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O CAMPARI REDPILL ATACA NOVAMENTE: biologia, psicologia e sociologia freestyle





Faz algum tempo que eu escrevi um texto dividido em 2 partes sobre o fenômeno da redpill. Curioso que foram publicadas logo antes do coach redpill Thiago Schutz ameaçar de morte a atriz Lívia Lagatto, após uma sátira que ela fez sobre esse movimento masculinista paranoide (na ocasião, ela satirizou não somente o Schutz, mas também o Miguel Moreira, dono do canal Atitude Alpha e apresentador do Redcast (podcast dedicado à propagação das teorias conspiratórias desse grupo), ambos disponibilizados no YouTube.


Você deve estar se perguntando: “Jorge, esse episódio ocorreu já tem semanas. Por que você está revisitando isso?”. Explico-me: eu venho acompanhando já a algum tempo todo esse movimento da redpill, justamente porque essas comunidades estão servindo, como mencionei no texto anterior meu sobre o tema para esse mesmo site, de porta de entrada para a radicalização política online e o fortalecimento das redes da extrema-direita/direita alternativa no Brasil, isso incluindo supremacistas, neonazistas, e toda a sorte de extremista político com potencial grande de promover ataques contra outros membros e grupos sociais, além de si próprio. Essas redes e grupos da redpill, servem como ambiente de recrutamento para esses grupos mencionados, justamente por reunirem indivíduos propensos a aceitarem as teorias conspiratórias e a agirem politicamente, concretamente, orientados por elas. No exterior, esse problema é levado tão a sério que países como Alemanha, Canadá e o próprio Estados Unidos consideram essa questão como algo de saúde pública e segurança nacional, o que dá um status distinto nas respostas aos ataques e no enfrentamento preventivo. O Brasil, nesse aspecto, encontra-se atrasado.


Outro motivo pelo qual quis relembrar esse episódio envolvendo a ameaça do Thiago Schutz à Lívia Lagatto, é também para enfatizar a fragilidade desse discurso e de todo esse esquema “ideológico” da redpill, que se apoia numa fachada de autodesenvolvimento masculino mas que ao ser exposto à argumentações contrárias, questionamentos e sátiras, têm uma resposta anacrônica com o discurso pregado, o que revela a hipocrisia de todo esse grupo. Além disso, chamo a atenção novamente desse episódio, porque a enorme repercussão dele não impediu que o coach calvo da Campari continuasse a propagar esse conteúdo absolutamente desconexo da realidade factual, da ciência biológica, psicológica e social. Pelo contrário: o episódio fez com que seu alcance nas redes sociais todas aumentasse, amplificando o discurso paranoide para fora do seu nicho, capturando novos indivíduos e grupos para seu ecossistema. Exemplo disso, foi uma outra participação recente em mais um desses podcasts genéricos do YouTube, que na obrigação de sobreviverem financeiramente e simbolicamente acabam abrindo espaço para esse tipo de pessoa e ressoando ideias sem qualquer comprovação e muito menos bom senso.


Nesse episódio, que foi alvo de react[1] do Luide Matos, do canal Luideverso, Schutz discute indícios de traição de uma mulher dentro de um relacionamento. Tais indícios congregam uma constelação de psicologia, biologia e sociologia em caráter freestyle, isto é, sem comprovação factual ou embasamento científico/teórico (e obviamente isso não é uma preocupação dele, muito menos de grande parte da audiência). Dentre vários indícios paranoides, um que me chamou a atenção foi o fato de que, nas palavras dele, “se a mulher demora muito no banheiro, ela pode estar mandando mensagem para outro. {...}. Você cronometra o tempo que ela fica lá, e se ela começa a demorar mais que o habitual, pode ter certeza que o indício dela estar mandando mensagem pra outra pessoa, buscando outra rola, é certo.”


