Lutando contra Vecnas



“...não pode se esconder da verdade, por mais assustadora que ela seja. Você fala sobre monstros e super-heróis, coisas que só existem em mitos e contos de fadas. A realidade, a verdade, raramente é tão simples. Não é tão fácil definir as pessoas. Só enfrentando todas as nossas facetas, as partes boas e ruins, nos tornamos completos.

- E se eu não quiser ser completa?

Isso seria uma escolha. A sua escolha. A porta estará sempre aberta. Este lugar não é uma prisão. A prisão é aqui." (aponta para sua testa)


A primeira parte da quarta temporada de Stranger Things estreou em 27 de maio e, como o seriado tem feito desde que apareceu na Netflix em 2016, está dando o que falar.


Para quem não faz a mínima ideia do que estou dizendo, Stranger Things é uma série americana, de aventura, suspense e ficção científica, ambientada na melhor e mais pura atmosfera anos 80.


Se você tem mais de 35, ou curte filmes antigos da Sessão da Tarde, ao assistir, será impossível não relembrar clássicos afetivos como Goonies, Conta comigo, História Sem Fim, ET, etc. Todas produções povoadas de metáforas, lições e um ponto bem forte de valorização dos laços de amizade em seus enredos, assim como ST o é.


Metáforas. Esse quesito em específico sempre me encanta, e não podia ser diferente ao escrever sobre a série.


Mas porque só fazer um ensaio acerca de Stranger Things agora? Lá se vão quatro temporadas, Sarah! Eu sou fã da série e a acho fantástica. Já poderia ter escrito algo antes, concordo. É um mistério, mas tudo vem no seu tempo. Acredito muito nisso.


As palavras que iniciaram a minha coluna foram extraídas de um diálogo travado entre Eleven e o Dr. Martin Brenner, personagens centrais na trama.


Ao observar esta cena, bem como o episódio Querido Billy (que arrisco ser um dos meus episódios preferidos de todo seriado até o momento), pensei que merecia um texto dedicado a algo que me despertou, para compartilhar com vocês.


Não digo isso porque as outras temporadas não sejam tão boas quanto, mas pela riqueza de tantas metáforas juntas, que convergiram ontem em minha cabeça, ao ver o fim da primeira parte. Metáforas psicológicas, vocês já devem ter antecipado, né?


No universo criado pelos irmãos Duffer, Eleven e seus amigos vivem aventuras e travam batalhas, tanto no mundo real quanto no Mundo Invertido (up side down). Um lugar exatamente igual à cidade de Hawkins onde vivem, um espelho cinzento e cheio de seres assustadores que os desafiam ao longo da história.


Para mim, esse mundo invertido nada mais é do que uma ótima metáfora de partes de nosso mundo psíquico, as partes difíceis de lidar.


O Devorador de mentes, demogorgons, e o recém apresentado Vecna, podem ser facilmente comparados aos mecanismos que habitam nossos pensamentos e inconsciente.


Como escolhi focar nos episódios mais recentes, quero falar um pouco mais sobre o elemento novo: Vecna.


Tendo seu nome baseado em um dos piores vilões de D&D (saudoso jogo de RPG), a criatura faz algumas vítimas do círculo próximo aos personagens, as quais são escolhidas à dedo.


A característica central para ser sorteado pelo Vecna é estar passando por conflitos internos, dores, principalmente ligadas à emoção culpa - segundo a análise que faço.


Ele se apossa da mente dos que se culpam por algo, se responsabilizam por eventos externos, inclusive envolvendo outras pessoas, e circunstâncias que não poderiam controlar.


Estamos todos sujeitos a esse tipo de sentimento, e pensamento culposo. Por vezes praticamos uma distorção cognitiva (erro de pensamento) chamada de Personalização ou Responsabilização, que ativa facilmente a culpa.


Quando isso acontece - assim como ocorre com as vítimas do Vecna - através de nossa interpretação interna, colocamos o peso somente sobre nós, sem enxergar a possível responsabilidade das outras pessoas, ou de fatores externos na situação que ocorreu/está ocorrendo no momento.


