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NOS LIMITES DA COZINHA: a invisibilidade da mulher negra

Atualizado: há 14 horas


 

Odoyá! Odociaba!

 

Bom Dia, Boa Tarde, Boa Noite, Soteros leitores!


Saudações neste dia de homenagens à Rainha do Mar! E, por que não, uma mulher negra.

 

Refletindo de olhos bem abertos, cada vez mais enxergo a mulher negra na base da pirâmide social. De lá, se espera apenas o "não lugar" e os locais de submissão.

 

Inicialmente, enquanto mulher negra, internalizei que era comigo, que eu era "de menos", menos merecedora. Não abriram lugar para mim na família, nos espaços sociais, clubes, aulas, universidade, trabalho. Ou eu forçava a passagem, ou ficava sempre atrás. Inexistente e invisibilizada. Vezes hostilizada.

 

Mas, nessas marés que me levam, e me trouxeram até aqui, navegando com outras mulheres negras, nos últimos anos, e observando conscientemente e contrastando como outras mulheres não-negras são tratadas - e o homem negro em alguns espaços -, percebemos, nós negras, que, mesmo em locais que se propõem a serem comunitários, alternativos a esta sociedade machista e preconceituosa, se não estamos na cozinha ou em serviços subalternos, o primeiro olhar que recebemos, quando somos vistas, é o da dúvida de nosso lugar, se realmente deveríamos estar ali.

 

Majoritariamente os serviços de maior autonomia, maior “prestígio”, reconhecimento, remuneração,  são ocupados por pessoas brancas. Da mulher negra não se espera intelecto superior, receber ordens/comandos, posto que seu lugar é no trabalho braçal, submisso e interrupto. Mesmo a mulher branca, "coitada", é vista como mais frágil e digna de suporte e apoio.

 

Este texto não é contra as lutas das mulheres não-negras, por favor não veja assim. Mas em nossa sociedade:

 

“A mulher negra aguenta tudo.”

 


 Nos lugares por onde transitei, junto com companheiras negras, fomos imediatamente subestimadas. Nós, mulheres de quarenta, cinquenta anos, a quem nem um copo d'água era oferecido. Toda mulher não-negra, no entanto, calorosamente recebida, de forma especial e atenciosa, vistas ocupando serviços “não braçais”, como Social Mídia, Administração, DJ, Organização.

 

Não que estejamos desmerecendo tais mulheres, mas por que é tão gritante esta discrepância de tratamento?

 

Um encontro de ancestralidade e povos originários e quilombolas no sertão , onde toda a equipe de produção é branca e de fora do território. E aí não podemos dissociar a questão de raça, inclusive com os homens. Paulistas, sulistas, o "povo mais desenvolvido" comandando. Será que ninguém da região tem capacidade de ocupar tais espaços? O negro é visto como um objeto cultural.

 

A mulher negra é aceita fora da cozinha para sambar.

 

Se o corpo for esbelto, há a sensualização da “mulata boa de cama”. Mas não para ser “apresentada à sociedade”.

 

Sei que longa foi a construção desta imagem. Nosso Soterence, grande mestre, Professor Miguel Jr. pode explicar muito bem a história. Não irei adentrar por aí.

 

Por hoje queria apenas refletir, e neste barco levá-les comigo, como me reconheço cada vez mais em cada mulher negra escanteada, subjugada, desvalorizada.

 

Na mulher negra que sai de seu trabalho cansada e aguarda pacientemente algum motorista a enxergar para atravessar a rua. Você não vai ver uma mulher loira esperando muito para gentis cavalheiros a conduzirem em segurança ao outro lado.

 

Vejo Milena ser perguntada dentro da casa se estava no lugar certo. Paulo Augusto deve ter achado que ela errou o caminho para cozinha ou área de serviço da produção.

 

Vejo a negra doutora que nunca vai ser vista como tal à primeira vista. Vejo a mulher negra interrompida pela mulher não negra, porque o que a desbotada tem a falar é sempre mais importante. Vejo a mulher negra ser calada e se calar.

 

Vejo as meninas negras esquecidas na faculdade, nos cantos das salas, caladas.  Vejo mulheres negras não serem socorridas ao pegarem uma carga pesada, porque, afinal, elas estão acostumadas.

 

E não são apenas cargas físicas.

 

Vejo mulheres negras brilhantes, reduzidas e confinadas a o não-lugar do nada.

 

Vi Gladys West abandonar este planeta semana passada (17/01/2026) não ser reconhecida neste post por muitos leitores, mesmo o fruto de seu trabalho sendo usando diariamente por todos nós.

 

Eu abri meus olhos para ver a Mulher Negra. E você?

 

 

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