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NICOLÁS MADURO CAIU. E DEPOIS?


“Assim como sugere a pintura de  Moritz Retzsch, o erro mais comum após a queda de um tirano é confundir vantagem momentânea com vitória definitiva.”
“Assim como sugere a pintura de  Moritz Retzsch, o erro mais comum após a queda de um tirano é confundir vantagem momentânea com vitória definitiva.”

“É necessário, pois, a quem conquista um Estado acostumado a viver livre, destruí-lo ou nele residir.”— Maquiavel, O Príncipe, cap. V



A invasão dos EUA ao território venezuelano e a captura do ditador Nicolás Maduro e de sua esposa caíram como uma bomba no cenário internacional. E isso é válido tanto para os céticos, que continuaram a pensar que o cerco à Venezuela seria mais um TACO (Trump always chickens out, ou “Trump sempre amarela”), quanto para os apocalípticos, que viram no evento apenas a concretização de um plano maléfico orquestrado pelo império ianque.


Exceto para aqueles atados à cegueira ideológica, em que nenhum fato pode abalroar convicções pré-estabelecidas, todos os analistas concordam que adentramos um cenário de absoluta contingência, porque, embora as motivações do presidente americano estejam relativamente claras, a raiz das dúvidas está fincada no momento mais importante após um acontecimento político dessa magnitude, qual seja: o dia seguinte. E, ainda que a coruja de Minerva esteja longe de alçar seu voo, talvez possamos recorrer à tradição do pensamento político ocidental como ferramenta necessária para nos guiar em águas tão turvas.


É com O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, que o conhecimento sobre a natureza e os processos envolvendo a existência de um território político se sistematiza. E, como lembrou o sábio florentino, a tomada de um Estado raramente constitui o maior desafio político, pois o verdadeiro problema começa sempre após a luta encarniçada pela tomada do poder. Ao abordar a dinâmica instável das transições políticas, Maquiavel insiste que conquistas pela força, sobretudo aquelas marcadas por estruturas políticas próprias e elites enraizadas, são caracterizadas pela relativa facilidade de subjugar o governante no momento inicial, mas quase impossíveis de manter sem o recurso contínuo à violência.


É essa advertência clássica que paira como sombra sobre o anúncio feito por Donald Trump da captura de Nicolás Maduro e de planos para uma administração direta da Venezuela. Contudo, esse fato político muito mais inaugura um período de incertezas profundas para a Venezuela e para a América do Sul do que propriamente encerra o ciclo de um regime detestável.

Do ponto de vista da recepção do acontecimento, o ato foi imediatamente absorvido por duas narrativas concorrentes. De um lado, a leitura em chave imperialista alega que Trump teria agido movido por interesses econômicos e pelo acesso aos recursos minerais do território venezuelano, num caso típico de intervenção norte-americana no continente. E, claro, o desdobramento lógico do raciocínio: toda a América Latina estaria em risco de possíveis invasões.


Por outro lado, a perspectiva liberal comemora a saída de Maduro, porque poria fim a um dos regimes mais detestáveis que já se teve notícia nas Américas. Há décadas, a população venezuelana é submetida a situações de perseguição e a uma crise inédita da experiência do socialismo bolivariano: pessoas chegaram a comer cachorros e a viver sem papel higiênico. Não obstante, sem entrar no mérito dessas perspectivas hegemônicas, creio que alguns fatores não foram levados em consideração quando pensamos no que aconteceu e, principalmente, quando abandonamos a perspectiva institucionalista.


Brincando de lobo e ovelha, o cerco desarrazoado de Trump e a consequente ação contra Maduro, circundados de espetacularização, podem ser vistos como um ato discursivo com efeitos internos e externos. Enfrentando uma queda significativa de popularidade e com uma inflação que parece estar fora de controle, Trump utilizou a aventura venezuelana como uma oportunidade de sair das cordas e retomar a primazia do debate político.


Quem ouviu atentamente o pronunciamento de Trump percebeu que ele falou muito mais de questões internas do que, propriamente, sobre o que quer dizer “administrar diretamente a Venezuela”. E, após ter conseguido um precário armistício em Gaza, Trump precisava de outra demonstração de poder. Diga-se de passagem, as fotos, as algemas e o circo em torno do transporte de Maduro até Nova York são o típico “esculacho”, muito comum em tempos de Lava Jato aqui no Brasil, mas bastante efetivo junto à opinião pública.


Não obstante, é importante mencionar que os impactos dessa ação no território americano ainda não estão completamente definidos. O discurso de pintar Maduro como líder de um cartel de drogas foi uma forma de contornar o Congresso americano, único caminho pelo qual o governo dos EUA poderia perpetrar uma ação em território estrangeiro dessa magnitude. Assim, não se pode descartar que Trump enfrentará mais problemas com o “sistema” do que já vem enfrentando, sem contar o fato de que Maduro estará diante de um sistema jurídico constitucional — algo que seus opositores, presos, torturados e mortos, jamais tiveram.


Do ponto de vista externo, o recado de Trump para que os demais países da América “peguem a visão”, embora não possa ser visto apenas como mais um caso de TACO, pode significar que tudo será possível, se for necessário. Contudo, não dá para colocar no mesmo balaio países como Colômbia, Chile e Peru junto ao Brasil. Mas do Brasil falarei adiante. Em sentido mais amplo, a ação contra a Venezuela pode significar um veto ao acesso de importantes recursos por parte da China e da Rússia, principais aliados do regime venezuelano. Na dinâmica competitiva entre as nações, não basta apenas possuir recursos: é fundamental impedir que adversários os tenham.


