MEMÓRIA, SOCIEDADE E CULTURA: Breves pontuações antropológicas inspiradas pelos museus de Salvador
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*Eduardo Vago Pereira
Ao reconhecer a Antropologia como o estudo do humano como um ser cultural, podemos falar de sua capacidade de entender as sociedades e a maneira como os indivíduos nelas contidos reagem ao interagir com seus símbolos, visões de mundo e costumes, muitos dos quais propagados na vida em sociedade. Contrariando o senso comum, a Antropologia deixa de ser uma mera “analista do exotismo” quando passa a entender os padrões da cultura, a forma como essa se perpetua e orienta os seres humanos em sua diversidade de trajetórias, pelos menos aquelas nas quais podem ser analisados como animais sociais. Trata-se de uma análise que põe em prática a capacidade dos antropólogos entenderem diversos comportamentos sociais, de forma que as assim chamadas sociedades ocidentais sejam tiradas do pedestal de “universalidade” ou neutralidade, sendo compreendidas em sua capacidade de gerar cultura e patrimônio como qualquer outra sociedade.
Um exemplo importante de como um antropólogo pode encontrar material no “familiar” estaria nas tradições populares, tratadas frequentemente como “folclore”. Enquanto esse conceito aparece como ícone da cultura e patrimônio, a fim de conferir autenticidade a regiões específicas do globo (e a Estados-nação), costuma estar sujeito à disputa de narrativas. Nesse contexto, vale a pena dar atenção aos estudiosos Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) e Lina Bo Bardi (1914-1992), os quais deram contribuição importante para o estudo do folclore no Brasil, sobretudo na porção Nordeste do país. Lina Bo Bardi, em especial, trouxe esse tema para os museus, um espaço onde a pesquisa da antropologia eventualmente faz sua morada e alcança um público maior do que o acadêmico, o que é demonstrado pelo espaço de Lina no Museu de Arte Moderna da Bahia.
Em linhas gerais, pode-se dizer os museus se conectam com a Antropologia pelo trabalho de pesquisa que essa elabora, considerando sua capacidade de desvendar sistemas, encontrando “na experiência estética e na submersão sensorial o que diferentes processos artísticos proporcionam, questionando os mecanismos de produção de conhecimento sobre o mundo que nos rodeia” (2012). Para contextualizar esse argumento, eu trarei descrições de três exposições de museu, todas localizadas na cidade de Salvador. Serão alvo de meu interesse ao refletirem a trajetória cultural do Brasil e sobretudo da Bahia, compondo o embasamento dos próximos argumentos.
Primeiramente, vou trazer a exposição “EntreATOS do Acervo” e o espaço Lina: Reminiscências, ocorridas no Solar do Unhão, sede do Museu de Arte Moderna (MAM) da Bahia. O artesanato abrigado no Espaço Lina carrega essa função estética em objetos que frequentemente têm uso “prático”, demonstra como aquilo que se chama “arte popular” é capaz de se perpetuar através de sua significância simbólica, mas também de se tornar referência para a “arte acadêmica”, quebrando barreiras. Ao observar o espaço, se torna nítido como a arte em argila e em madeira refletem identidades, modos de ver o mundo. No caso do Espaço Lina, é uma chance de perceber os traços da “identidade sertaneja” através da arte, bem como a influência que esta exerce sobre artistas de meios acadêmicos.
A exposição “EntreAtos”, em paralelo, trouxe símbolos da arte popular em suas fotografias, captando a “forma física” deles para demostrar o apelo estético, ao mesmo tempo que aparecem com legendas para explicar que além do valor de registro cultural e/ou histórico, objetos sempre carregam alguma função: santos, cachimbos ou brinquedos. Essa proposta foi vista sobretudo nas fotos de Gustavo Carvalho e Vieira Andrade, compondo uma oportunidade de entender como a arte carrega significados e os cria de maneira espontaneamente. A convergência entre técnica e símbolo é um ponto alto desse debate, havendo referências aos estudos boasianos dos padrões de representação dentro de uma mesma área cultural estudada, com um símbolo se repetindo e criando padrões na estética, mas também no conteúdo veiculado.

