O EVENTO: Um Relato de Fé
- Armando Januário

- 8 de dez. de 2025
- 7 min de leitura

Durante meses, refleti sobre a publicação desse texto. Intacto, ele prosseguiu em minha mente, tal qual uma flor sempre-viva. Por diversas vezes, a hesitação vinha seguida da pergunta sobre qual seria o objetivo da sua escrita. Mediante profundas reflexões, a questão encontrou uma resposta plausível na transcendência do ego.
Descrever a experiência, para além de uma história pessoal, oferece, sem pedir coisa alguma – tampouco credibilidade, apesar da acessibilidade de nomes e locais aqui referidos – a oportunidade de silenciar as verdades absolutas. Em um tempo tosco, amor, humildade e coragem são necessárias para descrever a epifania. Ao final, sentimos Deus em nosso íntimo, na chama da vela que esclarece a ignorância: vivendo o Eu Sou, experienciamos a manifestação perfeita d’A Grande Consciência Cósmica. Nessa perspectiva, após o introspectivo inverno, a primavera abre os portais necessários para o renascimento e a materialização desse escrito na realidade sob a qual, ainda polarizados, nos encontramos sobrevivendo em mortes consecutivas. “Se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam” (Mateus 11:15, Nova Tradução na Linguagem de Hoje – NTLH).
A 11 de fevereiro de 2025, pela manhã, enquanto realizava atividade física em uma academia, perdi o equilíbrio sobre a perna direita e caí. O impacto levou a dor aguda. Fui prontamente socorrido e passada a primeira hora, tudo parecia bem. Permanecendo em casa, descansei três dias, contudo, devido ao inchaço e as dores no pé, resolvi ir ao Hospital Municipal de Simões Filho. Como de costume, fui respeitosamente atendido e encaminhado para realizar raio-x. Ao adentrar a sala, o radiologista me cumprimentou, e, de modo objetivo, após ver o trauma, informou sobre a possibilidade de fratura. Fiquei bastante preocupado, porém, ali surgiu algo que eu até então não sentira: a despeito do problema, uma certeza inexplicável de resolução satisfatória.
O exame encontrou uma fratura no terço distal da fíbula, o osso fino da perna, também denominado perônio. No primeiro momento, o ortopedista informou a possibilidade de cirurgia, contudo, solicitou novo raio-x. Feito o novo exame, foi prescrito uso de gesso ou bota ortopédica por oito semanas. Nesse intervalo de tempo, eu deveria permanecer com a perna imóvel. Logo depois, deveria realizar mais um raio-x e retornar. Procedi como recomendado e ao retornar, fui atendido por outro médico. Ele disse que no meu prontuário, havia a prescrição de cirurgia e a informação da minha recusa em realizar o procedimento. Informei ao médico não se tratar de uma rejeição irresponsável, antes, eu havia deixado clara ao médico anterior a impossibilidade de me submeter a uma operação, dadas as condições atuais da minha experiência humana. Pai – além do modelo tradicional de paternidade – de duas filhas caninas e idosinhas, sem parentes dispostos a cuidar dos procedimentos típicos nessas situações e morando sozinho, estou como que proibido de adoecer.
Infelizmente, a minha genitora e meus irmãos pertencem a uma crença religiosa extremista: são Testemunhas de Jeová. Como é tradição nesse grupo segregacionista, ao informar a saída de uma religião que acoberta pedófilos e predadores sexuais, fui automaticamente excluído daquilo que me foi apresentado como família nesta encarnação. Na verdade, tal exclusão sempre ocorreu, mesmo quando eu integrei essa religião. Nasci em um lar sem escolha religiosa; minha genitora dizia sempre que ‘quem não servisse a Jeová, não serviria pra morar com ela’. Por diversas vezes, fui alvo das suas ofensas e espancamentos, em noites desesperadoras, nas quais eu era submetido a surras e forçado a dormir sem me alimentar. O motivo? Eu adormecia durante os cultos. Dela e do meu irmão, eu ouvi humilhações públicas, pseudobrincadeiras narcisistas, nas quais o objetivo era minha total subalternização. Os espancamentos na infância deram lugar às agressões psicológicas na adolescência e até os 25 anos.
Quando saí de casa, a única saudade era do meu pai, o grande Moisés. Ele desconhecia os espancamentos infligidos pela minha genitora, porquanto trabalhava como vigilante noturno, ao mesmo tempo em que eu era silenciado pela minha genitora: “se você falar alguma coisa, a próxima vai ser pior!” Quando ele tomou conhecimento disso, eu já era adulto. A princípio, ele não acreditou, mas, como na ocasião, eu confrontei a referida, a reação dele foi o assombro: “não é possível um negócio desses!” Hoje, após anos de terapia e ajudando pessoas que enfrentam situações semelhantes, encontrei a paz no distanciamento total daquela que me trouxe ao mundo. Com ela, aprendi como perdoar está distante de permitir. Sigo a vida com tranquilidade, na certeza do amor enquanto única resposta para as iniquidades cotidianas. De fato, a nossa espécie prossegue caminhando tão baixo, a ponto de chegar a última oportunidade de compreender e praticar o sentido universal do amor: na interação com os seres tidos como inferiores, todavia, sempre amorosos e gentis. Mesmo sem a linguística e um cérebro tido como poderoso, os animais ensinam amor, respeito, fidelidade e compaixão, em abundância.
