seguir influenciando os apostadores à compulsão. O apostador é o gado a ser alimentado e abatido.


Casas de apostas, a exemplo da 1xBet, vem sendo investigadas por lançar mão dessa prática. O jornal holandês Bellingcat conseguiu encontrar núcleos desses crimes em países como Índia e Rússia. No Brasil, o Ministério da Justiça investiga plataformas com atitudes suspeitas, a exemplo da CazéTV. Durante os jogos da Copa do Mundo, a empresa de Casimiro Miguel vinha divulgando apostas em massa. A publicidade agressiva chamou à atenção e após o início das investigações, a CazéTV retirou tanto a propaganda das bets, quanto a reprise dos jogos. Mesmo assim, a ação de reprisar as partidas não passou despercebida: a repetição ocorria enquanto técnica para garantir solidez às apostas, a ilusão de segurança, a crença rígida de quanto mais se aposta, mais se ganha e a ilusão da necessidade de gastar mais para resgatar o dinheiro perdido. Os resultados são assustadores: em 2025, as bets atingiram R$ 36 bilhões em receita bruta! A maior parte dessa cifra veio de 5 milhões de beneficiários do Programa Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), gastando R$ 3,7 bilhões em aposta. Resultado do projeto de morte da gestão Bolsonaro que sequer regulamentou as bets.


Através de portaria interministerial publicada no Diário Oficial da União, em 10/07/2026, o Governo Lula obrigou todas as bets, a partir de 17/07/2026, a alertar os apostadores sobre a real probabilidade de perder altas somas, risco de dependência e sobre a própria natureza das apostas: elas não configuram investimento. Tais medidas ocorrem para diminuir a escalada do vício, face a um cenário desesperador: desde 2021, a demanda pelo atendimento em saúde mental aumentou 140% no Sistema Único de Saúde (SUS), em função da dependência em jogos de azar online. Infelizmente, muitos não conseguem pedir ajuda, principalmente homens, historicamente, os últimos a buscar atendimento médico e psicológico. A dominação masculina, construída sob os pés do patriarcado, utiliza a tecnologia machista, distanciando os homens do cuidado de si. A maioria do público masculino demanda serviços de saúde apenas quando apresenta sintomas, aumentando a letalidade de muitas doenças. Transtornos mentais estão entre tais patologias: a depressão severa, por exemplo, quando não tratada com rapidez, costuma levar ao suicídio. Por isso, o suicídio é letal em homens, aproximadamente, quatro vezes mais, se comparado às mulheres: a própria figura do macho traz o ideal do homem imune à morte.


Apesar do pleno emprego – 102 milhões de brasileiros trabalham de carteira assinada, os empregos informais são mínimos e a renda do trabalhador é maior –, o Brasil vive uma contradição em seu ordenamento econômico. Temos 80,4% das famílias encalacradas, maior índice desde 2010. A inflação dos alimentos acima da inflação geral cobra um custo alto da população mais pobre. Jogar, então, seria uma “possibilidade” de aumentar a renda, sobretudo, ao ver diversas personalidades apresentando os jogos. A ludopatia – CID-11 6C50 – inicia quando pessoas sem dinheiro para fechar o orçamento do mês, apelam às bets, desesperadas para aliviar o sofrimento psíquico. Como seria diferente, em uma sociedade ausente de amor, respeito, empatia e acolhimento?


Instalado o pânico socioeconômico, o cérebro humano adotará meios para se preservar. As neurociências encontraram mais ações no córtex frontal orbital, na ínsula e no córtex pré-frontal ventromedial de jogadores adictos. Ao verificar o resultado do jogo, os apostadores sofrem hiperexcitação na região de recompensa do cérebro; a dopamina, neurotransmissor responsável por regular o humor, a aprendizagem, a percepção da dor e a memória, transporta a química dos sinais de um neurônio para outro. É nesse momento que o condicionamento midiático faz a diferença: ele estimula o jogador a apostar mais, liberando mais dopamina no cérebro e reforçando a experiência de fixação em mais tentativas. Por sua vez, a memória registra a fixação, para utilizá-la no futuro e lidar com a dor da perda, mediante novas apostas. Por isso, é tão comum jogadores adictos justificarem o vício como único meio de recuperar o dinheiro perdido. Sua eventual resistência em aderir a tratamentos terapia e remédios psicoativos – os famosos “controlados” – acontecem em função do transtorno do jogo ter encontrado as condições neurais para seguir, crônico, no cérebro. Reverter esse quadro de dependência desolador exige acompanhamento médico e psicológico constantes, rede de apoio e ressignificação diária do vício.


Trata-se de grave situação. A diminuição do vício em apostar passa pela regulação das redes digitais e pelo extermínio das bets, em substituição ao discurso hipócrita do “jogue com responsabilidade”. Não há nenhuma possibilidade de ‘jogar com responsabilidade’ quando falta dinheiro para comer e o único caminho encontrado é pedir dinheiro a um agiota para apostar. Não existe consciência social quando Virginia Fonseca ganha 30% sobre o fracasso dos apostadores. Não existe esperança de ‘jogar com responsabilidade’ quando um cassino online como a Blaze usa manipulação publicitária; a partir desta plataforma, na partida Argentina x Cabo Verde, Virginia incentivou o público a apostar na vitória da seleção africana. Como a Argentina confirmou o favoritismo e venceu, houve uma massiva perda, sem direito a qualquer amparo legal dos apostadores. Ante essa realidade perversa, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) solicitou que a Blaze e Virginia Fonseca sejam condenadas a pagar R$ 120 milhões.



Por fim, não existe qualquer condição de ‘jogar com responsabilidade’ quando pessoas ausentes de caráter aceitam influenciar uma nação inteira a jogar sem qualquer limite. Aliás, enquanto os valores culturais forem representados por essa gente e os professores forem desrespeitados, a ponto de ter lâmina de vidro colocadas em seus copos de água por alunos, o Brasil seguirá caminhando rumo ao caos. O momento exige quebra de paradigma e as eleições desse ano sinalizam para isso. Nunca tivemos um Congresso Nacional tão baixo e raso. O campo conservador parece fragmentado, contudo, tal conjuntura está longe de caracterizar eleições fáceis para nós, progressistas, na atualidade, o único grupo ideológico na defesa da democracia. Combater as bets exige eleger parlamentares comprometidos com a sua extinção, e, para isso, capazes de desafiar o lobby envolvido. O processo eleitoral deve servir para conscientizar o País sobre a necessidade dessa medida. Do contrário, seguiremos com aumento dos índices de suicídio. Do contrário, a democracia não terá cumprido o seu papel em combater as desigualdades. Do contrário e em última instância, a população seguirá refém destes traficantes de almas.


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Imagens retirada do banco de imagens gratuito Pexels.com

2 comentários

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há um dia
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Essa resenha ficou boa demais.

Os jogos estavam proibidos. Havia contraventores que se utilizavam de instalações clandestinas para dar vazão a essa "ludopatia".

A frequência, no entanto, era quase que exclusiva de endinheirados, cujas fortunas dificilmente eram abaladas pelas perdas das apostas.

O problema é quando um congresso venal como o que se tem hoje, pauta a liberação e popularização dos jogos em ambientes virtuais. Como sempre, não agiram para atender o interesse público. Mas, ao interesse de organizações inescrupulosas de fáceis ganhos para seus proprietários.

Resumindo: Hoje, a maioria do congresso nacional é composta por inimigos do povo.

Que nessas eleições, possamos minimizar as iniciativas egoístas no congresso.

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Januário
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Gratidão!

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