Por conseguinte, nos remoemos, martirizamos e punimos de uma forma disfuncional.


A culpa é uma emoção que pode atingir a todos, ela tem uma função adaptativa, como as nossas outras emoções desconfortáveis, mas é preciso regulá-la, entender até que ponto está de acordo com o real, dar a Cesar o que é de Cesar.


Há uma parte do nosso cérebro, denominada de sistema límbico, que é responsável pelo que julgamos como moral ou imoral, que nos faz sentir preocupação e remorso, como consequência de repensarmos sobre as nossas atitudes.


Essa região possui uma disfunção no cérebro dos psicopatas, um dos motivos para que não sintam culpa e empatia.


Ou seja, a culpa é necessária e benéfica até certo ponto, nos faz refletir sobre nossas ações, ser empáticos. O problema começa quando praticamos aquela distorção que comentei, a Personalização. Se nos afundamos em culpa e, consequentemente, em vergonha e tristeza, nos paralisamos, não mudamos a atitude.


É preciso enxergar se de fato há alguma responsabilidade minha na situação. Há responsabilidade? Se sim, então posso agir na minha parcela e mudar algo em eventos futuros, alterando meus comportamentos. Não há responsabilidade? Então preciso parar de me martirizar por algo que não dependeu de mim, sobre o qual não tive atuação. Esse é o jogo saudável que devemos jogar dentro da nossa mente.


E é isso que a personagem Max está deixando passar - pelo menos até o quarto episódio da temporada atual. A garota se culpa de uma forma distorcida pela morte do meio irmão Billy, que ocorre na temporada anterior. Os dois não se davam bem, e ele salva sua vida, morrendo em seguida.


Ela passa os primeiros capítulos distante de quem a ama, absorta em remorso e isolamento, se afastando do grupo de amigos, como se não fosse mais digna do acolhimento deles, fechada em seu luto.


Aproveitando-se disso, Vecna escolhe acrescentar Max ao rol de suas vítimas. E quase consegue. No entanto, os amigos a ajudam, descobrindo que se escutasse sua música favorita, o monstro perderia seu domínio sobre ela.


A canção que trouxe à tona memórias diferentes das culposas, e reconectou a adolescente com seu lado saudável, com quem de fato ela era, foi hit dos anos 80 Running up that hill, da cantora Kate Bush.


Segundo Kate, a letra traz o significado de se colocar no lugar do outro e poder compreender de forma mais completa o seu ponto de vista, entender suas dores. Ou seja, a música também fala sobre entendimento, compreensão e empatia. Max pôde entender o que era dela, o que era de Billy, e das circunstâncias.


Inclusive, antes desse momento de quase morte, a menina lê uma carta dedicada ao rapaz, na qual expressa o que sentiu sobre o acontecido, sua angústia, e o que queria ter feito de diferente para que ele ainda estivesse vivo. Realiza uma catarse do que estava escondendo por muito tempo dento de si. E tudo se amarra na cena seguinte.


Metáforas, perfeitas metáforas do que sentimos aparecem em Stranger Things.


Esperamos que também Nancy consiga encontrar o seu entendimento para o que a aflige em seu passado, se safando do poderoso Vecna.


Acredito que venha muito mais por aí na segunda parte dessa temporada, incluindo um desfecho para o significado de luz e sombra da protagonista Eleven. Um componente que existe em todos nós, e que ficou nas entrelinhas do diálogo que apresentei no início deste texto.

Por fim, fica a reflexão mais ampla de que, assim como Max e Eleven, precisamos conhecer e entender a nossa verdade (facetas boas, outras nem tanto) para atingir uma completude. Encontrar e saber usar "sua música favorita" a seu favor.


A pior prisão seria morar dentro de sua própria mente com os olhos enuviados, impedindo a si mesmo de conseguir enxergar o todo e lidar com ele.



Por Sarah Ferraz

Psicóloga e terapeuta cognitivo comportamental


Imagem: https://www.metroworldnews.com.br/entretenimento/2022/05/27/entenda-por-que-max-e-crucial-para-a-4-temporada-de-stranger-things/



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