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"NÃO ACEITAMOS GAYS". EMPREENDEDORISMO DE EXCEÇÃO, LIBERDADE DE EXCLUSÃO, E A BÍBLIA COMO LEI.




No ano de 2015, a Suprema Corte dos Estados Unidos concedeu aos homossexuais o direito a união civil. Uma tabeliã se recusou a emitir licenças para esses casais em seu tabelionato alegando que isso feria “a autoridade de Deus”, citando sua crença religiosa e recorrendo da decisão. A Suprema Corte rejeitou o pedido dela e bateu pé na decisão de manter os direitos dos gays a firmarem a união. Foi o maior bafafá. Grupos evangélicos apoiaram a tabeliã, enquanto entidades civis falavam do absurdo de uma autoridade judicial descumprir decisões do Supremo. Como tabeliã, ela não deveria misturar resolução judicial com preceitos bíblicos.

 

Cito esse caso pra falar da “mistura de bolas” que ocorreu semanas atrás aqui no Brasil. Um casal homossexual denunciou um atelier de São Paulo que se recusou a fazer um orçamento sobre convites de uma festa que celebrava a união dos dois. Os responsáveis pela empresa comunicaram ao casal que “não faziam convites homossexuais” e pediram pra procurar outro lugar para isso. Depois de um quiproquó nas redes sociais, após posts reclamando da falta de ética da empresa, os proprietários do atelier afirmaram que seguiam “princípios cristãos” e por isso declinaram do atendimento. E ainda citaram que estavam sendo vítimas de “heterofobia”. Inacreditável...

 

O Código de Defesa do Consumidor diz que toda empresa deve vender produto ou prestar serviço a qualquer pessoa, desde que tenha estoque ou o cliente possa pagar por isso. Ou seja, não há qualquer critério moral que possa impedir que um empreendimento se negue a atender quem quer que seja. Assim como alguém legalmente ocupando uma posição que deve seguir irrestritamente a lei e a constituição – como no exemplo da tabeliã – os comerciantes evangélicos acima citados, não podem deixar de prestar seus serviços porque sua fé não permite!

 

Chegamos a um ponto perigoso com isso. Religiosos estão utilizando um livro sagrado para gerir não apenas sua doutrina, mas sua vida institucional e profissional. Ou seja, estão chutando pra longe códigos e estatutos pra tomar decisões seguindo os desígnios de Deus. Não esqueçamos que a ciência já foi utilizada para dividir a sociedade segundo raças. O Apartheid sul-africano, foi uma decisão baseada na conservação das culturas. Para preservarem seus costumes ancestrais, negros deveriam ter suas vidas sociais apartadas dos brancos. E aí, criaram-se conceitos de inferioridade racial, que também se estendeu pela sociedade norte-americana. Olha o perigo desses dois casos discutidos aqui, pois dessa vez é a religião que ocupa o lugar que um dia foi da ciência.

 

Um estabelecimento gerido por fervorosos seguidores da fé cristã pode deixar de atender negros alegando que são “descendentes de um homem amaldiçoado”. É que – dizem as escrituras – Noé teria condenado seus netos à escravidão, ato conhecido como “A Maldição de Cam”. Com isso, muitos tentaram justificar a escravidão de africanos. Utilizando esses trechos, negros poderiam ser proibidos de frequentar certos estabelecimentos por “malcriação divina”, apontando possíveis pragas a seus negócios. Pense aí que desgraça!

 

Um bar poderia proibir a presença de mulheres. Isso mesmo! Com o pretexto de que a mulher foi constituída “da costela de Adão”, os proprietários do boteco podem argumentar que o público feminino possui uma “dívida histórica” e só entra lá se “liberar o débito eterno”. Parece piada que estou contando, não possibilidades de um futuro sombrio, já que a ex-primeira-dama falou que política e religião “vão se misturar sim!”. Como vimos, justiça e religião e negócios e religião já se misturam sim! E você que reclame alguma coisa, seu herege! O empreendedorismo de exclusão pode estar começando a bater nas portas, não do Céu, mas da lojinha ao lado. Você que é trans, gay, queer, mulher, negro, pode ficar com fome, pois sua pizza solicitada naquela noite de domingo pode não chegar! Por quê? Porque Deus não quer! Simples! E pode parar de amenizar e dizer que esse caso da proibição do convite gay foi “caso isolado”. Pode ser... Mas pode não ser! Já pensou como segregações, holocaustos, e genocídios começam?

 

No campo da “Liberdade de exclusão”, outro empreendimento pode proibir a entrada de cadeirantes e demais deficientes. E sem utilização da Bíblia! Já que todo mundo proíbe, cada um se vê “no direito” de proibir também! Um comerciante irritado com a ajuda frequente que presta a essa gente pode muito bem ficar puto e mandar lá “eu ajudo esse pessoal e não ganho nada com isso. Portanto, paralítico, cotó, joão sem braço, não atendo mais porra de deficiente nenhum!”. Pronto! A festa da “liberdade” que certos segmentos tanto pregam, tá feito!

 

Nossa sociedade, que foi às ruas anos atrás pra dizer ‘chega’ pra qualquer tipo de abuso, agora tá apática, achando que todo abuso é bemvindo!! Do jeito que estamos, é melhor falar disso agora, pra inteligência artificial e os algoritmos proibirem de divulgar qualquer tipo de denuncias a qualquer proibição baseada na Bíblia, na religião, ou qualquer outra filosofia, alegando que as críticas “ferem o direito divino das redes”.


FONTE:





imagem: Gazeta do Povo

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2 commenti

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E o resultado das denúncias acaba sendo uma projeção para essas empresas que rende lucros para elas com apoio dos conservadores. No entanto, independente dos lucros da empresa em si, o debate deve ser feito na esperança de levar via debate público alguma consciência… que também não sei se é uma estratégia efetiva… seguimos o jogo.

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Ótimo texto, Carlos. Provocativo, bem escrito e interessante. Sem dúvida, como filhos e filhas da democracia liberal essa atitude desses evangélicos é absurda, já que o terreno de deus seria o campo privado, jamais outras esferas. O que a gente observa são grupos recusando essa privatização em nome de algum princípio universal, sólido e até místico. Embora eu acredite que essa sempre foi a regra na história humana nesses 300.000 anos, ao menos nas últimos décadas essa atitude é perigosa. Na verdade, essa recusa do evangélico não só entra em contradição com a democracia liberal e seu fluxo privatizante de valores, mas até com o próprio capitalismo. Verdadeiros capitalistas dizem: "Não importa se você é trans, cis, homo, bi, não-bi.…

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