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O DIA DO SEXO: erotismo e bem-estar


“Se existe Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, por que não um Dia do Sexo?” A partir deste slogan, a marca de preservativos Olla, desenvolveu uma ação publicitária, em 6/9/2008. O extinto Orkut foi palco de amplas discussões e internautas realizaram um abaixo-assinado, a ser levado para a Câmara dos Deputados, com o objetivo de tornar a data um feriado. Infelizmente, a iniciativa não vingou. Certo é que se trata de uma data sugestiva, resultado da criatividade brasileira: 6/9 se refere a 69, posição sexual deliciosa para quem deseja degustar o prazer... e ser degustado! Sentir o cheiro íntimo da outra pessoa, beijar e lamber a sua porção côncava e/ou convexa e trocar fluidos são oportunidades singulares de conexão. Tal raciocínio nos leva a encontrar neste dia tópicos mais importantes, se comparados a simples divulgação de uma marca: aquisição de orgasmos intensos, diferenças sexuais e a prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Afinal, tesão com responsabilidade é ainda mais gostoso!

           

A geração Z, contudo, caminha na contramão das trocas sexuais. A ascensão das plataformas digitais e o crescente uso dos meios virtuais para acessar conteúdo adulto, sobretudo, por adolescentes que ficaram confinados na pandemia do coronavírus, são fatores que redesenharam o primeiro contato com o sexo. Se antes, o encontro presencial dos corpos era a principal via para o erotismo, na atualidade, esse contato encontra mediação tanto pelo sexo online quanto pela pornografia. O erotismo pele com pele convive com a autoerotização, em um processo explícito a partir do que se vê e ouve pelas telas. Acostumar-se com a ausência do toque, do cheiro, do gosto e até mesmo do mínimo compromisso afetivo, podem tornar os caminhos da sintonia escassos.


Outra questão a ser considerada é o desenvolvimento emocional mais lento dos Centennials. Nas redes, encontramos jovens dispostos a liderar revoluções, contudo, em profunda dificuldade de arrumar o próprio quarto ou dar sequência aos estudos, decorrente da superproteção familiar. Adolescentes vem sendo educados para ser covardes, inclusive, no exercício das próprias funções sexuais. Isso pressupõe o crescimento de transtornos mentais, haja vista muitos pais, no anseio de proteger os filhos, contribuir para o aumento de comportamentos recalcados, nos quais os desejos sexuais não encontram as trocas corpóreas, trazendo a libido para a satisfação através de recursos que em nenhuma medida substituem as relações sexuais. Uma dinâmica “civilizacional” com tais características é semelhante a Moral Sexual ‘Civilizada’ e Doença Nervosa Moderna, conforme descrita por Sigmund Freud (1856-1939), em 1913. Se àquela época, havia um sistema de repressão sexual disposto a não renunciar ao casamento e a monogamia como únicos espaços para os intercursos sexuais, a realidade atual atrai o sexo para a virtualidade, como se esta fosse a principal forma de satisfação. No entanto, o desejo jamais se esgota, indo para o sintoma: ansiedade, obsessões e dores sem qualquer explicação médica são alguns exemplos daquilo que pode ocorrer em uma medida ainda maior, caso o excesso de telas se torne ainda mais excessivo.

           

A construção da sexualidade requer lidar com frustrações próprias do ato sexual. No Seminário 18: de um discurso que não fosse semblante, Jacques Lacan (1901-1981) afirmou ‘não haver relação sexual’. Longe de uma declaração sobre a inexistência do aspecto físico da ação, Lacan descreveu, na verdade, a inexistência de qualquer aspecto simétrico entre os sujeitos presentes na cena sexual. Isso porque esse outro com quem fazemos sexo é enigmático e o encontro sexual jamais será completo. Seres da falta, buscamos em todo o corpo do outro tal completude e sugamos os seus fluidos, retomando a infância. Tal intensidade conduz a exploração de todas as zonas erógenas – lábios, nuca, pescoço, mamilos, costas, genitais, ânus –, porquanto Freud em seu Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade (1905) comprovou que todo o corpo é erógeno. Esse corpo dessa outra pessoa, misteriosa, sensual e avassaladora, pelo qual desejamos navegar infinitamente e pelo qual sempre existem “...mares nunca dantes navegados”, conforme Camões, em Os Lusíadas (1572). Ora, como isso seria possível a partir do sexo virtual ou da pornografia? Longe de refutar essas alternativas como formas de gozo parcial, onde está a sua potência em satisfazer completamente alguém, se nem mesmo isso é possível em um encontro físico?

           

Torna-se necessário fundar uma nova ética sexual, iniciando pela implementação do componente curricular obrigatório Letramento de Gênero, Raça, Etnia e Sexualidade, no Ensino Médio, entrelaçando Linguagens e Suas Tecnologias com Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Quão vergonhosa é para o País que ocupa o 5º lugar em crescimento do PIB, a ação falso-moralista de segmentos elitistas da sociedade em reduzir o sexo a aspectos biológicos, quando as experiências sexuais estão entre as mais importantes atividades humanas! Sexo é um conjunto de linguagens e ações com impactos históricos e socioculturais marcantes. O 6/9, portanto, convoca a pensar o quanto nossos corpos e mentes precisam deixar de ser colônias do patriarcado, ávido em drenar nossas energias sexuais para extrair renda plataformizada.


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Referência de Imagem:

Armando Januário dos Santos é Psicólogo (CRP-03/20912), Mestre em Psicologia e Especialista em Gênero e Sexualidade. Instagram: @januario.psicologo | WhatsApp: (71) 98108-4943

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Januário
há 2 dias
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