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NA KOMBI DA DISCÓRDIA COM ELIS REGINA




Esta semana ficou marcada por um comercial da Wolkswagen no qual aparece a cantora Maria Rita pilotando um novo modelo de Kombi cantando o clássico “Como Nossos Pais”. E, de repente, uma Kombi antiga emparelha ao lado dela e surge Elis Regina, recriada por inteligência artificial, cantando a mesma canção. A propaganda veiculada na internet foi realizada para comemorar os 70 anos da montadora no Brasil. Era pra ser uma peça publicitária surpreendente, mas não ficou só nisso. Começaram as velhas polêmicas, que se não forem levantadas, é sinal de que não há vida cibernética. Não quero lhe falar meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos, mas gostaria de pontuar algumas controvérsias sobre o caso.


Queria dizer que a propaganda é belíssima, realmente emociona, e é muito bem formulada. Maria Rita afirmou que chorou muito após o comercial ser veiculado. Não é para menos. Aparecia ao lado dela, mesmo artificialmente, sua famosa genitora, uma das grandes artistas que esse país aclamou, entoando junto a ela uma música eternizada na cultura nacional. Isso bastaria pra solidarizarmos com ela, na recriação de um momento mágico. Se tudo fosse só isso...


Posts e twittes pipocaram alertando o passado sombrio da empresa alemã, que teria financiado o regime nazista, ao lado de outras companhias do mesmo país, como BMW e Porsche. Ela, inclusive, teria planejado o fusca para o Hitler. Não bastasse, também colaborou com o regime militar aqui no país e reconheceu isso. Em 2021, publicou uma nota pela imprensa assumindo que contribuiu com a violação dos Direitos Humanos e que teria até denunciado funcionários sindicalistas. Algo gravíssimo, desabonador. Portanto, muitos criticaram o comercial justamente por recriar uma artista que lutou contra a ditadura daqueles tempos – assim como Belchior, autor de “Como Nossos Pais” – e a colocou dirigindo um veículo de uma marca solidária a governos arbitrários. Ainda tem a discussão ética: reviver alguém falecido para gerar campanha e produzir vultosos lucros para os envolvidos. Sendo assim, o comercial, a marca, Maria Rita, todo mundo deveria ser condenado por essa farsa! Bom, chegou a hora de contar o que vivi e tudo o que aconteceu comigo ao me deparar com todo esse imbróglio, tentando analisar a questão de acordo com minhas observações sobre o caso.


O sistema capitalista é cruel, podre e explorador, desde suas origens. Se elencarmos empresas que utilizaram trabalho escravo, infantil, sonegação, fraude e que fecharam os olhos ou auxiliaram governos autoritários, viveríamos como os Neandertais. Infelizmente, somos dependentes de uma estrutura de vida cotidiana, urbana, digital, eletrônica, consumista, que pensar nisso seria uma enxaqueca eterna. O correto seria boicotar quase todas, porém, a necessidade faz o sapo pular, e não condicionamos nossa mente a isso. Tudo é um grande clichê, por isso considero importante separar o joio do trigo, ou seja, a trajetória infame de uma organização capitalista de uma peça publicitária que nos ativa a memória afetiva. O comercial em debate, mostra a relação geracional ligada a diversos modelos de automóvel, momentos vivenciados, e que nos remete a situações do passado que nos conectam a produtos que consumimos. Podemos lembrar de entes que partiram ao ver uma embalagem de sucrilhos; quando tomávamos café da manhã com essas pessoas; ao jogar videogame; ao dar presentes de amigo secreto; ao passar na bomboniere e comprar aquele chocolate, daquele comercial... O primeiro sutiã, aquela brasília que seu tio enchia de primos pra passear; aquela loja onde comprávamos chuteiras para o baba de domingo, e que não existe mais. Comerciais remetem a sentimentos, lembranças, recordações e é isso que Maria Rita vai recordar pro resto de sua vida. Empresas duram décadas, e elas até podem conformar suas ações, se preocuparem com o meio ambiente, reduzir taxas de açúcar em seus alimentos, vá lá. Por isso, considero que não cabe restaurar um histórico perverso e associar a um comercial em 2023, porque o negócio e a atitude dos seus antigos administradores não deveriam se misturar, até mesmo para resguardarmos nossa capacidade de aquisição mercadológica. Talvez o passado seja uma roupa que não nos serve mais. A discussão sobre isso é válida, tá? Não vejo, porém, a audiência se entrelaçando com um boicote de mercadorias. Eles venceram e o sinal está fechado pra nós.


