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NARRATIVAS EM TEMPOS DE GUERRA





O mundo, ao longo do tempo, vivenciou diversas guerras por diversos motivos e com outros diversos métodos de enfrentamento. Desde 2525 a.C. nas cidades-estados da Suméria (hoje sudeste do Iraque), Lagash e Umma, relatos sugerem que existiu uma guerra de fronteira onde os rivais disputavam domínio econômico, territorial e político, segundo o historiador John Baines (Super Interessante). Acabamos sabendo desse conflito por conta de dezoito inscrições reais deixadas, de maneira supostamente tendenciosa, pelos governantes de Lagash, encontrados por arqueólogos. O motivo dessa guerra, que ocorreria (provavelmente) durante dois séculos, tinha como pano de fundo inicial do antagonismo terras de Umma, cerca de 30 km rio acima de Lagash, que incomodavam seus vizinhos por possuírem área de cultivo irrigável e com isso provocava um certo desconforto pelo “controle” do rio. Uma narrativa, dentre outras, que hoje, quase cinco mil anos depois, nos impede de fechar consenso. Mas a pergunta que fica é: são necessários cinco mil anos para a confusão das narrativas impedir que enxerguemos o fato, ou melhor, a realidade? A atualidade tem mostrado que não é bem assim.


Vamos começar passeando pelo entendimento sobre o que é narrativa. Narrativa é a exposição de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados, reais ou imaginários, por meio de palavras ou de imagens; prosa literária, caracterizada pela presença de personagens inseridos em situações imaginárias; narração; conto, história, caso; o modo de narrar - segundo o dicionário de Oxford Language. Entendendo o que é essa tal narrativa, vemos que não é tão difícil, se pusermos uma pitada de preconceitos, fanatismos, conveniências e fake News, dentre outras coisinhas mais, criarmos uma, ou várias, que concorram com interesses. E guerras, resumidamente, são disputas por tomadas ou defesas de interesses.


Desde 1890 a região ao redor de Jerusalém, que hoje vê desencadeado mais um dos tantos conflitos de sua história, emergia em tensões por conta diretamente do surgimento do sionismo (movimento político que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e à existência de um Estado nacional judaico independente no território onde historicamente existiu o antigo Reino de Israel). Foram muitos desconfortos, conflitos e disputas na região que sempre foi povoada por árabes e judeus, revezando-se demograficamente ao longo dos séculos. Criado em 20 de agosto de 1993 e assinado em 13 de setembro de 1993 o Acordo de Oslo tinha como finalidade a paz entre os povos palestinos e os israelenses. Dentre outros pontos acordados existiam os seguintes:


· A retirada das forças armadas israelense da Faixa de Gaza Cisjordânia, assim como o direito dos palestinos ao auto-governo nas zonas governadas pela Autoridade palestina.

·  O governo palestino duraria cinco anos, de maneira interina, durante os quais o status seria renegociado (a partir de maio de 1996).

·  Questões referentes a Jerusalém, refugiados, assentamentos israelenses nos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, segurança e fronteiras.

·   O autogoverno seria dividido em:

·   Área A - controle total pela Autoridade palestina;

· Área B - controle civil pela Autoridade palestina e controle militar pelo Exército de Israel;

·    Área C - controle total pelo Governo de Israel.

·    Acordo de Paz.

 

Durante décadas anteriores e mesmo depois desse acordo, principalmente Israel, descumpriu sua parte e incitou revoltadas, atrofiamento do povo palestino, gerando conflitos ininterruptos (principalmente na Faixa de Gaza) e apresentando tantas outras posturas que não concorreram para, por exemplo, a criação de dois estados organizados e independentes que pudessem conviver em harmonia. Culpa de Israel? Isso é só mais uma narrativa que confronta com o fato de que, segundo a ONU News de 28 de agosto de 2019: “Geólogos e economistas confirmaram que nos territórios palestinos existem “reservas consideráveis de petróleo e gás natural”. Estes recursos estão localizados na Área C da Cisjordânia e na costa do Mediterrâneo, ao longo da Faixa de Gaza.”, em outras palavras, onde estão sendo constantemente afunilados os palestinos. E, com um ar de apaziguador de conflitos mundiais, tentando como sempre passar uma ideia de “síndico do mundo”, os EUA sempre estão lá quando os conflitos mundo à fora surgem. Sejam como financiadores bélicos de um lado dos conflitos, sejam como financiadores bélicos dos dois lados do conflito, seja como propagador de uma narrativa exclusivamente apropriada para os interesses norte-americanos, mas eles sempre estão lá.