Sabe-se que no recôncavo baiano e em Salvador, capital do estado, há uma construção da memória e da identidade a partir da herança iorubá. Isso pode ser demonstrado na exposição da Casa do Benin, cujas peças são referência no estreitamento dos laços que os baianos e os demais brasileiros possuem com os povos do oeste africano, cujo intercâmbio se deu principalmente nos anos da escravidão transatlântica entre os séculos XVI e XIX. O Reino do Daomé, em especial, foi um dos principais Estados africanos desse período a cultivar relações econômicas com Brasil e Portugal, muito antes de se tornar a República do Benin (surgida após o país se emancipar da colonização francesa de 1904-1960). Com as peças classificadas em instrumentos, fotos oficiais e estandartes históricos, a percepção que fica é da troca de culturas que marcou a experiência negra no Brasil, trazendo elementos de numerosos povos e criando referências em diversos ambientes que, longe de serem círculos restritos, conquistaram grande espaço na forma de expressão desse território.
Referenciando Munanga (2019), a arte africana no Brasil se perpetuou e se integrou à trajetória desse território através das referências mantidas na mente e expressas na estética do sagrado, uma vez que aqueles que foram trazidos da África para as Américas -assim como seus descendentes- muitas vezes se apegavam aos símbolos de seus credos e Estados de origem, enquanto os ressignificavam. Rememorar a clandestinidade e o estigma que essa herança sofre desde o colonialismo das Américas é uma forma dar sentido a esse comportamento. Se fazia necessária uma maneira de contornarem o caráter repressivo da sociedade, da lei e da religião predominante.
A última exposição que trago como referência é o Museu de Arte Contemporânea, sucessor do Palacete das Artes. Seu sentido de “contemporaneidade” é apresentado ao público através de composições mais afastadas da arte clássica e da tradicional, a saber: grafite, ready-mades e vídeo-gravações. A exposição de Ayrson Heráclito, se destacou desse meio por remeter a uma identidade mais ancestral, ao mesmo tempo que joga com as regras do MAC: o azeite de dendê marcou sua presença através do olfato e da visão, compondo obras que fogem da compreensão mais tradicional de arte. Para compor a exposição “Agô”, o óleo banhou estruturas e criou composições de água e vidro, sendo homenageado como emblema da culinária baiana e da herança iorubá, bem como das religiões de matriz africana.
Contudo, Heráclito não foi o único artista da exposição a falar de ancestralidade através de recursos recentes, uma vez que que uma diversidade de fotos remeteu a religiões como a umbanda e o candomblé, criando montagens fotográficas, enquanto a sala do audiovisual exibia benzeduras sendo feitas às ruínas da Casa da Torre. Esses exemplos demostram formas de arte visual pela qual uma diversidade de visões contemporâneas se expressa, se comunicando com seu público, criando e sustentando narrativas através de um Patrimônio, considerando o museu como espaço onde histórias são contadas e compõem-se repertórios. Num plano ideal, a função dessas histórias e desses repertórios é criar um sentido nos momentos em que são expostos, não se reduzindo a serem “depósitos conceituados”.
Ao lidar com representações da cultura, é necessário entender o contexto delas e as múltiplas histórias que passam por um objeto ao formar a História. Os museus atuais precisam superar a narrativa única, institucionalizada e se é certo que a decolonialidade deve ser contestada e debatida, também é certo que a “policultura de saberes” associada a seus pensadores se tornam uma necessidade atual: uma única narrativa, oficializada no inconsciente coletivo, se torna insuficiente para entender as nuances históricas e os recortes que fazem uma sociedade. A função pública do museu reside no incentivo intelectual em complemento com a educação, na apresentação de mundos e de trajetórias possíveis.
Do ponto de vista do conteúdo, contudo, o material dos museus soteropolitanos ainda enfrenta desafios para alcançar esse potencial comunicativo. Foi perceptível que muitas das fotos e relíquias nos museus visitados estiveram aquém dessa necessidade: poucas contaram com uma legenda para além da apresentação de seus autores. A interação com as peças dependeu essencialmente da experiência individual, sem guias conduzindo grupos ou capazes de trazer um contexto de produção, fator que seria vital para enriquecer o apreço dos visitantes. Essas limitações remetem a uma política de “espaço em branco” a ser ocupado pela arte, uma tendência que, nas palavras de Magalhães e Costa (2021), refletem um desejo de isolar o espaço da arte, abrigá-la em um “vazio ideal” na qual seu apelo estético seria valorizado em detrimento de seus contextos sócio-históricos.
