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O GESTO QUE GRITA: Quando o corpo se recusa a silenciar


*Stella Souza Rocha


Será que o conhecimento cabe apenas nas páginas de um livro ou o tratamos como algo que só ganha vida em datas comemorativas? Muitas vezes, a escola nos ensina que o saber está apenas no plano intelectual, tratando o corpo como uma máquina que precisa ser treinada, disciplinada ou silenciada na maior parte do tempo. No entanto, ao observarmos o chão das nossas quadras escolares, percebemos que o corpo é, na verdade, um arquivo vivo de histórias e uma escrita de resistência. Na Educação Física, esse entendimento exige que rompamos com a velha visão europeia e higienista, que historicamente buscou controlar e normatizar nossos gestos em prol de uma identidade elitista. É preciso resgatar a corporeidade como um território de memória, onde o movimento não é apenas exercício, mas uma linguagem simbólica que expressa quem somos.


Nas escolas da Bahia, essa mudança de olhar se torna ainda mais urgente, pois a corporeidade dos estudantes carrega uma ancestralidade diaspórica que desafia os currículos tradicionais. Como nos lembra Frantz Fanon, o racismo tenta impor uma inferioridade através da aparência, mas a prática pedagógica pode ser o caminho para que o aluno retome a posse de sua própria imagem e reconstrua sua autoestima. Ao movimentar-se, o estudante gera um diálogo direto com o mundo, transmutando a prática técnica em um exercício de autonomia e consciência. Aqui, o saber sobre o fazer ganha o mesmo peso da ação, revelando que cada gesto na quadra é, acima de tudo, um ato de afirmação identitária e uma escrita viva de resistência.


Essa descolonização do currículo ganha vida quando substituímos a repetição mecânica por práticas que fazem sentido para a nossa realidade. Ao praticar a Capoeira ou o Maculelê, o estudante não está apenas executando golpes ou ritmos, mas acessando tecnologias ancestrais de sobrevivência e liberdade. Da mesma forma, o samba de roda e

os jogos tradicionais deixam de ser vistos como folclore do passado para se tornarem conhecimentos vivos que organizam o tempo e o espaço de forma coletiva, longe da lógica competitiva e excludente. Entretanto, surge uma inquietação necessária: por que esses saberes tantas vezes ficam restritos ao calendário de 20 de novembro? Se a resistência que o corpo escreve acontece no cotidiano, tratar a cultura afro-brasileira como um conteúdo de data única não seria apenas mais uma forma de manter o silenciamento que fingimos combater?


É justamente ao romper com esse isolamento do calendário que a quadra da escola deixa de ser um pátio de recreação para se consolidar como um verdadeiro espaço de encontro e afirmação política. Quando o aluno compreende que o gesto é uma ferramenta de auto descoberta, ele deixa de ser um mero espectador da história para se tornar o protagonista de sua própria narrativa corporal. Reconhecer que o corpo carrega a nossa história é um passo decisivo para uma educação que seja, de fato, emancipadora e antirracista. Afinal, a corporeidade é a nossa primeira linguagem de existência , e conhecer o corpo é, acima de tudo, conhecer a força que ele carrega.


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*Mestranda em Estudos Africanos e Representações da África (UNEB) e professora efetiva da Rede Pública Estadual da Bahia. Possui licenciaturas em Educação Física e em História, aliando a aprendizagem criativa à articulação de práticas pedagógicas que valorizam a diversidade.



Referências:


BRACHT, Valter. Educação Física e ciência: cenas de um casamento (infeliz)? Ijuí: Unijuí, 1999.


FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Fator, 1983.


KUNZ, Elenor. Transformação Didático-Pedagógica do Esporte. Ijuí: Unijuí, 1994.


Imagem retirada do banco de imagem Pexels

2 comentários

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CB
há 3 dias
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Muito bom! Os saberes inatos ficam esquecidos em um sistema engessado. Ótimo resgate da identidade. Parabéns.

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há 3 dias

Parabéns pelo texto!

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