Ante as informações prestadas ao médico, o tratamento seguiu em modo conservador, com uso de bota ortopédica. Aqui, expresso a minha gratidão aos queridos amigos que contribuíram – financeira e emocionalmente – para a minha reabilitação. Davi Ribeiro, Vania Rocha, Dani Nunes, Joelias Coelho, Elen de Souza e Jorge Ferreira, vocês foram fundamentais nesse processo. Por outro lado, Deus enviou uma ajuda ainda mais surpreendente!
Conheço Joelias desde a adolescência. Cursamos o Ensino Médio juntos. Espírita exemplar, em 2023, ele me disse ter realizado uma cirurgia espiritual à distância, através do Templo Espírita Tupyara, em paralelo ao tratamento médico prescrito para uma questão de saúde. Ele deixou claro a necessidade de prosseguir com todo o protocolo médico e jamais abandonar esses cuidados em função de uma terapia espiritual. Neste respeito, ele deu testemunho da sua fé: o Espiritismo, uma filosofia profundamente respeitável, desde a sua fundação, se recusa a abandonar a ciência. Enquanto universalista, nesse pormenor, encontro amplo diálogo com a Doutrina dos Espíritos: sob nenhuma hipótese, a ciência deve ser substituída por qualquer sistema de crença.
Ante o êxito desse amigo de longa data, resolvi acreditar. Segui as recomendações médicas à risca, e, em paralelo, agendei uma cirurgia espiritual à distância com o Templo Espírita Tupyara. Após realizar o procedimento, continuei em conformidade com o protocolo médico nos mínimos detalhes, me submetendo a rotina de banhos de sol para estimular a produção de vitamina D – e a consequente consolidação da fratura – e total imobilização da perna direita com a bota ortopédica. Nesse período, recebi uma mensagem inesperada.
Em 2023, estive em Fortaleza e participei de uma Gira de Umbanda, no Templo Abassá Bárbara Sueira, entidade liderada pela sacerdotisa Bárbara Amorim. Nesta acolhedora Casa Umbandista, Dona Maria Padilha, A Irmã Espiritual Mais Amada, se fez presente. Através de Bárbara, deixou mensagens claras e profundas. Foi uma ocasião alegre e bastante proveitosa. O respeito e a amizade desenvolvidos outrora entre eu e A Irmã, se tornaram ainda maiores, a partir desse encontro. Quase dois anos depois e sem pedir nenhum aconselhamento, em uma quarta-feira, 26/03/2025, às 15:44h, recebi uma mensagem de Bárbara: “Ela [Dona Maria Padilha] disse que está aí seu redor e vai dá tudo certo. Confie!” Animado, respondi que não ia dar certo, porque já havia dado. Aquela certeza da resolução reencontrou minha alma com toda a força. Enfatizo não ter realizado nenhum pedido a Bárbara e não ter informado a ela sobre o meu estado de saúde. Ela só irá tomar conhecimento, quando da publicação desse texto.
Algumas semanas depois, compareci ao médico com o raio-x. Fui encaminhado para a fisioterapia, haja vista a fratura estar consolidada. Emocionado, agradeci a Deus pela oportunidade de valorizar os aspectos básicos da vida, outrora ameaçados por ocasião desse momento desafiador. Preparar alimentos, higienizar o ambiente onde morava, alimentar as minhas filhas, tudo isso ficara ainda mais desafiador. Foram momentos delicados, pelos quais atravessei entregando a minha vida nas mãos d’A Grande Consciência Cósmica.
Ouvi o médico afirmar: “esse tipo de fratura [tipo B, longitudinal] dificilmente calcifica sem tratamento cirúrgico”. Com um sorriso, respondi: “mas, eu fui operado”. “Por quem?”, questionou o ortopedista. “Dr. Alexis Carrel [recebi a informação do Templo Espírita Tupyara, através de e-mail, dias antes da cirurgia espiritual, que seria esse o responsável pela minha cirurgia espiritual]”. O médico admitiu desconhecer. Respondi: “com certeza. Ele morreu há mais de um século”. Compreendendo o que eu acabara de mencionar, o bondoso ortopedista me disse: “olha, eu sou cristão e acredito que a sua fé ajudou você”. Segui para a fisioterapia no Centro Social Marta Alencar. Realizei o tratamento e retomei a atividade física ainda melhor que antes da fratura.
Apesar do equívoco quanto ao tempo de falecimento do Dr. Alexis Carrel – ele desencarnou há 81 anos –, conheci um pouco mais do Plano Maior. De uma pessoa céptica quanto as dimensões espirituais, tive mais uma vez a comprovação da sua existência e interação conosco. Mais ainda: tais planos extrafísicos se comunicam. Ora, como Bárbara poderia canalizar uma mensagem tão precisa de Dona Maria Padilha, se eu sequer evoquei a intervenção da Corajosa Guardiã? De fato, eu me recuso a pedir essa ou aquela coisa a Dona Padilha, por saber dos tantos afazeres desempenhados por Ela. Ainda assim, sem ser solicitada, caridosa e disposta, a Amiga Querida me ajudou, através de um recado encorajador. Pelo visto, Ela também se comunicou com a equipe espiritual do Dr. Alexis Carrel, haja vista ter afirmado que ‘tudo daria certo’. Essa perspectiva oferece mais uma prova do quanto as religiões devem estar cada vez mais dispostas a respeitar suas diferenças e dialogar entre si. Se aproxima o dia no qual a ligação com O Sagrado será Una. Nesse tempo, todas as crenças e não-crenças estarão interconectadas e os espaços para crimes em nome de Deus – como o racismo religioso – serão coisas do passado, ligados a seres irredutíveis à evolução espiritual, e, por isso, residentes em planetas ainda necessitados de evolução.
Conforme escrito em Hebreus 12:1, nós “[...] estamos rodeados por uma grande nuvem de testemunhas [...]”. Temos uma verdadeira família invisível em nosso entorno. Saber disso é reconfortante para um homem que desfruta dos cuidados fraternos desses Irmãos do Além. Gratidão a todas essas Consciências Amorosas!
IMAGEM: Wikimedia Commons



Gratidão, Soteroprosa!