Sabendo que os benefícios da arte moderna estão na construção de significado a partir de mídias recentes e na visibilidade que ela promove às expressões da contemporaneidade (ainda no trabalho de angariar espaço), suas faltas estão no conteúdo, na comunicação dele ao grande público. Essa limitação do museu moderno pode ser entendida a partir da divisão entre o “museu artístico” e “museu antropológico” (Montechiare; 2019; p.107-132). Nessa divisão convencionada, o “museu artístico” tem prestígio pelo valor estético, enquanto o “museu antropológico” seria menos prestigiado por abrigar a arte rotulada como “exótica”, “não europeia” ou “de difícil compreensão”. Ao identificar essa divisão na criação de museus, se torna possível explicar suas limitações, com a segregação entre forma e conteúdo muitas vezes não dando conta de necessidades da sociedade.
O papel da antropologia, nessa e em outras situações, exige um equilíbrio comunicativo. Se é verdade que os museus não são meros depósitos de teorias aplicadas e se constroem na interação com o público, a condução dos conceitos também é necessária para que as exposições transmitam os valores da obra. A profissão do antropólogo seria uma figura possível de dar sua contribuição pelo conhecimento que tem da diversidade de perspectivas, um potencial vivente nas amostras de um Museu. Assim como a Arte precisa de um conceito, uma ideia para orientar sua produção, os conceitos antropológicos são importantes para dar contexto às peças expostas, reconhecendo que muitas obras de arte precisam de um contexto cultural e diversas peças estudadas pela antropologia possuem seu valor estético a ser decifrado. Percebe-se dessa maneira que a capacidade de “despertar os sentidos” dificilmente remove todo o espaço do utilitarismo, o que se torna mais verdadeiro ao compreender a diversidade de culturas no tempo e espaço da humanidade.
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*Eduardo Vago Pereira nasceu em 2000. Morou nas cidades baianas de Mundo Novo e Feira de Santana, atualmente morando em Salvador. É graduado em Ciências Sociais pela UFBA e mestrando-pesquisador em Antropologia pela mesma universidade. Inicialmente, pesquisou com ênfase em Antropologia das Populações Afro-Brasileiras, mas atualmente, pesquisa principalmente na Antropologia das Populações Indígenas e dos Povos Originários, com foco na educação e interculturalidade. Seu Trabalho de Conclusão de Curso teve como tema "Educação escolar indígena: uma descrição da educação escolar diferenciada entre os povos indígenas da Bahia a partir do caso Pataxó". O projeto de mestrado, tendo como tema de pesquisa a Licenciatura Intercultural Indígena na UFBA (LINTER-UFBA) e o seu processo de formação de professores da educação diferenciada indígena. Também escreve literatura, tendo publicado poesias e contos através dos livros Corpo Sem Freio e Outras Impressões (2022) e A República dos Dois Povos (2026).

Fontes e Referências:
ALMEIDA, Katia Maria. Por uma semântica profunda: arte, cultura e história no pensamento de Franz boas. Revista Mana p.7-34.1998.
CAMARGO, Mônica Junqueira de. O passado como presente histórico. pós v.17 n.28. São Paulo. Dezembro de 2010
CAMPOS, Ricardo; ZOETTL, Peter Anton. Arte e Antropologia? Para uma espécie de introdução. Cadernos de Arte e Antropologia. Vol. 1; N.1 (p.5-8). 2012.
LIMA, Matheus Silveira. Percurso intelectual de Luís da Câmara Cascudo: modernismo, folclore e antropologia. Revista Perspectivas, São Paulo, v. 34, p. 173 - 192, jul./dez. 2008.
MUNANGA, Kabenguelê. Arte Afro-Brasileira: o que é, afinal? In: Paralaxe.Vol. 6, número 1, 2019.
MONTECHIARE, Renata. Colecionando arte e antropologia: controvérsias nos museus de Barcelona. Horiz. antropol., Porto Alegre, ano 25, n. 53, p. 107-132, jan./abr. 2019.
RIBEIRO, António Pinto. O Impossível Museu. Revista Buala. Maio de 2018.
RIBEIRO, António Pinto. Podemos descolonizar os museus? In: Geometria da Memória: Configurações pós-coloniais. 2016.
Imagens cedidas pelo autor.

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