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NECROMANCIA DIGITAL: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E A MORTE RESSUSCITADA

há 13 minutos
3 min de leitura
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A série Black Mirror, em sua primeira temporada, possui um episódio chamado “Be Right Back” em que uma mulher perde o marido num acidente de trânsito e, para lidar com o luto, ressuscita-o com base nas suas atividades de redes sociais. Um robô com enorme semelhança física dele teria arquivado em seus sistemas tudo o que ele já escreveu e comentou no universo digital, tentando de alguma forma reavivar a personalidade do indivíduo e ajudar a jovem viúva a lidar com a dor da perda. Quando esse conteúdo saiu, no ano de 2011, poderíamos estar de olhos arregalados assistindo tamanha distopia, sem imaginar que 15 anos depois viveríamos essa condição em nosso torno com enorme tranquilidade e até certa euforia de que estaria ao alcance das grandes massas a possibilidade de reviver seus entes falecidos em programas de IA. Estamos vivendo a era da não morte, da Necromancia Digital. 


O que é a Necromancia Digital? Vamos olhar o termo com atenção: 


  • Necromancia é conhecida como a prática de se comunicar com os mortos ou invocar seus espíritos. 

  • Necromancia Digital é a versão digital que utiliza as ferramentas tecnológicas para manipular vozes, imagens e traços de personalidade de pessoas falecidas para gerar conteúdos produzidos com IA.


Para melhor contextualização, o que antes era um ação dentro de um centro espírita, uma roda de mesa branca ou uma experiência individual associada a comunicação com bem-querentes, ganha uma nova etapa graças aos registros do morto enquanto vivo na internet. Da mesma maneira que o personagem fictício da série Black Mirror onde seus traços no mundo digital moldaram uma espécie robótica, pessoas estão manipulando os registros dos mortos no intuito de ressuscitá-los nas telas de celulares, em comerciais, filmes, e concertos musicais. 


Porém, uma nova gama dessa cultura tem surgido nas redes sociais com maior apelo emocional e total consciência do poder das massas no mundo digital. Um deles são perfis de pessoas comuns que utilizam de vídeos manipulados por IA para se “fantasiar” da imagem de pessoas mortas, a partir de fotos delas enviadas pelo seus parentes e amigos saudosos. A pessoa do vídeo estala os dedos, se transforma na imagem do falecido e diz algo, gesticula, tentando se assemelhar aos trejeitos indicados por aqueles que enviaram as fotos. É um morto-vivo diante de nossos olhos, trazendo alguns segundos de alento para pessoas que estão vivendo o luto e administrando a perda de uma existência. 


Esse recurso emocional tem sido utilizado até para se aproveitar de pessoas fragilizadas com o luto. A ferramenta de inteligência artificial chamada Ninna.pro criada pelo empreendedor Pablo Eduardo Rodríguez promete “reconectar” mães com filhos mortos por meio de IA, mediante pagamento de uma mensalidade. O sistema simula conversas com filhos já falecidos e utiliza deste “robô” para pressionar os pais a continuar pagando a mensalidade e manter o relacionamento digital. Isso foi exposto através de prints nas redes sociais, onde os relatos deixam claro o uso de chantagem emocional para convencer mães e pais enlutados a pagar assinatura.


Ainda não temos completa noção dos efeitos dessa “ressurreição” desmedida de corpos mortos em torno da cultura de morte, perda e luto. Será que ficaremos mais intolerantes ao fim? Ou fugiremos de algum desconforto emocional causado pela ausência, substituindo amores perdidos por robôs compatíveis? Enquanto os efeitos chegam, alguns especialistas já tecem sua opinião sobre esse cenário. Uma delas é a Elaine Kasket, professora de psicologia da Universidade de Bath, no Reino Unido, e autora do livro "All the Ghosts in the Machine: The Digital Afterlife of Your Personal Data" ("Todos os fantasmas dentro da máquina: vida após a morte digital dos seus dados pessoais", em tradução livre). Conforme Kasket, a regulamentação não avança com a mesma rapidez que os recursos são atualizados, aumentando os riscos do uso inadequado da IA após a morte. Ela afirma: “Qualquer pessoa pode usar restos digitais para manipular os mortos como fantoches”. 


Qual será a nossa postura diante de um mecanismo tão fácil e simples de manipulação da ideia de vida? A Necromancia digital tem uma proposta tentadora para nossos olhos saudosos de rostos e presenças que queríamos livrar da morte e, por isso, pode ser capaz de tirar uma capacidade humana vital para nossa evolução: a superação. Como seremos capazes de lidar com o fim, a falta e tudo que essa ânsia avassaladora carrega e nos inspira a escrever poemas, produzir canções, pintar quadros, fortalecer relações e aprofundar nossa espiritualidade? Parece que nosso futuro carrega mais do que promessas de avanços de comportamentos, mas um novo terreno na existência onde ficamos entre manter nossas raízes humanas, ou desistir delas em meio às ondas do desespero e do medo. Estou tentada a resistir. Humana, ainda sou e quero ser. 


Fontes:







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