O ENIGMA DE CAIM E ABEL: Uma Leitura Teológico-Filosófica
- Everton Nery

- 28 de jan.
- 3 min de leitura

A narrativa de Caim e Abel sempre inquietou não apenas exegetas, mas também filósofos da existência. O desconforto que ela provoca não é uma falha, mas uma brecha, uma fissura hermenêutica por onde escapa algo que a leitura literal não consegue conter. A pergunta que incomoda (“De onde veio Nod? Quem habitava Nod?”) nasce justamente daquilo que o texto não diz. E o silêncio, aqui, é tão revelador quanto as palavras.
Muitos estudiosos (judeus, cristãos e seculares) já apontaram que Gênesis é uma narrativa teológica, não um censo populacional da pré-história. Ele seleciona uma linhagem, não descreve todas as linhagens possíveis. Há uma sugestão profunda aqui:Adão e Eva são arquétipos, não zoologia. Eles representam um humano, não todos os humanos. Agostinho já dizia que Adão é toda a humanidade concentrada, uma metáfora do “ser-para-a-queda”. Schleiermacher e Bultmann reforçam: Gênesis é mito fundador, isto é, “verdade simbólica em forma narrativa”.
É assim que a Bíblia pode falar da “terra de Nod”, de povos, de cidades, de temores de vingança, sem precisar carregar a pretensão de que só existiam quatro pessoas na Terra. Nod significa, em hebraico, terra do desassossego, do exílio, da errância. É menos um CEP e mais um estado existencial. É o lugar onde se vai quando se perde o lugar. É a geografia do remorso. Uma cidade, então, simboliza: a presença de outros humanos, a permanência do mal, a continuidade do mundo para além do clã de Adão.
Em termos filosóficos: Caim encontra em Nod o que já estava dentro de si; um mundo estranho, um outro que lhe devolve o próprio espelho. Se Deus dá um sinal para que "ninguém o mate", é porque o autor do texto já supõe outros grupos humanos. O texto não está interessado em explicar de onde vieram; simplesmente admite sua existência porque ela era óbvia para o leitor antigo.
Aqui surge uma chave hermenêutica importante: Gênesis nunca disse que só existiam Adão, Eva e seus filhos. Quem disse fomos nós. A Bíblia não opera com essa literalidade absoluta; ela assume o mundo como ele era: populoso, diverso, complexo. O “sinal” é simbólico também: é o gesto divino que impede que a violência inicial (o fratricídio) se torne espiral infinita. Trata-se da primeira suspensão ética da vingança, uma espécie de proto-lei moral que antecede o Sinai.
Entendemos e afirmamos que o problema de Caim revela o limite da leitura literal. As perguntas “quem construiu Nod?”, “quem Caim temia?”, “de onde veio sua esposa?” desmontam a leitura fundamentalista porque o texto não se sustenta como relato histórico rígido. Isso não diminui o texto. Ao contrário; amplia-o.
A narrativa de Caim e Abel não quer explicar a origem biológica da humanidade, mas a origem existencial da violência. Abel é o pastor do cuidado. Caim é o agricultor que deseja o controle. Entre eles, nasce o primeiro sangue derramado. E com o sangue, nasce a culpa; com a culpa, o exílio; com o exílio, a cidade. A cidade, então, começa não com a glória, mas com um assassino. Não com o triunfo, mas com a queda. A cidade humana é fundada na ambiguidade do coração humano.
Talvez a Bíblia realmente conte apenas uma linhagem, e não é um absurdo teológico dizer: A Bíblia não narra toda a história da humanidade. Ela narra a história de uma aliança. Ela acompanha uma família, um clã, um caminho, porque é nesse caminho que se dará a revelação.
Assim como a Ilíada não narra todos os povos da Grécia, mas apenas aqueles relevantes ao mito de Aquiles, Gênesis foca num recorte simbólico da humanidade. A pergunta final é também filosófica: “Talvez a Bíblia não foi escrita para todos?” Há uma ambiguidade profunda aí. Sim, ela é escrita a partir de um povo e para um povo. Mas aquilo que ela diz, sobre culpa, transgressão, desejo de reconhecimento, medo, expulsão, retorno, pertence a toda a condição humana. Talvez a Bíblia não seja “para todos” no sentido histórico, mas é sobre todos no sentido existencial. Ela não descreve a origem da espécie; descreve a origem da pergunta: o que fazemos com o mal que há entre nós? Caim é, portanto, mais do que o primeiro assassino. É o primeiro humano que se vê expulso de si mesmo. É a história de todos nós quando atravessamos nossas próprias sombras.
IMAGEM: JG.org

Comentários