E recriar Elis? Ainda mais participando de uma propaganda de uma empresa que apoiou aquilo que a cantora mais rejeitava? Bom, essa mesma Elis que todos compadecem de estar envolvida tecnologicamente em um comercial nefasto proposto por uma companhia colaboradora de nazistas e governos militares, cantou, em 1972, o Hino Nacional durante um show de abertura das Olimpíadas do Exército, ao lado de muitos golpistas. O cartunista Henfil desenhou uma charge no qual aparecia Elis cantando num túmulo no “Cemitério do Cabôco Mamadô”, criado por ele para retratar pessoas acusadas de colaborar com o regime de então. E aí??? E agora, José??? Agora imaginem um cantor “esquerdista” cantando numa cerimônia militar ao lado de Jair Bolsonaro? Hummmmmmmmmm... Não considero essa apresentação de Elis como ato falho: ela era uma profissional do canto. Mas olha como a bola não gira redonda! Muitos ancestrais dos que estão lamentando Elis no comercial de uma firma nazista, podem ter “metido o pau” nela há 51 anos por esse showzinho infame no campo do inimigo. Além do mais, é difícil falar como seria o pensamento atual de uma pessoa que morreu há mais de 40 anos. Quem no fim dos anos 70 acharia que Regina Duarte – a namoradinha do Brasil – se tornaria essa bolsonarista roxa? Quem adivinharia que Nana Caymmi, pertencente a uma família que contribuiu enormemente para a música nacional, daria uma entrevista na Folha anos atrás achando que Bolsonaro poderia ser uma boa? Esse tipo de especulação não deveria funcionar de modo tão natural. Mais uma vez: não acho que Elis, estando viva, seria simpatizante dessa direita tosca. Mas não falo dela apenas. Muitos em 2013, ao ver pessoas queridas, cabelo ao vento, gente jovem reunida, não esperavam que parte daquele grupo iria enveredar ao lavajatismo ferrenho, contribuírem para ascensão de muita gente que não presta, página infeliz da nossa história. Na parede da memória de muitos de nós, essa lembrança é o quadro que dói mais.


Por fim, a utilização de inteligência artificial para reviver gente que se foi. Isso é ético? Bem, no caso explorado, Maria Rita deu o aval para isso. Quando falamos de pessoas que viveram para o público, recriações desse tipo não seriam tão reprováveis. Todo artista tem de ir aonde o povo está, mesmo depois de morto. Minha colega de Soteroprosa Karla Fontoura cantou essa pedra no texto “minhas previsões para a inteligência artificial na música”[1], em que fala das ações que o mercado fonográfico perpetrará com o avanço dessa tecnologia. Diz ela: “Haverá shows póstumos. Enormes eventos de artistas que não estão mais vivos, puxando o lado nostálgico de seus fãs”. Percebem? É um caminho sem volta. Se é ético ou não, os detentores dos direitos autorais, muitos deles descendentes dos falecidos, estão aí revivendo aquele se foi, a seu lado. É importante para muitos. Por isso, não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança, em breve, vai acontecer. Se ligue nesses avanços. Maria Rita sabe como ninguém o significado disso tudo, na ferida viva do seu coração.


Você pode até dizer que estou por fora, ou então que estou inventando. Porém queria dizer a muitos que reprovaram por completo tudo que esse comercial envolveu: cuidado, meu bem. Há perigo na esquina. Muitas vezes, quem nos dá uma nova ideia de um nova consciência e juventude, pode futuramente estar em casa, guardado por Deus, contando vil metal.


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