LUTE POR SEU VOTO COMO SE LUTASSE POR SUA VIDA, PORQUE É ISSO QUE ESTÁ EM JOGO MESMO

*Cristine Oliveira
As eleições não servem para eleger nosso político de preferência, nosso político de estimação. O período eleitoral e as eleições, ao fim e ao cabo, trazem consigo os futuros rumos que queremos dar às demandas que temos no nosso cotidiano e que impactarão sobre nossas necessidades mais abrangentes, de cada um em particular e de todos no coletivo, ao mesmo tempo.
Votar num determinado candidato significa corroborar, concordar com suas ideias, seu projeto político, suas realizações políticas, sua trajetória como produtor e realizador de políticas públicas, seu modelo organizacional para a cidade, o estado ou o país. Em outras palavras, cada mínima parte de nossa vida é política, depende da política, tem política inserida nos mínimos detalhes.
Política não está num planeta distante, nem pertence a um universo paralelo, não é ficção, não é novela romantizada. A política nos atravessa, atravessa nossas existências de forma real, simbólica e ideal. Ela pertence ao universo das decisões mais elementares do nosso dia-a-dia, de forma individual sim, mas definitivamente mais abrangente na forma coletiva. Portanto, eleger um candidato diz respeito ao aspecto que você quer dar à sua existência, ao padrão de vida que cada um quer ter, ao que se acredita que é o básico, fundamental para a sociedade de uma maneira geral.
Ou seja, se seu voto estiver apenas direcionado a seu egocentrismo, sua realidade, não fará com que a cidade, o estado ou o país melhore. Enquanto o eleitor votar para eleger aquele que visa algo único para si mesmo, seu conforto ou desejo exclusivo, dificilmente esse voto trará melhorias para o entorno de sua vida, para todos ao seu redor. E não esqueçamos que não moramos em uma ilha deserta.
O egoísmo daquele em querer só manter seus privilégios e votar em quem lhe assegure isso, só resultará em mais pobreza, mais extrema pobreza, mais violência, mais fome, menos desenvolvimento urbano (e rural), menos políticas públicas para o grosso da população, e nesse caso, meia dúzia estará confortável, abastada e segura, e milhões estarão desfavorecidos, sofridos, marginalizados. Num país de 210 milhões de habitantes, cabe um exclusivismo perverso e excludente assim?
Considere-se por exemplo a economia, ela é intrínseca da política, das decisões políticas, tomadas para que esta economia - que vai retornar para nossas vidas - nos sirva, nos regule, nos oriente como sociedade organizada, e que é pagadora de altos impostos. O quão justa essa economia vai ser regulada sem incorrer em privilégios demais para poucos e quase nenhum privilégio para muitos.
Portanto, sim, política é imprescindível para todos nós e deveria fazer parte de nossas preocupações habituais, presentes e futuras. É preciso enfatizar: o que nós comemos é político, a qualidade do ar que respiramos também é político, nossas perspectivas de lazer são advindas de decisões políticas, o sistema de saúde que conseguimos acessar é político, o transporte público do qual fazemos uso - sua qualidade ou má qualidade - depende das escolhas políticas. Quando procuramos vagas em creches, quando sentimos impacto no custo de vida, quando passamos muitas horas em transporte público para nos locomovermos, chegar no trabalho, na escola ou em casa, todas estas necessidades e ações, estão imbricadas de política. A cidade onde moramos por exemplo, se ela é decente, limpa, organizada, bonita, viável, bem infra-estruturada, será pelas decisões políticas tomadas por aquele governante, ao qual depositamos para ele nosso voto de confiança nas urnas durante as eleições. Assim exercemos nossos direitos, para organizarmos a vida de todo mundo.
