A EMODEMOCRACIA E A ELEIÇÃO NO BRASIL

Vemo-nos assim obrigados a dar razão aos poetas, que gostam de nos retratar pessoas que amam sem o saber, ou que não sabem se amam, ou que acreditam odiar, e na realidade amam.[1] (Freud)
A emodemocracia é um conceito político que delineia uma forma de dinâmica política, na qual a esfera pública, a formação da opinião e a escolha eleitoral são atravessadas pelas mobilizações de emoções e afetos (como medo, esperança, raiva, ressentimento ou indignação), em detrimento da vontade deliberada, programática e factual do povo.
A última etapa das eleições de 2026, realizada no dia 25 de outubro no Brasil, nos alertou para muitas questões que vêm se manifestando há décadas na democracia. Uma delas é que o que decide uma vitória eleitoral não é a pura racionalidade, mas o humor. Sim, as urnas testaram as emoções e os sentimentos, ou seja, o humor das pessoas.
Na emodecmoracia, a razão parece ocupar um lugar secundário. Com isso, não quero dizer que razão e emoção não dialoguem, mas apenas que a razão tende a ficar mais apagada em períodos de fervor coletivo. Observem como se comportaram os candidatos mais bem-sucedidos. Ao analisar os líderes de votação, percebe-se uma questão importante: a mobilização deu-se pelo medo ou pela esperança.
Precisamos entender que o ethos liberal e iluminista, que coloca a razão no centro das escolhas, constitui uma ilusão quando aplicado à compreensão do comportamento eleitoral. Nenhuma campanha política pode apostar exclusivamente nisso, sob o risco de fracassar. Leiam abaixo as palavras de Joseph Shumpeter:
[...] Esse reduzido senso de realidade explica não apenas a existência de um reduzido senso de responsabilidade, mas também a ausência de uma vontade eficaz. O indivíduo fala, deseja, sonha, resmunga. E, principalmente, sente simpatias e antipatias. Mas, ordinariamente, esses sentimentos não chegam a ser aquilo que chamamos de vontade, o correspondente o correspondente psíquico da ação responsável e intencional. [2]
A emodemocracia contrapõe-se a concepção contratualista liberal, fundamentado na autonomia e na racionalidade. O uso das redes sociais digitais mostrou, mais uma vez, como essas plataformas podem ser utilizadas para criar realidades capazes de fisgar a alma emotiva do eleitor em potencial.
Vejamos o caso da campanha de Lula. Seu governo apresentou bons indicadores em setores como indústria, comércio e agropecuária, além de crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB).[3] Entretanto, esses resultados foram insuficientes para garantir a vitória no primeiro turno. Não basta ser técnico: é preciso mirar outra dimensão da existência humana.
A emodemocracia imperou na campanha de Lula, no segundo turno, por uma combinação de medo e esperança. Foram essas emoções que afetaram as pessoas. A mobilização nas redes sociais e nas ruas, com a participação de políticos jovens, universitários, secundaristas, influenciadores digitais e artistas, reforçou a percepção de que, com Flávio Bolsonaro, o Brasil poderia seguir um caminho sombrio.
As ruas e as redes digitais não apenas contribuíram para a vitória de Lula, mas também para a afirmação de valores associados aos ideais de inclusão social, mais próximos de uma concepção de liberalismo social, unindo pessoas de diferentes classes sociais. Em outras palavras, as pessoas apostaram mais em uma visão de mundo que vem sendo construída há anos do que em uma proposta "nova" de radicalização que privilegia os mais fortes e os mais afortunados na suposta loteria da natureza.
A emodemocracia imperou com o contéudo da empatia, da diversidade sociocultural e da inclusão social, ressoando no polo da esperança. A campanha de Lula da Silva reforçou esse sentimento. A atuação do grupo político mobilizado pelo deputado federal André Janones, as manifestações nas ruas, os cortes e vídeos compartilhados nas redes sociais, diariamente, a figura popular de Lula e o próprio debate televisivo deram expressão a esse espírito. Em contrapartida, o polo negativo apostou nas emoções do medo, pânico e raiva, bem como nos sentimentos de angústia e questionamento moral da figura de Flávio Bolsonaro.
Se há uma lição que essas eleições nos ensinaram, é que, para vencer em uma democracia de massas, na qual o voto do eleitor mediano exerce influência decisiva sobre o resultado final, não basta apresentar argumentos racionais ou indicadores econômicos favoráveis. É preciso mobilizar as pessoas, construir identidades coletivas e disputar o imaginário político e ideológico da sociedade.
A emodemocracia, como estratégia política, vem sendo empregada com êxito pela extrema direita internacional há anos. Sendo bem sucedida. A esquerda, porém, de modo geral, resistiu a essa forma de atuação, por acreditar na ideia de racionalidade endeusada no voto. E a direita democrática vai precisar buscar seu rumo ideológico se quiser retomar algum espaço relevante na esfera política mundo afora.
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Notas
[1] FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do Eu e outros textos (1920–1923). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.125. (Obras completas, v. 15)
[2] SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo e democracia. Tradução de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1961. p. 312 (versão digital).
[3] https://contextobrasil.com.br/indicadores-publicos-sobre-o-desempenho-dos-governos-lula-bolsonaro-e-milei/
Imagem: Germini


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