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O CAPACITISMO CAMUFLADO NA SOCIEDADE CAPITALISTA


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*Giselly Souza de Oliveira



Influenciados, ou seduzidos, pelo imaginário capitalista, caminhamos em direção a grupos que prometem pertencimento, ainda que nos custem a própria humanidade. A competição se torna respiração. Exigimo-nos excelência constante, porque o capital, esse deus moderno, só reconhece quem possui, acumula, vence. E, para existir nesse altar, precisamos provar que somos melhores que alguém. A lógica é simples e perversa: para que o “melhor” brilhe, alguém precisa ser apagado. E, assim, o desrespeito deixa de ser exceção e vira método.


O capitalismo, em sua engenharia silenciosa, não apenas oprime: fabrica opressores. Institucionaliza a indiferença. Justifica desigualdades com o discurso da “livre concorrência”, como se liberdade fosse privilégio de poucos e destino de muitos. O Estado aparece apenas para proteger propriedades, nunca pessoas. Produção, lucro, troca, os verbos fundamentais dessa liturgia, moldam subjetividades, afetos, relações e até a forma como enxergamos o outro.


Para se destacar, muitos escolhem pisar. O alvo é conhecido: pobres, negros, gordos, baixos, analfabetos, nordestinos, e, sobretudo, pessoas com deficiência. A Lei nº 13.146/2015 até reconhece, juridicamente, quem possui impedimentos de longo prazo que, diante das barreiras sociais, impedem participação plena. Mas a letra da lei, sozinha, não desfaz o abismo histórico entre quem pode e quem precisa pedir permissão para existir.


Em uma sociedade já nascida desigual, qualquer impedimento vira sentença. Fala-se muito em inclusão, mas quase sempre como sinônimo de igualdade formal, essa que convida para a festa, mas não abre a porta. Promover equidade é outra coisa: é deslocar estruturas, rever atitudes, enfrentar pilares culturais que insistem em transformar diferenças em hierarquias.


O capacitismo, essa forma específica de violência, não é apenas crime: é epistemologia social. É o olhar que antecede o encontro. É a suposição de incapacidade, a redução do sujeito à deficiência, a negação de sua singularidade. E, paradoxalmente, é tão cotidiano que ainda se diz pouco sobre ele. No mundo do trabalho, então, torna-se ultrajante: quando a pessoa com deficiência conquista condições equitativas, a sociedade reage como se tivesse cometido um pecado contra a meritocracia.


O termo capacitismo só ganhou circulação mais ampla a partir de 2021, mas sua prática é antiga. Tão antiga que se tornou invisível. De tão naturalizado, camufla-se em elogios, piedades, caridades e “boa intenção”. O heroísmo é uma de suas máscaras: transformar atividades comuns em façanhas épicas. Como se a autonomia de uma pessoa cega fosse milagre, e não direito, potencializado por tecnologias assistivas como NVDA, VoiceOver ou os óculos Orcam.


No século XXI, a ignorância já não é desculpa. Não somos, e jamais seremos iguais. E isso é celebração, não problema. Gilberto Gil nos recorda: “Ser diferente é normal”. Por isso, identificar atitudes capacitistas é urgente: infantilizar, desacreditar, impedir autonomia, supervalorizar o cotidiano; tudo isso fere, humilha, desumaniza. A violência simbólica, quando repetida, torna-se política pública não declarada.


Quando oportunidades acessíveis não chegam, a vulnerabilidade é produzida — não encontrada. Não precisamos aprender a “tolerar” pessoas com deficiência, pois ninguém precisa ser tolerado para existir. Precisamos, sim, reaprender a respeitar; palavra que significa olhar outra vez. Quando a deficiência passa a ser mais visível que a pessoa, não é ela que está exagerando: somos nós que estamos falhando. Ser anticapacitista não é postura opcional; é responsabilidade ética.


Às pessoas sem deficiência cabe mais que empatia: cabe movimento. Justiça social não se faz com hashtags, mas com reconfiguração de estruturas, escutas demoradas, políticas de equidade. Vivemos em uma sociedade que exige, exaustivamente, a comprovação de competência, como se a dignidade humana pudesse ser avaliada por desempenho. Não há emancipação quando um precisa ser humilhado para que o outro seja reconhecido.


O capitalismo, competitivo, hierárquico e narcisista, inventou um sistema de cotação das existências. Quem cabe no padrão vale mais. Quem provoca desconforto vale menos. E, encantados pelo brilho do acúmulo, nos tornamos servos voluntários de desejos fabricados. Sem perceber, vendemos o humano para comprar o supérfluo. E, nesse processo, o capacitismo deixa de ser desvio e torna-se sintoma.


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*Especialista em

Atendimento Educacional Especializado, Educação Especial e Inclusiva, Alfabetização, Letramento e

Educação Especial: Perspectivas da Inclusão na Diversidade Cultural (UFMS); diretora do Colégio

Estadual Ana Nery- Classes Hospitalares e Domiciliares (SEC/BA); mestranda do Programa de Pós-Graduação Gestão e Tecnologias Aplicadas à Educação

(GESTEC) - Universidade do Estado da Bahia; licenciada em Letras (UPE)



IMAGEM: Iigual

16 comentários

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há um dia
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A sociedade não deve colocar rótulos nas pessoas com deficiência.

Uma pessoa PCD é capaz, sim!

Só precisa de nosso respeito e atenção.

Parabéns pelo excelente texto.

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Everton
há 2 dias
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Há textos que não apenas dizem… eles tocam.E o de Giselly toca como quem encosta a mão na ferida,não para doer, mas para lembrar que ainda pulsa humanidade ali.

Ela revela, com delicadeza firme, que o capitalismo não só exige demais de nós…ele nos afasta uns dos outros.Cria padrões, inventa hierarquias, treina o olhar para medir vidas,e nesse cálculo frio, pessoas com deficiência viram alvo, viram ausência, viram silêncio.

Mas Giselly escreve como quem costura brechas de luz:lembra que equidade não é favor, é justiça;que diferença não é falha, é forma de existir;que ser humano nunca deveria depender de provar valor.

Seu texto é denúncia, sim, mas é também abraço.

Ele nos devolve a capacidade de olhar de novo, de…

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Giselly
há um dia
Respondendo a

Obrigada pelo incentivo, pelos elogios! Por cada vez que me deixa zonza de tanto pensar e principalmente por nossas reflexões sobre o mundo.

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Convidado:
há 3 dias
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Parabéns pelo texto! Você abordou um tema importante e complexo de forma clara e crítica. A análise do capacitismo como uma forma de opressão camuflada no capitalismo é muito pertinente e necessária. Você destacou bem como a sociedade valoriza a produtividade e exclui quem não se encaixa, perpetuando a desigualdade. Seu texto é um convite à reflexão e ao questionamento dessas estruturas. Muito bem feito!

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Antonieta
há 3 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Ótimo texto!

Apresentou estudo relevante sobre o tema.

Parabéns!

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Patrícia Gomes
há 3 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Material excelente! Leitura esclarecedora e necessária!

Parabéns!

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