Um outro ponto para chamar a atenção, diz respeito aos grandes dilemas da vida, impossíveis de serem resolvidos - ou minimizado sua gravidade - de maneira individualizada, por mais que nossa soberba egóica creia que sim. Faltar dinheiro ao final de cada mês, encontrar preços altos no supermercado, não decorrem de nossa “falta de foco” ou porque não trabalhamos em jornadas 7x0, como querem “coachs de empreendedorismo” mentirosos e falaciosos. O modelo econômico liberal que temos, do sistema capitalista, é que nos aponta o dedo indicador gigante, cínico, ensejando desvirtuar a verdade dos fatos, sua culpa, porque ele, só ele, é o causador de nossa minguada estabilidade financeira, é o motor da estrutura econômica que verdadeiramente nos asfixia. “A economia não é uma ciência neutra, ela é política. O preço do feijão, da carne, da luz, não resulta de processos naturais. Não há uma mão divina que coloca o preço nas mercadorias.” (Juliane Furno, doutora em desenvolvimento econômico pela Unicamp).
Nesse sentido, percebemos que nossa rotina não é moldada por nosso exclusivismo, e sim por resoluções coletivas, aspiradas e escolhidas por todos e realizadas através dos representantes eleitos. Todo nosso entorno decorre das definições políticas das quais não devemos abrir mão (lamentavelmente lembremos que houve uma época, não muito tempo atrás, em que as mulheres nem podiam votar), quando votamos no político certo que responsabilize-se em pôr em prática - via políticas públicas, direitos, leis, investimentos - as propostas e projetos que apresentou durante a campanha política.
Além disso, é pertinente enfatizar que o fato de vivermos em uma nação imensa, com gigantesca população, temos uma estupenda desigualdade social, onde obviamente as oportunidades não são iguais para todos, o contexto social irá limitar o ponto de partida dos milhões de cidadãos que deveriam ter o mesmo destino básico, aspirações básicas: viver decentemente, trabalhar com dignidade (profissional e financeira), acessar a educação que quiser, ter recursos de saúde amplamente disponíveis, morar tranquilamente onde escolher, etc. Nesse ínterim, chama a atenção a questão da baixa mobilidade social no Brasil, irmã gêmea da desigualdade social, o que torna quase impossível melhorar de vida no país. Nos tornamos uma nação onde quem nasce rico permanece rico, incluindo seus herdeiros, e os pobres também estão imobilizados na pobreza, bem como seus descendentes.
Podemos dizer que não gostamos de política, no entanto, a política não sai da nossa vida. Nesse quadro, é interessante perceber que o Brasil do passado (colonial, escravista, desigual) reflete-se e mantém-se atualizado, com outras roupagens, no presente. Tomemos o exemplo das favelas, que não surgiram do nada, magicamente, mas nasceram sim de um processo no país que supostamente “libertou” os escravos, sem assegurar a estes que não chafurdassem na pobreza e extrema pobreza. Promoveram à época a ascenção e segurança social do branco e do imigrante, mas aos negros libertos, ex- escravizados, houve abandono, negligência, deixados à própria sorte numa perversa realidade sem direitos, sem terra, sem trabalho, sem digniadde para viver.
Nessa perspectiva, podemos citar questões como as da segurança pública, educação de qualidade, geração de empregos - com produtividade e condições decentes -, sistema tributário mais progressivo e justo, que abarquem toda a população, equitativamente, ou seja, menor peso de tributos para quem ganha menos e maior peso tributário para quem ganha mais. Do mesmo modo, saliente-se a temática da inclusão das classes desfavorecidas em todos os aspectos societários, igualitariamente, com equidade a Pcds, indígenas, lgbtqiapn+, dentre outra minorias, que enfrentam uma luta incessante para que a política lhes assegure direitos.
É imperativo que o eleitor consciente, socialmente responsável, considere todos estes temas complexos que estão incutidos em nosso cenário social. Disso resulta que, um povo que sabe o que quer para melhorar a qualidade de sua vida, que sabe o que exigir dos governantes, como eles devem agir a fim de organizarem a esfera social, que identificam sabiamente, astutamente, que certos representantes de fato, não os representam na verdade, este eleitor poderá interagir e articular novos parâmetros de governança criteriosa, aparelhada por e pelas políticas públicas eficientes e eficazes que os favoreçam. Afinal, optamos por uma democracia como modelo de panorama social e esta supõe uma participação conjunta. Ela precisa ser uma garantidora de paridade de oportunidades e da e na ocupação dos espaços decisórios.
