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O FAROL VAI SE APAGAR: O Fim dos Eventos na Barra


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Um projeto de lei do vereador Maurício Trindade visa regulamentar a realização de eventos nos bairros da Barra e Ondina. A meta é proibir equipamentos sonoros - caixas de som, trios elétricos e amplificadores - em qualquer tipo de manifestação ou festa, com o objetivo de manter a paz e tranquilidade para essa região. No entanto, a votação está travada na Câmara de Vereadores afim de maiores discussões, apesar da pressão dos moradores pra que a pauta avance e decrete o fim definitivo da patuscada nesses dois logradouros, principalmente na Barra, muito mais habitada, movimentada, visitada, e bagunçada também. Apesar de tudo, o carnaval, as festas pré-carnavalescas Fuzuê e Furdunço, e a Marcha pra Jesus seriam mantidas. Demais eventos teriam que ser autorizados, mas não se sabe por quem, se por um grupo estabelecido, um Conselho formado, ou a Associação de Moradores. Ficaria permitido também manifestações políticas e feirinhas de artesanato.

 

O edil que propôs a lei cita aumento da criminalidade, acúmulo de lixo, consumo excessivo de álcool, prostituição infantil, tráfico de drogas, e danos à mobilidade urbana (problemas que só ocorrem na Barra,né?). E aí fica a pergunta: como um bairro com atrativos turísticos nacionalmente conhecidos (quiça mundialmente) como o Farol e o Porto da Barra pode limitar tantas celebrações? Numa cidade cujo mote publicitário é justamente a grandeza de suas festas e seu patrimônio cultural? Porque a cidade é de todos, não apenas dos habitantes locais. Se isso ocorre na Barra, pode gerar lei pra cidade inteira! E aí? Vai parar tudo? Ou vai levar tudo pra Boca do Rio, já que o povo lá tem tímpanos de ferro?

 

Santo Antônio Além do Carmo, Rio Vermelho, Saúde, Boca do Rio... tem eventos pra caramba nesses locais com ampla reclamação de moradores também. Poluição sonora é coisa séria por aqui. O som do vizinho pode perturbar muito mais e por muito mais tempo  - sem regulação! - do que um sambinha naquele bar perto do Cristo. Paredões são proibidos por lei estadual desde 2021, mas nada de cumprimento, se tornando medida banalizada. Projeto municipal pra decretar o fim de tamanho descalabro para os moradores da periferia, nada! Claro que isso é um problema maior pro Estado resolver, já que envolve políticas de segurança pública. Mas atenção especial pra Barra???

 

O local onde hoje está situado esse famoso bairro, já foi habitado por Tupinambás; Diogo Alvares, o Caramuru, e seus rolezinhos com Catarina Paraguaçu; o donatário Francisco Pereira Coutinho e sua Vila do Pereira; palco de revoltas contra holandeses; lutas pela Independência da Bahia; movimentações da Sabinada; as primeiras festas em homenagem a Iemanjá. As construções dos fortes de Santa Maria e São Diogo, indicando área importante de defesa da cidade, também são pontos turísticos e paisagísticos da cidade. Como é que um local desse pode ser considerado um bairro residencial comum?? Não há como a Barra ser um Horto Florestal - isolado, basicamente residencial, com serviços caros, e voltados para quem vive lá. O perfil urbano segue trajetórias históricas, sociais, e culturais muito diferenciados de outros pontos da cidade. E se a questão for poluição sonora... ah, ai estamos todos juntos numa mesma leva auditiva!

 

Não estou aqui defendendo que a Barra deve ser point badalado e não haja motivações pra sanar os acontecimentos festivos por lá, mas reiterando um local importante desde sempre e que é foco de visitas há muitas décadas, seja de um turista norueguês, seja de uma dona de casa de São Caetano. Todavia, parece que tem algum interesse meio escuso por trás desse projeto de lei. Será?

 

Isso porque viralizou em julho desse ano um vídeo do empresário Roberto Valverde sinalizando que a Barra poderia ser “como o Leblon”, bairro de classe média alta do Rio de Janeiro. Ele ainda afirma que a Barra está uma “esculhambação” e gostaria que “a malocada” se retirasse de lá. E que os negócios na região atraem prostitutas, traficantes, e “o farofeiro que pega a caixa de som pra ir pra praia”. Ou seja, ele estava propondo um plano de gentrificação, uma valorização do bairro através de permanência constante de pessoas com alto poder aquisitivo, selecionando, por via comercial, quem circula por lá, mediante aumento do valor de mercadorias. Que idéia boa, hein bacana? Só faltou mesmo propor separar a Barra do restante do município, se tornar uma ilha, fundar um principado, e só poder chegar até lá de iate ou helicóptero. Me bata um abacate, viu!!! Não tenho nenhuma convicção sobre a ligação entre essa fala e o projeto de lei, provavelmente não, mas que as duas podem se alinhar, acho até plausível.

 

 A própria lei discutida aqui pode ser ampliada e modificada aos poucos. Começa tolerando o carnaval e outras festas, depois restringe aqui, limita ali... Não dá pra ser pá-pum, de vez. É aconselhável doses homeopáticas... Se essa lei fosse aplicada há uns dez anos atrás, talvez não teria acontecido o famoso show de Caetano e Gil, ao lado do Farol, nas comemorações do aniversário de Salvador, patrocinado pela prefeitura; nem o encontro de grandes guitarristas brasileiros, também anos atrás, no mesmo batlocal.

 

Salvador é um inferno ruidoso? É. Cada comunidade que tome parte pra reduzir a parafernália? Sim. Mas lei municipal é pra abranger a todos, um plano unificado e diretor de mitigação sonora. Os moradores lá podem pressionar a Câmara para rápida aprovação, diferente da galera de Paripe ou Sete de Abril. A Barra pode ter evento pra cacete que pertube realmente o sossego de muitos. Mas vou dizer viu: preferia morar lá do que num bairro com baba na sua porta, bar transmitindo jogo de futebol, vizinho com um trio elétrico dentro de casa, pancadão final de semana,e amantes copulando debaixo da sua janela. Porque quem mora em bairro nobre não sabe o que é de fato um barulho!



FONTE:


 

 

 

 

SANTOS, Elisabete (org.); PINHO, José Gomes de; MORAES, Luis Roberto Santos; FISCHER, Tânia. O Caminho das Águas em Salvador - Bacias Hidrográficas, Bairros, e Fontes. Salvador: CIAGS/UFBA, 2010.

 

IMAGEM: Brasil de Fato

 

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