MAS, AFINAL, O BOLSONARISMO É UM MOVIMENTO DE EXTREMA DIREITA ?

*Clênia Trindade
Para compreendermos o bolsonarismo, precisamos identificar a qual espectro político pertence e quais características permitem diferenciá-lo de outras correntes. Para isso, vamos começar pelo básico, buscando compreender os termos direita e esquerda. Usaremos como referência o entendimento trabalhado pelo cientista político Norberto Bobbio, que adotava o entendimento sobre a igualdade e a desigualdade como um dos principais critérios para distinguir essas duas posições políticas.
Enquanto a direita tende a aceitar as desigualdades como algo inerente à condição humana e, portanto, perfeitamente natural, a esquerda é regida pelo ideal de igualdade e compreende que grande parte das desigualdades são de caráter artificial e não natural, ou seja, são socialmente construídas, podendo ser reduzidas por meio de políticas públicas que busquem corrigir tais distorções. Ou seja, enquanto para a esquerda é perfeitamente possível uma correção das desigualdades, para a direita, por sua vez, não há que se falar em eliminação das destas. Esta é uma importante distinção que nos ajuda a compreender as diferenças entre as duas orientações políticas, mas não tem alcance para responder a nossa pergunta inicial.
Para avançarmos, precisamos compreender outro termo político importante, democracia, entendida, de maneira simplificada, como um sistema político baseado na soberania popular, no qual os representantes são escolhidos por meio de eleições. É necessário, contudo, distinguir a democracia da democracia liberal, que, além da escolha dos governantes pela maioria, pressupõe a garantia dos direitos fundamentais, incluindo os das minorias, o respeito ao Estado de Direito e à separação dos poderes. Uma vez repassado esses termos, podemos adentrar outros tão ou mais importantes para compreendermos o que é, de fato, o movimento bolsonarista.
Com esses conceitos em mente, vamos nos socorrer de um importante pesquisador das direitas, Cas Mudde, um renomado cientista político holandês que se dedicou a compreender e categorizar os diversos espectros políticos de direita, sendo hoje um dos principais estudiosos da extrema direita. O autor preocupa-se em conceituar o que seja direita, direita radical e ultradireita. Para ele, a direita tradicional é o que Bobbio nos ensinou, já a extrema direita tem como característica ser “hostil à democracia liberal” (Mudde, 2022, p.22) e ela está dividida em dois subconjuntos. O primeiro chamado de direita radical, que entende como perfeitamente possível o povo eleger seus líderes, mas tem uma grande dificuldade em aceitar os preceitos da democracia liberal, quais sejam, os direitos das minorias e o próprio Estado de Direito, mas esse grupo da direita radical permanece dentro de uma ideia de democracia. Por outro lado, existe a direita ultrarradical, que “rejeita a própria essência da democracia, ou seja, a soberania popular e o governo da maioria” (Mudde, 2022, p.22), o exemplo mais difundido é o que historicamente conhecemos como fascismo.
A partir dessa classificação, passamos agora a compreender melhor o que caracteriza a direita radical, considerando os elementos centrais que, segundo Mudde, compõem sua ideologia: nativismo, autoritarismo e populismo. Essa discussão nos fornecerá os subsídios teóricos necessários para, posteriormente, analisar o bolsonarismo à luz dessas características.
O elemento populismo está relacionado a uma ideologia que compreende a sociedade dividida entre um povo considerado imaculado e uma elite vista como corrupta, de modo que a política deve expressar sempre a vontade do povo. Tal característica pode ser identificada no movimento bolsonarista, afinal, praticamente todas as campanhas eleitorais de seus membros, seja do próprio Bolsonaro, em 2018 e 2022, seja a de Flávio Bolsonaro, agora em 2026, ou as de tantos outros, passam pelo discurso ao combate a uma elite corrupta, frequentemente associada ao partido dos trabalhadores, que é apresentado como símbolo dos problemas políticos do país e como adversário a ser afastado do poder.
O elemento nativismo é o que menos se expressa de forma direta no caso brasileiro, pois tem uma forte relação com a hostilidade ao imigrante, muito presente em países da Europa e Estados Unidos, mas menos evidente no nosso caso. De todo o modo, pode ser lido como uma valorização da nação e dos símbolos patrióticos, como a bandeira brasileira e a camisa da seleção, além de uma idealização de uma nação identificada com determinados valores morais, religiosos e conservadores. Mais do que o patriotismo em si, importa observar como a ideia de nação é mobilizada para estabelecer quem representa legitimamente o país e quais grupos ou ideias são apresentados como ameaças.
Por último, temos o elemento do autoritarismo, que está relacionado a uma compreensão de sociedade que deve ser ordenada de forma rígida e na qual as transgressões devem ser severamente punidas, havendo uma valorização das autoridades militares e das hierarquias sociais, características encontradas entre os bolsonaristas. O autoritarismo se faz presente também nas demandas relacionadas ao endurecimento das políticas de segurança pública, a exemplo da pauta sobre a diminuição da maioridade penal e da defesa da pena de castração química, além da valorização das Forças Armadas, da autoridade militar, da disciplina e da hierarquia como referências para a organização da vida política.
Podemos observar ainda outras características que, quando analisado em conjunto com esses parâmetros já trabalhados, nos ajudam a compreender o bolsonarismo e sua aproximação com a direita radical. Uma delas, é o conservadorismo moral, que se manifesta na defesa da família tradicional, dos papéis convencionais de gênero e dos valores cristãos como fundamentos da organização social, associada à representação de pautas progressistas, feministas e LGBTQIA+ como ameaças à família e à sociedade, evidenciando uma perspectiva antipluralista.
Essas características, analisadas em conjunto, permitem entender a articulação entre conservadorismo moral, populismo, autoritarismo e antipluralismo no bolsonarismo, aspectos relevantes para compreender sua aproximação com a direita radical, conforme a conceituação de Cas Mudde. Ou seja, o bolsonarismo está fortemente associado à direita radical populista, que é um subgrupo da extrema direita.
----------------------------------------
Clênia Trindade Lucena Cavalcante é advogada, mestra em sociologia e doutoranda em Políticas Públicas pela Universidade Estadual do Ceará. @cleniatrindade; @democraciaeigualdade
Refências: MUDDE, Cas. A extrema direita hoje. 1. ed. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2022.


Comentários