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O ARQUIVO EPSTEIN E O SILÊNCIO DA EXTREMA DIREITA





Este caso tornou-se um dos episódios decisivos para compreender as relações entre poder, privilégio e vulnerabilidade na contemporaneidade. Mais do que um escândalo criminal, ele expôs com riqueza, como a riqueza, influência e prestígio podem produzir extensas zonas de tolerância, adiamento e silêncio. A teologia reconhece aí a fabricação de idolatrias modernas; a filosofia identifica mecanismos de blindagem que operam em favor dos mais fortes.


Epstein não habitava margens obscuras. Circulava entre lideranças políticas, empresários e celebridades. Fotografias, convites, aviões e encontros evidenciavam um capital simbólico robusto, uma respeitabilidade que parecia imune a suspeitas. Essa normalidade social tornou ainda mais violento o contraste quando, em 2019, promotores federais em Manhattan formalizaram acusações centradas no tráfico sexual de menores. Adolescentes recrutadas em situações de fragilidade, algumas com apenas catorze anos, eram levadas a propriedades associadas ao financista. A denúncia falava em repetição, organização, continuidade. Nada ocasional. Um sistema.


Os relatos apontavam que o convite vinha frequentemente envolto em palavras suaves, como “massagens”, um vocabulário que reduzia a brutalidade a algo aparentemente administrável. O poder sabe agir assim: altera o nome das coisas para que a consciência coletiva consiga seguir funcionando. A divulgação de documentos e testemunhos mostrou a amplitude das relações em torno de Epstein. Proximidade não equivale automaticamente a culpa criminal, pois é preciso sustentar essa distinção para manter a integridade da análise. Mas ela revela ambientes nos quais o alarme moral parece soar com menor intensidade. É nesse contexto que nomes como Donald Trump aparecem no debate público, inseridos em redes de convivência que hoje são revisitadas com desconforto. O problema ultrapassa indivíduos específicos e alcança algo mais profundo: a coexistência entre discursos veementes de defesa da moralidade e a dificuldade de agir quando a suspeita toca territórios de prestígio. Adolescentes precisam insistir para serem ouvidas, pois homens poderosos dispõem de biografias, recursos e alianças capazes de amortecer impactos.


A teologia lembra que nenhuma declaração de princípios substitui a prática da justiça. A filosofia insiste que legitimidade depende da aplicação consistente de critérios, não de afinidades. Quando esses parâmetros falham, cresce a percepção de que a lei pesa de maneira diferente conforme a posição social de quem a enfrenta. O caso transforma-se, assim, em exame coletivo. Ele obriga a perguntar como funcionam nossos fascínios, nossas tolerâncias e nossas escolhas de proximidade. Talvez o aspecto mais perturbador não seja descobrir que crimes ocorreram. Talvez seja perceber o quanto foi possível continuar vivendo como se eles não estivessem ali.

A imagem pública do prestígio passa a carregar outra leitura: ela revela uma cultura que frequentemente prefere a conveniência à ruptura, o benefício da dúvida à escuta das vítimas. Diante disso, relacionar o caso Epstein à extrema direita contemporânea em escala global não é um exagero retórico; é encarar um padrão que se repete diante dos olhos. Movimentos que constroem sua legitimidade prometendo defender a família, a moral e a infância demonstram vigor quase ilimitado para combater inimigos externos, mas revelam prudência súbita quando a suspeita atravessa os próprios territórios de prestígio. O discurso se apresenta como absoluto cai por terra. A pureza exigida dos outros converte-se em cautela quando toca alianças convenientes.


A presença de nomes como Donald Trump no debate público carrega precisamente essa carga simbólica. Registros de sociabilidade, fotografias, encontros e elogios anteriores a denúncias devastadoras não podem ser simplesmente apagados. Eles introduzem uma fratura na narrativa da surpresa. A reação recorrente de minimizar, relativizar, acusar a pergunta de má-fé transforma a moral em instrumento de gestão política. Aquilo que deveria funcionar como limite passa a operar como estratégia.


