top of page

MULHER QUE GOSTA DE DAR: DE QUEM É ESSE PROBLEMA?




*Kelly Lídia


As discussões geradas nos últimos dias - a respeito do texto publicado ‘’O seu fetiche pode e o dele não?’’ - me cercaram de uma forma em que precisei me manter na temática por mais uma semana. Moralismo, repressão e liberdade dos desejos sexuais femininos são alguns dos conteúdos que gostaria de mobilizar neste espaço.


Nos últimos dias, tive uma conversa inquietante com uma amiga próxima a mim. O assunto gerou algumas perguntas, mas a principal delas foi: de quem é o problema quando uma mulher gosta de dar e expressar livremente sua sexualidade e seus desejos? O tema do fetiche deu pano para manga e algumas reflexões foram pontuadas: por exemplo, a respeito da naturalidade em como um homem cis consegue falar sobre os seus fetiches (até dos mais estranhos e menos aceitos pela sociedade). Mas e uma mulher? Se para os homens a possibilidade de falar abertamente sobre os seus desejos sexuais é algo que causa estranhamento, mas que ainda pode ser algo possível, qual espaço existe para as mulheres falarem abertamente apenas sobre o fato de que gostam de dar e fazer sexo?


Se uma mulher gosta de dar, esse problema é de quem? Dela mesma, já que pode ser intitulada de puta, alguém fácil e nada recatada? Do pai ou da mãe que não castraram [1] ela o suficiente? Do cristianismo, que tem permitido que existam essas ‘falhas’ no caráter de mulheres que deveriam apenas pensar em servir e satisfazer? Do marido dela que vai precisar lidar com a infidelidade de uma ninfomaníaca insaciável? Ou da sociedade, que não consegue conceber o mínimo da noção de liberdade em corpos historicamente marginalizados, subalternizados e invisibilizados?


Em diálogo com minha amiga Raabe [2] conversamos muito a partir de algumas questões norteadoras. A primeira delas diz respeito da relação que as mulheres têm com o sexo. Sobre isso, Raabe compartilhou que, por nascer em um lar cristão com crenças repressoras, gostar de sexo sempre foi motivo de culpa para ela. Esse, infelizmente, não é um relato isolado que 1 ou 2 pessoas carregam em seus discursos, pelo contrário. Judith Butler [3] discute há algum tempo acerca do gênero ser uma forma de regulação social, assim como a legislação e as instituições (escolares, psiquiátricas, penitenciárias, etc). Junto a isso, a dimensão de comportamento vem carregada da reflexão sobre as performances do que se espera de correspondência com cada ‘sexo’ e sua sexualidade. Para essa última, além da regulação, há também uma hostilização, a partir da ideia de privação do prazer feminino.


Não é de hoje que a sociedade levanta pautas quanto ao papel que a mulher ocupa (mais precisamente sobre aquele que lhe é destinado). O movimento feminista negro pauta, especificamente, a noção de feminismo a partir da ideia de interseccionalidade [4], pensando nos diversos marcadores sociais que um corpo pode possuir. Atualmente, encontramos alguns espaços viáveis para a problematização de determinadas questões objetivas no que diz respeito à realidade da mulher na vida social, entretanto, quando o campo da reflexão migra para aspectos subjetivos, percebemos que diversos assuntos ainda precisam ser discutidos e analisados. A objetificação da mulher que gosta de dar é uma delas. Sobre isso, Raabe pontua:



‘’Já me senti usada demais. [...] Eu precisava fingir que estava doendo porque ele só sentia prazer se achasse que eu estava sentindo dor na penetração. Quando acabava, ele sequer me perguntava se eu tinha gozado.’’



A busca moral que se faz pela compreensão de qual a melhor roupa vestir (literal e metaforicamente) para ser respeitada, para parecer não tão fácil assim e para também ter a aprovação do outro, tem a sua complexidade.


‘’Eu me sentia completamente julgada por diferentes pessoas. Primeiro porque as lideranças do lugar religioso que eu frequentava eram homens para os quais precisei detalhar a minha vida sexual. Eu me senti muito mal à época, porque era como se eu fosse uma puta. Hoje eu sei que realmente sou.’’



