NO RITMO DO CORAÇÃO (CODA): ENTRE REPRESENTATIVIDADE E CRÍTICAS RUINS



Grande vencedor do Oscar 2022, na categoria melhor filme, CODA (2021), traduzido para No ritmo do coração, produção da Apple Tv e hospedada no Brasil pelo streaming de vídeo da Amazon, trouxe para o público uma serie de questionamentos, principalmente os que envolvem o debate: estética e representatividade.


O filme adaptado de uma produção francesa, A família Bélier (2014), como já comentado por Sarah Ferraz também aqui no soteroprosa, no texto “No ritmo do coração versus A família Bélier”, tem como protagonista uma ouvinte que sonha em cantar ao mesmo tempo em que enfrenta os desafios de viver numa família de surdos.


A narrativa mostra a personagem vivendo mais pela família do que para si, fato esse explorado na crítica de Ferraz. Também são representados alguns desafios da comunidade surda em um mundo de ouvintes, tendo como umas das pautas a vontade da família de ser escutado apela sociedade, não pela língua oralizada, mas pela língua de sinais, pela linguagem corporal e pelos afetos.


Para isso o filme explora alguns recursos estéticos e narrativos. Como já falado por Sarah Ferraz os personagens surdos realmente são interpretados por atores surdos, o que já é um quesito representativo extra fílmico e insere o público no debate: pessoas surdas podem ser o que quiserem, inclusive, atores e atrizes.


Não atoa Troy Kotsur ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante por conseguir interpretar esse pai presente, amoroso, engraçado, surdo, pescador e dono de um barco, o qual está enfrentando problemas financeiros. Para a personagem de Troy a surdez é pauta do debate, porém não aparece como um defeito, mas sim como uma característica que desafia os ouvintes.


A personagem possui a vontade de reunir os pescadores para não ter que pagar ao governo mais do que ganham na pesca e ali existe um desejo de motim. Por não ser ouvinte ele muitas vezes se acanha para se expressar e até sofre preconceito, na maior parte do tempo a filha – a protagonista- atua como sua intérprete.


A partir do momento em que as pessoas dão atenção as suas ideias o personagem passa a ter relevância e a surdez se insere em um segundo plano, não mais como uma barreira de comunicação e sim característica do sujeito.


Destaco alguns ponto de representatividade que ficam a mostra no filme. No caso falado anteriormente, as pessoas dão uma oportunidade de escutar a família de identidade surda. A abertura da sociedade para conhecer os sujeitos para além da surdez dentro do filme mostra esse momento representativo e nos estimula a refletir no quanto perdemos quando temos preconceitos.


Extra filmicamente podemos pensar na importância de atores surdos protagonizando essa trama que não se insere em um circuito alternativo, já que os streamings vem se popularizando cada dia mais. Além disso, o filme obter a maior premiação do Oscar talvez seja sintomático para o momento em que vivemos uma vez que discursos indenitários estão em alta e a pauta anti capacitista vem tendo cada dia mais debates, apesar deles ainda não serem o suficientes.


A estatueta e a produção por uma rede de stream instiga a assistir ao filme ao mesmo tempo em que reconhece a importância da temática dramatizada em tela.


Dentro da história é interessante pensar na construção das percepções dos surdos com a música. Em dois momentos os pais da protagonista sentem a vibração das músicas. Para os ouvintes que não sabem nada de surdez soaria entranho observar pessoas surdas ouvindo músicas, entretanto, o som vibra e cada vibração demostra uma perceptiva musical do sujeito surdo.


No filme isso está presente quando os pais estão ouvindo uma música super alta na caminhonete e quando a filha canta para o pai concomitantemente esse coloca as mãos em sua garganta para sentir a vibração do som.


Porém, nem tudo são flores e, de fato, No ritmo do coração peca quando o assunto é estético, quem assiste o filme de primeira nem acredita que ele ganhou o Oscar, em alguns momentos parece que o expectador está diante de um filme de sessão da tarde, de um A culpa é das estrelas (2014) ou até da série Glee (2009-2015).