E é nesse aspecto que a literatura sobre transições políticas se torna incontornável. Conforme argumentaram Guillermo O'Donnell e Philippe C. Schmitter, o colapso de regimes autoritários não conduz automaticamente à democracia, mas frequentemente abre zonas cinzentas de incertezas, acordos fugazes e disputas assimétricas. Juan Linz e Alfred Stepan, por sua vez, insistem que a consolidação democrática exige mais do que a remoção do líder autoritário: requer controle civil efetivo sobre os militares, o desmonte de estruturas coercitivas paralelas e a reconstrução da legitimidade estatal. Observando o argumento dos dois últimos, percebe-se que a Venezuela reúne precisamente os elementos que tornam esse processo improvável no curto e médio prazo.


O país conta hoje com cerca de 123 mil militares ativos nas Forças Armadas Nacionais Bolivarianas, além de um vasto sistema de poder capilarizado. A chamada milícia bolivariana, criada por Hugo Chávez e fortalecida por Maduro, é oficialmente estimada pelo regime em até 4,5 milhões de integrantes, ainda que análises independentes sugiram números menores — suficientes, porém, para garantir presença territorial e intimidação política. A isso se somam grupos paramilitares armados, ideologicamente alinhados ao chavismo, com forte atuação em bairros populares e histórico de repressão violenta a opositores. Mais grave ainda: as Forças Armadas não são apenas um ator político, mas um agente econômico central, controlando setores estratégicos como petróleo, mineração, logística portuária e distribuição de alimentos. Além disso, o Exército venezuelano possui o maior número de oficiais-generais do mundo, pulverizando o poder e tornando quase impossível uma capitulação total do regime.


Para os ingênuos que acharam que o regime caiu, sinto muitíssimo. A manutenção da vice-presidente Delcy Rodríguez e a recente declaração do comandante das Forças Armadas, o general Vladimir Padrino, apenas demonstram que Maduro era uma cabeça — a mais frágil — da hidra chavista.


É aqui que Maquiavel retorna com força total. Ao discutir os principados conquistados, seja por armas próprias ou alheias, a simples eliminação do governante não desfaz acordos, hábitos ou desmonta a estrutura de poder que sustentava o regime anterior. A Venezuela se aproxima perigosamente do arquétipo do território “fácil de tomar e difícil de manter”, sobretudo se a captura de Maduro não vier acompanhada de um acordo interno robusto ou de uma presença externa prolongada. Nesse sentido, a analogia com o Vietnã deixa de ser retórica: não no plano ideológico, mas na lógica de um conflito assimétrico, prolongado, sustentado por forças irregulares e pela penetração militar na vida econômica e social. Isso sem contar o pandemonium que se instalaria no continente, ampliando exponencialmente o já alto número de mais de oito milhões de refugiados venezuelanos.


Os cenários que se desenham não são alentadores. Num primeiro, mais otimista, uma transição pactuada, com setores do chavismo negociando garantias em troca de desmobilização, esbarraria na fragmentação interna do regime e na ausência de uma liderança civil unificadora. Num segundo, mais provável, o vácuo de poder daria lugar a uma substituição formal da liderança, mantendo inalterada a correlação de forças. Num terceiro — e talvez o mais perigoso —, a intervenção externa se prolongaria, alimentando sentimentos nacionalistas e empurrando o país para uma guerra de desgaste, podendo transformar a Venezuela numa zona crônica de instabilidade regional.


Retomando o Brasil nesse cenário, foi talvez o maior perdedor do processo. O sequestro de Maduro expõe o alto grau de depauperamento da capacidade brasileira de exercer influência regional e introduz um fator de instabilidade direta em sua fronteira norte. A ordem precária do regime venezuelano, autoritária e disfuncional, ao menos mantinha uma previsibilidade mínima. Sua ruptura abrupta lança a região num mar de incertezas, em que segurança, fluxos migratórios e equilíbrio geopolítico passam a depender de decisões tomadas fora do continente.


Maquiavel, ao fim, gostemos ou não, permanece atual. Estados conquistados pela força exigem mais do que a queda do tirano: exigem tempo, pactos, reconstrução institucional e legitimidade. Sem isso, a tragédia venezuelana corre o risco de trocar apenas o intérprete — e, como você bem observou, se o barítono era ruim, há fortes indícios de que Trump será um tenor ainda pior.



REFERÊNCIAS:


MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Tradução de Lívio Xavier. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2019.


O’DONNELL, Guillermo; SCHMITTER, Philippe. Transitions from authoritarian rule: tentative conclusions about uncertain democracies. Baltimore: Johns Hopkins University Press9, 186.


LINZ, Juan J.; STEPAN, Alfred. Problems of democratic transition and consolidation. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1996.


Referência para a imagem:


RETZSCH, Moritz. Checkmate (Schachmatt). c. 1831–1834. Gravura. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Checkmate_Moritz_Retzsch.jpg. Acesso em: 3 jan. 2026.




4 comentários

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Miguel Filho
há 2 dias

Obrigado!

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Priscilla
há 3 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente texto. Fica uma dica - aprofundar mais o Brasil é seu futuro diante disso. Tem até malucos na internet provavelmente Bolsonaristas pedindo para Trump sequestrar Lula. Enfim, texto muito esclarecedor.

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Miguel Filho
há 2 dias
Respondendo a

Obrigado!

Bem, sobre a situação diplomática, o Brasil parece não conseguir ter a mesma posição influente que já teve, embora uma crise humanitária na Venezuela prejudicasse a todos.

Em relação à recepção interna, parte expressiva da nossa direita é desprovida de uma nacionalismo convencional. É um antipetismo que ultrapassa qualquer limite pragmático.

Em tempo, agradeço pela sugestão!

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Caio
há 5 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Analise precisa e muito bem fundamentada.

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