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O JARDIM DO VIZINHO




Entramos em transe! Uma hipnose coletiva tomou o mundo do capital! Representamos zumbis a vagar pela vida e buscamos uma referência que nos faça mais felizes, porque não acreditamos que somos. Tudo ao nosso redor nos indica que não somos, ou tenta insistentemente nos afirmar isso. Sendo assim, como podemos ser?


A TV, o Instagram, o Facebook, o TikTok e tantos outros meios de comunicação nos mostram que nossas roupas estão velhas, que nossos aparelhos eletrônicos encontram-se defasados, que a nossa querida geladeira até nos serve, mas não faz cubos de gelo em formato de coração ou possui compartimento para alimentos orgânicos não tocarem nos alimentos industrializados. Que nossos companheiros não são bonitos, atléticos ou sexualmente e financeiramente resolvidos como “deveriam” ser. Que nossa vida é insignificante partindo do princípio de que “muita gente pelas redes sociais estão alcançando seus êxitos” e você não. Somos doutrinados a acreditar que fracassamos, que não alcançamos ainda algo que muitas vezes nem sabemos o que é exatamente. Estamos constantemente desatualizados e sendo orientados por uma bússola com pontos cardeais frequentemente manipulados.


Vivemos num modelo econômico capitalista e isso por si já explica o quanto que lutamos diariamente, muitos de nós inconscientemente, para sermos melhores que o outro, para superarmos o outro, para tomarmos as posições de quem está, na pirâmide social, acima de nós. Os conscientes desse processo são obrigados a justificar essa louca busca diária como “a única saída” ou, se sucumbem, são sufocados, asfixiados e neutralizados para “servirem de exemplo aos demais”. O canibalismo, quer dizer, o capitalismo é incontestavelmente selvagem.


No início do mês de maio deste ano de 2023 a sociedade brasileira presenciou um ataque sorrateiro das Big Techs em meio à votação do Congresso Nacional sobre o PL2630 que cria a Lei de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet regulando, como acontece na vida real, as relações que ocorrem no mundo virtual. Esse movimento de ataque fez muitas pessoas, além dos legisladores e estudiosos sobre o assunto, questionarem até que ponto nós estamos reféns das grandes redes sociais. Muito mais que simplesmente uma opinião, a ousadia que as Big Techs tiveram para proliferar desinformações a cerca do projeto que ainda iria para votação e estava em discussão com a sociedade, despertou em alguns de nós a vontade de palpar o mundo e, mesmo que por alguns minutos, nos ensurdeceu diante das notas hipnóticas dessa maldita “flauta de Hamelin”.



A vida real parece nos suplicar por atenção que a imersão virtual toma de assalto, por necessidade do capital, a cada segundo dos nossos dias. Nos tornamos prisioneiros voluntários em um cárcere amistoso e feito à medida de quem ali se encontra. Negócios precisam disso. O medo, a culpa, a inveja são grandes e importantes aliados desse sistema tentacular.


Percebermos o mundo diante dos nossos olhos com uma visão pura e simplesmente voltada para interesses, relações e negócios nos faz deixar de olhar os detalhes mais simples e naturais que compõem a vida. Temos filhos e muitas vezes nem os tocamos, salvo para aquela foto postada em alguns Stories por aí. Temos companheiros, mas não olhamos muito nos olhos deles, não dizemos a eles o quanto são importantes e o quanto a companhia deles nos faz bem, pois estamos sempre desligados do que está ao nosso redor. Vidramos na vida alheia. Comentamos o carro novo de um amigo, a casa mobiliada de um parente, o emprego novo do ex-colega de trabalho, o sucesso do colega de infância que agora aparece todos os dias em destaque, como se tudo isso fosse realmente sinônimo de felicidade.


Serão necessários quantos sustos, quantas vezes precisaremos desipnotizar para nos religarmos novamente? Já que a morte é um fato inexorável, inflexível, implacável, inelutável e imprevisível como já diziam Raul Seixas e Paulo Coelho na música “Canto para a minha morte” de 1984:


“Qual será a forma da minha morte? Uma das tantas coisas que eu nao escolhi na vida Existem tantas... um acidente de carro O coração que se recusa a bater no próximo minuto A anestesia mal aplicada A vida mal vivida A ferida mal curada A dor já envelhecida O câncer já espalhado e ainda escondido Ou até, quem sabe, O escorregão idiota num dia de sol A cabeça no meio-fio...

Morte, morte, morte que talvez

Seja o segredo dessa vida.”


Se a morte for, como disseram os compositores, realmente o segredo dessa vida, felicidade talvez seja algo que não alcançaremos plenamente em vida, portanto viver verdadeiramente torna-se urgente!


FONTE:






IMAGEM: Magic Gramas

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2 Comments

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Preto Paulo
Preto Paulo
May 27, 2023
Rated 5 out of 5 stars.

Uma reflexão esplêndida de cotidianos vazios e imersos nesse grande emaranhado do desmoronamento do caos.

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Muito obrigado. Fico feliz por ter alcançado você. 👍🏼

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