O "HOMEM DO SACO" E O "COMUNISMO"
- Everton Nery

- há 2 dias
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Esta semana recebi a seguinte postagem no Whataspp: “A ameaça do ‘comunismo’ exerce o mesmo papel que ‘o homem do saco’ para adultos com capacidade cognitiva reduzida”. Á luz da hermenêutica crítica, buscaremos aqui desvendar os sentidos ocultos nos discursos, revelando seus efeitos simbólicos, ideológicos e sociais. A frase, embora provocativa, oferece uma chave poderosa para compreender os mecanismos de manipulação emocional e política presentes no debate público contemporâneo.
Começamos pelo termo “adultos”, no sentido jurídico e biológico, são pessoas que atingiram a maioridade, com suposta autonomia para tomar decisões e discernir o mundo ao seu redor. No entanto, ser adulto biologicamente não significa, automaticamente, estar em condição crítica de interpretação. A hermenêutica crítica, especialmente a partir de Paulo Freire, entende que a maturidade cidadã se constrói com formação, diálogo, acesso à informação de qualidade e liberdade para pensar. Ou seja, há muitos adultos cronológicos que, por exclusão social, cultural ou política, não tiveram oportunidade de se formar como sujeitos críticos.
Já “cognição” refere-se aos processos mentais relacionados ao conhecimento: atenção, memória, linguagem, raciocínio e resolução de problemas. Já a capacidade cognitiva crítica é a habilidade de interpretar informações de maneira analítica, contextualizada e reflexiva. Capacidade cognitiva crítica reduzida, portanto, não se refere a uma deficiência intelectual, mas a uma limitação no pensamento autônomo, muitas vezes provocada por desinformação, baixa escolarização, doutrinação ideológica ou uso acrítico de redes sociais. Na hermenêutica crítica, isso está relacionado àquilo que Paulo Freire chamou de “consciência ingênua”, ou seja, um estado em que o sujeito repete discursos prontos sem analisá-los, aceita explicações simplistas e teme aquilo que não compreende.

Já o "homem do saco" é uma figura folclórica muito presente no imaginário infantil brasileiro. Ele representa um medo difuso, um "castigo"; inventado pelos adultos para controlar o comportamento das crianças, especialmente para que “não saiam de casa”, “não desobedeçam”, ou “não questionem”. Na hermenêutica crítica, essa figura simboliza o uso do medo como instrumento de dominação pedagógica e moral, sem necessidade de prova ou argumentação. Ele não precisa existir de fato, basta que se acredite nele.
O comunismo, do ponto de vista teórico, é uma doutrina político-econômica que propõe a eliminação da propriedade privada dos meios de produção, o fim da exploração do trabalho, e uma sociedade baseada na igualdade e no bem comum. No entanto, no discurso de senso comum contemporâneo, especialmente em ambientes polarizados, o termo “comunismo” é usado como espantalho ideológico, esvaziado de conteúdo histórico, e transformado em símbolo do mal, da destruição da família, da perda de valores religiosos e da ameaça ao modo de vida ocidental.
Esse uso simbólico é análogico ao “homem do saco”: não importa o que o comunismo realmente propõe, pois o que importa é o medo que sua imagem provoca. Desta forma, a frase estabelece uma analogia potente: a ideia de "comunismo" em certos discursos funciona como o “homem do saco” no imaginário infantil. Ambos são símbolos usados para instaurar medo, impedir questionamentos e controlar o comportamento por meio da ameaça emocional.
Assim como o “homem do saco” impede a criança de explorar o mundo com liberdade, a ameaça do comunismo usada como rótulo impede o adulto de investigar criticamente o mundo social, político e econômico que o cerca. Quem lança mão dessa ameaça, geralmente, não deseja discutir política, mas frear qualquer compreensão ou transformação estrutural, especialmente aquelas que propõem igualdade, redistribuição de renda ou enfrentamento dos privilégios.
Do ponto de vista da hermenêutica crítica: o comunismo, aqui, deixa de ser uma teoria crítica para se tornar um fetiche do medo; o sujeito com cognição crítica reduzida repete discursos sem compreender sua origem ou função; o medo se converte em método de contenção social e política: quem teme, não pensa; quem não pensa, obedece.
A frase revela o que a hermenêutica crítica busca expor: o modo como estruturas de poder produzem sentidos para controlar corpos, mentes e afetos. O comunismo (transformado em rótulo) é menos uma ideologia e mais um dispositivo simbólico de manipulação, cujo efeito é o mesmo que o do “homem do saco”: bloquear a imaginação, desativar a crítica, garantir a obediência.
Portanto, refletir criticamente sobre esse uso da linguagem é um ato de resistência simbólica, uma recusa à infantilização política do povo, e um convite à escuta, ao diálogo e à reconstrução da linguagem como lugar de verdade, não de medo.
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Imagens retiradas do banco de imagens gratuito Pexels.com

Excelente! Assim como as crianças não precisam conhecer o homem do saco para teme-lo, também a "infantilizacao política" coloca o comunismo como esse que assusta sem caracterizar-lo.