E o ser puta? Estigma ou liberdade?


Mulheres que gostam de dar são constantemente alvo de determinadas religiões, dos discursos moralistas, do julgamento fácil, do estigma de que não prestam e de que são putas, da suposição de que podem ser violentadas, não amadas, desrespeitadas e concebidas como objetos a serviço de alguém ou de algum espaço institucional - incluindo o Estado.


A palavra ‘’puta’’ se populariza como um sinônimo pejorativo para a prostituição, e até os dias atuais está fortemente relacionada a ela. Por sua vez, é interessante pensar em como a prostituição é endemoniada, ao mesmo tempo em que a busca pelo sexo esteja constantemente associada ao desejo de poder transar com alguém que performe o ‘’ser puta’’. A noção dicotômica, às vezes evidenciada pela hipocrisia, se estrutura muito mais através do moralismo - que precisa ser protagonista - em detrimento do desejo. É importante frisar que não estou naturalizando a prostituição, porque sabe-se da lógica de dominação e controle de corpos que existe através do sexo como serviço. Não podemos romantizar a prostituição como sendo sempre uma escolha individual e um desejo restrito à realidade de pessoas isoladas. Nesse caso, desejo trabalhar a terminologia da palavra ‘’puta’’, não a prostituição como trabalho.


‘’Para mim, tudo ótimo gostar de dar. Apesar de me sentir muito culpada no início da minha vida sexual, eu sempre fui bem fácil. Uma vez um amigo me disse que assim perdia a graça porque ninguém teria a dificuldade de me conquistar. Mas eu não vejo dessa forma, porque qualquer relacionamento envolve uma conquista constante. No sexo quero ser bem fácil mesmo porque eu me amo demais para ficar me negando ao orgasmo. Qual o homem deixa de se envolver sexualmente pensando que assim ele vai ser fácil demais? Qual homem que se preocupa com a reputação dele caso vaze uma cena dele transando? Essas preocupações não são minhas também não. Antes eu tinha desespero mortal de alguém me ver em um vídeo, hoje eu compreendo que se vazar é uma obra de arte. Não posso fingir que não transo e que não faz parte dos meus fetiches ser filmada… se vazar, qual o grande tabu nisso?’’

Mas e você, o acha disso? De quem é esse problema?


*É interessante pontuar que sim, este texto se refere a uma articulação pensada e escrita a partir da visualização de mulheres cis, mas deixo registrado que não desconsidero e nem incentivo que seja desconsiderada a realidade de homens trans, mulheres trans e travestis e pessoas não binárias diante a relevância da temática.


* Graduanda em pedagogia na UFBA. Instagram: @klynasc


Notas:


[1] Freud (1925) discorre acerca do Complexo de Édipo, frisando a relação entre formação do psiquismo e alguns conceitos que estruturam a subjetividade infantil. Dentre esses, existe a castração. É uma movimentação inconsciente feita pela família para delimitar limites e impôr regras sociais à criança, fazendo com que alguns dos seus desejos sejam castrados porque ela precisa aprender a viver de forma menos egóica com o mundo. Para as meninas, essa castração é muito mais incisiva, causando, muitas vezes, espaços de repressão com o próprio corpo - um possível sintoma da castração.


[2] Nome fictício, escolhido pela pessoa que autorizou a exposição do seu depoimento neste canal de comunicação. Raabe diz respeito à história de uma prostituta, personagem do Antigo Testamento do livro da Bíblia, que ganhou a salvação de Deus por ter ajudado seu povo, sem precisar deixar de ser prostituta.


[3] Por exemplo: em Sujeitos do desejo (1999), Problemas de gênero (2003) e Défaire le Genre (2006).


[4] Termo difundido pela estadunidense Kimberle Crenshaw com apoio teórico nas obras de personalidades como Angela Davis, Bell Hooks e Patricia Hill Collins, sendo popularizado no Brasil a partir da obra de Carla Akotirene, junto ao movimento Feminista Negro.


IMAGEM: No fundo o quadro L’Origine du monde (pode ser apreciado Museu d’Orsay, em Paris) crédito da imagem: AP Photo/Francois Mori

235 visualizações8 comentários
bottom of page