O problema, entretanto, ultrapassa indivíduos. Ele alcança uma cultura política internacional em que a promessa de regeneração ética convive com mecanismos sofisticados de proteção do prestígio. Em diferentes países, quando elites associadas a esses campos ideológicos são tocadas por escândalos, a resposta tende a seguir um roteiro conhecido: fala-se em perseguição, invocam-se complôs, desloca-se o foco para adversários. A energia que antes era apresentada como zelo moral converte-se em defesa corporativa.


É aqui que o mal-estar se adensa, porque a sociedade começa a perceber que certas bandeiras parecem funcionar melhor como armas contra inimigos do que como compromissos aplicáveis a si mesmos. Combate-se com fúria aquilo que ameaça a identidade do grupo, mas hesita-se quando a coerência exigiria rupturas dolorosas dentro dele. A régua continua existindo, apenas muda de tamanho conforme a posição de quem está sob julgamento.


A linguagem profética não permitiria suavizar isso. Ai da política que pronuncia a palavra “família” enquanto administra silêncios. Ai da retórica que proclama a proteção da infância, mas vacila quando a exigência de verdade alcança corredores influentes. A incredulidade cresce porque o contraste é violento. Valores anunciados como sagrados tornam-se negociáveis. Princípios que mobilizam multidões tornam-se flexíveis diante da possibilidade de perda de acesso. A moral que era proclamada como fundamento revela-se, muitas vezes, ferramenta.


O caso Epstein, assim, funciona como espelho global. Ele não acusa apenas pessoas; ele interroga culturas políticas inteiras. Ele pergunta por que é tão fácil erguer cruzadas morais contra vulneráveis e tão difícil sustentar o mesmo rigor quando a suspeita ronda aliados poderosos. O constrangimento que nasce daí não é exagero: é lucidez histórica. É a percepção de que o verdadeiro teste dos valores não acontece quando aponta-se o dedo para longe, mas quando se é obrigado a olhar para perto. Ao olhar para o "espelho" do caso Epstein, espera-se ver o "monstro" distante, mas descobre-se o reflexo de suas próprias estruturas corruptas e aliados próximos. A "lucidez histórica" mencionada é o choque de encarar a própria vaidade e hipocrisia. O que a extrema direita sempre apontou que os seus "inimigos" eram “comedores” de criancinhas (no sentido literal ou sexual), agora está revelado que são eles, os verdadeiros "comedores" de criancinhas.


Dito de outro modo: A sociedade, ao olhar para o “espelho” do caso Epstein, espera ver o monstro convenientemente alojado em território inimigo, alguém que confirme a fantasia tranquilizadora de que a perversão sempre mora do lado de lá. Mas o reflexo devolve outra cena: rostos familiares, alianças respeitáveis, sobrenomes que frequentam jantares, púlpitos e palanques. A lucidez histórica explode como gargalhada cruel. Aqueles que fizeram carreira distribuindo certificados de pureza, que incendiaram multidões com a imagem de adversários apresentados como predadores da infância, descobrem que o espelho tem memória e não aceita edição. Eis a extrema direita, sendo predadora. A caça moral retorna como autorretrato. O dedo em riste treme ao perceber que a anatomia da acusação coincide perigosamente com a geografia da própria vizinhança. E então a tragédia assume forma quase cômica: quem mais gritava contra monstros percebe que talvez estivesse, desde o início, organizando o camarim deles. O espelho não absolve; ele devolve. E o que devolve é a ruína da pose e o silêncio dos monstros.



IMAGEM: Esquerda Diário

2 comentários

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Mara
há 20 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que texto lúcido, que dá suporte à compreensão mais aprofundada sobre o caso. E, além disso, aponta os verdadeiros "comedores de criancinhas".

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Everton Nery
há 17 horas
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Grato pelo comentário

Precisamos não silenciar diante de casos como esse.

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