Na internet, alguns cinéfilos apelidaram o filme de High school musical, de fato, a trama principal lembra muito a trilogia musical teen que se popularizou nos anos 2000. Aquele romance central café com açúcar em uma narrativa que não reserva grandes surpresas, nenhum lance arriscado, nenhuma exploração de ângulo “diferentão”, nem filtros requintados. O filme é bem insuficiente no quesito estético, mais do mesmo, o básico do básico.


Os próprios efeitos sonoros poderiam ser mais explorados, talvez aumentar os silêncios, pensando que é um filme que expõe as dicotomia som e silêncio, surdo e ouvinte. Entretanto, para não ser injusta destaco uma cena relevante esteticamente, talvez a única.


Na cena em questão a protagonista está cantando e subitamente o som desaparece e nós, os espectadores, observamos o filme pela perspectiva do pai da protagonista, na qual ele capta as emoções através das pessoas ouvintes do entorno que estão reagindo a apresentação da filha, algumas em prantos, outras sorrindo e cantando junto.

Fora isso percebemos cortes rápidos dentro de uma história clichê. A menina padrão da escola que sofre bullying e é apaixonada pelo também menino padrão que sabe cantar, ela está em uma condição financeira menor que a dele, ele faz besteira e eles se reconciliam, um famoso happy ending meloso. Não vejo problema em gostar de tramas fáceis de digerir, mas nos filmes do Oscar sempre esperamos grandes viradas e um trabalho com a imagem, a câmera atuando como o narrador da história e não como um mero observador.


De todos os aspectos no filme me pareceu muito mais interessante a história do pai, os mistérios que corroía aquele homem que acordava as 3 horas da manhã, que tinha um amor pela pesca e queria mudar seu entorno do que a história da adolescente que vivia um embate com sua família.


Como crítica tive a impressão de que a estatueta valeu mais pela representatividade do que pela estética fílmica, entretanto, isso não tira o mérito de CODA que exibe de uma maneira anti capacistista a vivência surda.


Ao fazer esse comentário comparo com produções que concorreram ao Oscar como O discurso do Rei (2010) que tem como tema central a superação da gagueira, pensando nessa como uma qualidade ruim do discurso, ou então em A teoria de tudo (2014) que também soa como uma superação de Stephen Hawking, algo como: ele produziu bastante e mudou o mundo com suas ideias ainda que enfrentasse uma doença crônica.


Não é que eu seja contra as produções que mostrem superação ou milagre, mas somos carentes de filmes e livros que mostrem que as múltiplas deficiências são características, claro que existem tratamentos que podem possibilitar a pessoa com deficiência a ter um corpo o mais próximo do não deficiente.


Porém, as vezes, isso não é a escolha da pessoa com deficiência ou ainda nem sempre é o melhor caminho, ainda que exista uma insistência muitas vezes promovida por médicos e/ou familiares para pessoas deficientes se submeterem a procedimentos dolorosos no intuito de ter chances mínimas de mudança corporal.


Os diferenciais de No ritmo no coração transitam nos aspectos de : uma família comum com problemas financeiros e de relações que, por coincidência, é composta por pessoas surdas. A surdez não é o ponto a ser superado na trama, mas sim o preconceito contra essa família, afinal, eles expõem muitas ideias interessantes também para um coletivo.


O filme representa uma mostra das características diferentes de pessoas surdas e uma percepção da deficiência não como limitante ou de necessária superação, mas sim como identidade. Os sujeitos surdos, dentro e fora da trama se consideram não como deficientes, mas como surdos. A surdez pode ser entendida da mesma forma como eu e você podemos ter olhos castanhos azuis ou verdes ou possuirmos cabelos lisos, ondulados ou crespos e por aí vai.


Imagem de capa: Cena do filme CODA (No ritmo do coração), retirada de: https://www.oliberal.com/image/contentid/policy:1.515438:1648431231/Troy.jpg?f=2x1&$p$f=0fba974&w=1500&$w=f075b93

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