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O GRITO DO 2 DE JULHO ECOA EM 8 DE JANEIRO: Entre Hinos, Golpes, e a Luta por Liberdade




Há canções que não envelhecem. Algumas porque embalam saudades; outras, porque acendem alertas. O “Hino ao 2 de Julho”, cantado com orgulho na alma baiana, é uma dessas vozes que ecoam nas veias da história. Toda vez que ouço “com tiranos não combinam brasileiros corações”, sinto que o passado pulsa no presente,como se nos chamasse a não esquecermos quem somos.


É preciso termos a compreensão que a liberdade não é herança; é conquista diária. Na Bahia de 1823, a independência não foi decretada; ela foi arrancada. Gente simples, negra, indígena, pobre, enfrentou o império na ponta da faca e no grito da fé. Aquilo não foi só uma batalha vencida, foi a fundação de um povo que não se curva. O hino celebra isso: a coragem de um povo que decidiu ser livre mesmo quando tudo dizia não, pois ser livre é nunca se acostumar com a injustiça.


E então, em 2023, mais de dois séculos depois, vimos o oposto dessa coragem: o ataque à democracia orquestrado em 8 de janeiro. Um espetáculo grotesco de ódio e ignorância, travestido de patriotismo. Foi um ensaio de golpe que não vingou, mas feriu. E quem o capitaneou? Aquele que não hesitou em brincar com o fogo do autoritarismo. É necessário entender que não existe neutralidade diante da tirania: ou você resiste, ou consente.


Como pode um país que chorou seus mortos na ditadura militar permitir que os ventos do autoritarismo voltem a soprar? Onde estão os corações que não combinam com tiranos? Onde está o compromisso com a verdade, com a justiça, com o povo?


Entre a dor do passado e a ameaça do presente, há uma linha tênue costurada pela memória — ou pela sua ausência. Quando esquecemos os horrores que o autoritarismo já nos impôs, abrimos espaço para que ele retorne disfarçado de ordem, de progresso, de “salvação da pátria”. É nesse vácuo de consciência que discursos perigosos ganham palco e que a história, se negligenciada, se repete como tragédia. Assim, temos o hino ao 2 de Julho, que não é apenas música: é chamado. Ele exige memória, exige ação, exige postura, pois o silêncio diante da injustiça é a senha para a repetição da história.


Quando ele diz “até o Sol é brasileiro”, ele está nos lembrando que a esperança nasce em nós, mesmo nos dias tenebrosos. O Brasil já foi capaz de derrotar opressores, de vencer com coragem. E pode ser de novo. A partir dessa baianidade e brasilidade a democracia não cai. O 2 de Julho não é só uma data baiana. É uma convocação nacional. É o grito que ecoa nos becos, nos travessas, nas esquinas, nas salas de aula, nas trincheiras invisíveis do cotidiano. Calar é permitir. Lembrar é resistir. Lutar é viver.


Se preciso for, que cada canto desta terra repita: não como saudade, mas como compromisso: independência ou morrer. Porque nenhuma pátria é livre enquanto houver um só tirano impune.

 

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