Um ano antes desse conflito eclodir a Ucrânia e a Rússia protagonizavam mais uma disputa territorial que até o momento não se encerrou. Como sempre, os EUA “apareceram” no posto de mediadores de um conflito que imediatamente ventilou a narrativa pelos grandes veículos de comunicação mundiais que se tratava de mais uma perversidade do tirano líder russo Vladimir Putin. Tal narrativa acabou ocultando informações bastante relevantes para uma maior compreensão do que estava realmente acontecendo. Informações que trouxessem a opinião pública para uma reflexão mais abrangente, como por exemplo “Existe ideologia de extrema direita e neonazismo na Ucrânia?” a revista virtual da BBC Brasil de 23 de março de 2022 trabalha esse tema e nos afirma que sim: “Essa questão continua sendo altamente sensível, evitada por políticos e pela imprensa. Ninguém quer fornecer combustível para a máquina de propaganda russa, que costuma ressaltar — e por vezes exagerar — o papel desses grupos na política ucraniana.” Esse fato em si não diminui culpas e erros russos, mas descontrói a narrativa de que estamos falando, em se tratando de Ucrânia, de um país sem manchas. Sobre o grupo miliciano ucraniano Azov a revista destaca que “Na prática, o grupo se transformou em uma milícia de guerra nos últimos anos, cujo maior inimigo são os russos.


O Azov é criticado por exibir símbolos nazistas, como o Wolfsangel, usado pela 2ª Divisão Panzer SS Das Reich, e o Sol Negro.” A questão não é a “informação superficial de alusão ao nazismo”, mas tudo o que ocorre na Ucrânia que o mundo desconhece. Além do mais, na tentativa de diminuir o peso dessa informação, defensores da Ucrânia dizem que “o país não é nazista, mas possui milícias nazistas”, mas então, contrapondo a força dessa narrativa, será que a Rússia é comunista, ou mesmo cruel e vilã como a vida toda sugeriram os filmes norte-americanos, ou ela apenas possui algumas células e pessoas que aderiram a esses perfis? Na guerra a narrativa não pode servir para dois lados. Alguém tem que ser o mocinho e alguém tem que ser o bandido, senão a “novela não funciona”. Não se pode tomar lados quando os dois lados são culpados, diz a “etiqueta da batalha”.


Outro fator importante para se ressaltar, porém quase nunca abordado na grande mídia mundial é o fato econômico que levou à essa guerra e sem ele a guerra não tem muito sentido. Por que países emprestariam fortunas para que nações se dizimassem? Por que os EUA saem de sua casinha branca para o papel de advogados de porta de delegacia? Isso não interessa ao público que morre bombardeado, ou com fome, ou com sede, ou escravizado, ou mesmo mentalmente doente, fanático e alienado. No caso desse conflito entre os dois países oriundos da antiga URSS, trata-se de uma estratégia articulada pelas lideranças da União Europeia e os norte-americanos no intuito de “quebrar a banca” dos russos na venda de derivados de petróleo para a Europa e região, atividade dominada pela Rússia. A posição geográfica da Ucrânia é estratégica para o sucesso russo na distribuição (onde passa com seu gasoduto escoando a produção) e estratégico para os especialistas em destruição de nações desde 1914 e que agora vem sofrendo um desequilíbrio financeiro muito grande vendo a China andar a passos largos para tomar sua posição como maior potência mundial, se não já tomou. Mas essas são pequenas narrativas minhas diante de fatos que leio, escuto, somo e subtraio nessa minha pequena mente intrigada e inquieta.

 

 

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Notas:

 

Israel, Palestinos, Ucrânia, Faixa de Gaza, Rússia, EUA, Narrativas

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