Os lugares de poder numa sociedade importa. Aqueles que ocupam estes lugares, importam. Temos de estar permanentemente alertas e nos questionar frequentemente: Quem dela participa? Quem nela ocupa os lugares de poder? Quem efetivamente toma as decisões nesta democracia? Podemos deduzir que acontece um processo por trás da escolha que fazemos nas urnas. Por isso é que, vale dizer, o eleitor tem a chave para obter uma qualidade de vida melhor, aferir cidadania plena, chance de reduzir as desigualdades existentes no território em que vive, obter direitos que sejam factualmente exercidos, forjar os direitos que estão formalmente estabelecidos, mas não de fato executados.
Esta análise propõe reafirmar a relevância e importância de nosso voto, de nós eleitores, porque esse voto não é simplesmente escolher entre tal e tal candidato, ele repercute nas deliberações que vão definir praticamente tudo na nossa existência, no nosso círculo social: trabalho, segurança, saúde, economia doméstica, educação, como regular as riquezas do nosso país (minérios, biodiversidade, petróleo, águas doces, etc), a manutenção de nossas conquistas políticos-sociais (leis, regras, direitos, políticas públicas, investimentos, etc). A participação política ativa de cada um de nós é indispensável à construção de nossa coletividade.
Nessa maneira de ver, é indecente e desumano considerarmos ter parte de nossos concidadãos denominados “cidadão de segunda classe” que não “sabem votar”. E infelizmente, milhares, senão milhões de brasileiros esnobes, beneficiados com distinções (herança, poder, status, fortunas, rentismo, etc) que se arvoram a manipular, questionar, coagir, ameaçar, impor, intimidar e no pior dos casos, comprar votos (prática antiga nos chamados currais eleitorais brasileiros), incorrendo em assédio eleitoral, que configura uma afronta ao Estado Democrático de Direito que constituímos. Há inescrupulosos e criminosos políticos de quinta categoria - a escória política, que só quer poder - que faz isso: oferece dinheiro, favores, combustível, cesta básica, empregos e outras “vantagens”. Se isto acontecer precisa ser denunciado. Esses atos degradam nossa democracia.
Todos somos dignos de elegermos aqueles que irão verdadeiramente nos representar, afinal, ali, nas urnas, escolhemos nosso futuro, definiremos nossos próximos quatro anos, ou oito anos. Votar é direito, votar é assegurar definição de rumos para nossas vidas. Nosso voto não tem preço, ele tem valor, é inegociável. Não podemos comprometer nossa liberdade de escolha. Inclusive este voto ajuda a bancada, aqueles que irão compor as cadeiras nas câmaras e portanto, irão ou não fortalecer a conquista dos interesses dos grupos e suas demandas. Lamentavelmente, os mais jovens têm pouco desejo de colaborar nas eleições, há ainda muita abstenção, e nos últimos anos o desrespeito por nosso voto tem aumentado gravemente.
Disso decorre que, nosso voto é livre e cada um de nós não pode sofrer pressão, constrangimento ou julgamento por ele. Que nossas eleições possam ser respeitosas e saudáveis. Escolha bem. Invista em quem investe em você como trabalhador, cidadão, munícipe. A convivência com a diferença de opinião, crença, ideais, vontades, faz parte da democracia, a qual escolhemos como norteadora de nossas ações. Que neste pleito comemoremos o valor das eleições, o valor do nosso voto, de nossa responsabilidade cidadã, de maneira ordeira, pacífica, respeitosa, humana.
E depois cobre as respostas que você queria, a vontade que seu representante político prometeu honrar, os cuidados com sua cidade e estado que seu parlamentar ou governador escolhido disse que iria corresponder. Vigie e fiscalize - individualmente e como corpo societário - as ações governamentais, municipais, estaduais e federais, para que cumpram os objetivos combinados e prometidos, e que sejam acessíveis, inclusivos e decisivos em cada canto do país. O elemento central dessa e de todas as eleições, é o seu voto, o nosso voto, o poder do nosso voto. Voto não se desperdiça, não se desmerece. Lute por ele.
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*Cientista Social, redatora e revisora de conteúdo e colaboradora da revista Noite e Dia.

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