O questionamento é um só: de onde ele tirou isso? Em tempos de relativização da ciência e do critério de verdade, é possível você elaborar ideias desconexas da realidade material e factual sem necessidade de comprovar. Isso ocorre em várias áreas. Outra questão que fica é: qual o impacto desse discurso para um homem inseguro, que tenha enfrentado uma situação anterior de traição, dentro de um relacionamento novo? Qual o impacto para um homem que não tem confiança em si e nem na parceira, que não tem um self definido do ponto de vista da sua identidade e personalidade? Qual o impacto para um homem emocionalmente instável e reativo, que “age no impulso” primeiro para “perguntar depois”? São questões importantes que dão uma dimensão para o impacto desses grupos e dessas ideias em relacionamentos e comportamentos, especialmente o masculino. São incontáveis os relatos de amores que se acabaram por conta dessas ideias, relacionamentos saudáveis que progressivamente foram para o ralo por conta do consumo desse discurso.


A discussão sobre a redpill, além de acender e estimular o debate sobre as questões comportamentais e sexuais, os papéis sociais dos sexos, também tem levantado discussões sobre o uso livre e descompromissado das ideias e teorias das áreas do saber, notadamente construções típicas de ideias conspiratórias. E essas ideias viram escape das frustrações, dentro do estímulo a um ato de vingança, por parte dos membros dessas comunidades já radicalizados e vinculados a uma cultura (ou subcultura) pior do que a redpill. E para se apresentarem como uma verdade, fruto da repetição ad infinitum do seu caráter falso, usam de questões concretas, elementos existentes desses saberes, congregados com deduções irreais e dedicadas a culpabilizar unilateralmente certos grupos sociais (em especial, todo o público do sexo feminino) pela “decadência da sociedade”. Uma mostra de que a distorção do conhecimento, hoje, virou um palanque de propagação do que há de pior na nossa sociedade. E com as redes sociais isso se intensificou muito.


Para quem está dentro desses grupos, não importa a relativização dos saberes, a biologia, psicologia ou sociologia em seu caráter freestyle, despreocupado; importa apenas ter as suas crenças e percepções disruptivas reforçadas por homens ignorantes e vigaristas como Thiago Schutz. Isso não pode cair no esquecimento.


E isso porque muita gente não faz ideia do que circula dentro desses grupos e fóruns da redpill nas redes. Coisas para uma próxima coluna, quem sabe.


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[1]CALVO DO CAMPARI AFIRMA QUE MULHER QUE CAGA PODE ESTAR TRAINDO” (Cortes do Luideverso). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=oSnvE64cz-8>

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4 Comments

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Homem atento
Homem atento
Jul 03, 2023
Rated 1 out of 5 stars.

Faça filhos com modernetes, otário. Boa sorte.

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carlosobsbahia
carlosobsbahia
Apr 09, 2023

Ao ler o texto fiquei pensando como regulamentar o que ele diz? É um aconselhamento que não vejo como impedir,pois entra num campo que atingiria outras recomendações importantes. E ai como definir o que importa ou não? Complicado!

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Belo texto! Acredito que já esteja passando da hora de se estabelecer a responsabilidade das redes sociais sobre os conteúdos que elas disponibilizam. Não vejo uma formais concreta de se atingir essa escalada desenfreada e ousada do discurso de ódio sem esse enfrentamento.

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Priscilla Sobral
Priscilla Sobral
Apr 08, 2023
Rated 5 out of 5 stars.

Gente eu tô chocada! Isso é muito grava e com certeza questão de segurança pública é acabar legitimando crimes horrendos e até estimulando o feminicídio. Nosso país precisa urgentemente se atualizar nas leis e providênciar punição e eliminação desses conteúdos. Essa conversa de que democracia vale tudo só dá nisso. Tem muita gente psicopata e narcisista que se aproveitam de mentes e corações fracos para criar um exército de loucos e agressores. Isso me dá medo, o ponto em que nosso Brasil está chegando é quase uma nova alemanha nazista. É absurdo como nosso país ignora e finge que não tá acontecendo, parece que vamos passar por tempos sombrios para entender a importância de não se deixar esses pensamentos s…

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