O LUGAR, O TEMPO E OS ORIGINÁRIOS: Breve ensaio sobre os povos indígenas na sociedade brasileira - Parte III

Ao focar nas nuances da escravização indígena, das “guerras justas” que os obtinham e das semelhanças e contrastes desse grupo com os europeus, africanos e seus descendentes, é possível traçar um cenário no qual, mesmo em condição de cativo, os povos indígenas também podiam buscar reivindicações. Mais do que isso, os registros de Luma Ribeiro Prado (2019) rememoram de um Brasil, com todas as suas contradições, também foi construído pelos povos originários e seus descendentes (mesmo quando muitos são invisibilizados ou lidos como parte de “um não lugar” ou uma “não cultura”).
Uma ilustração de desafios étnico-raciais é demonstrada por da Cunha (2020) com seu conceito de “mundo saturado de várias presenças”, o qual se refere ao choque entre pontos de vista gerados por crenças diferentes em uma mesma sociedade. Enquanto a autora articula esse termo a partir de uma comunidade surinamesa, a “saturação” descrita é possível de ser identificada a diversas outras sociedades pós-coloniais das Américas, cuja dinâmicas ainda ressoam, até certo ponto, os projetos do mercantilismo europeu, onde a estratificação étnica e de classe gerou abismos sociais, refletidos não apenas em modelos econômicos baseada em extração de matéria-prima, como também na maneira como os indivíduos percebem (ou são condicionados a perceber) as heranças culturais em suas próprias culturas (não sempre, mas normalmente, colocando a herança europeia e cristã em um pedestal de superioridade). O exemplo oferecido por Cunha em “Vivendo em Mundos Saturados de Várias Presenças” (2020; Etnográfica; p. 401-425) remete ao atrito gerado no seio de uma comunidade afro-surinamesa, no qual os seguidores de religiões cristãs-carismáticas se opuseram à chegada de instalações artísticas, cuja simbologia remetia fortemente às religiões tradicionais surinamesas (herança de numerosos povos indígenas e africanos).
Embora pareça provinciano, trata-se de um conflito fácil de se associar a diferentes projetos de revitalização culturais em diferentes países da América, em especial o caso do Brasil: um lembrete dos desafios que a Antropologia e a Educação precisam enfrentar em sua busca por valorização de múltiplos saberes, sendo necessário lembrar que as comunidades com as quais interagem não são monólitos e sempre possuem nuances a serem compreendidas, estabelecendo uma comunicação digna com o grupo cultural em questão, enquanto seu patrimônio cultural é valorizado. Na antropologia contemporânea, especificamente, acredito que esse argumento possa ser adaptado para o estudo de povos que, historicamente, lidaram com processos de dispersão de suas comunidades e por interações com a sociedade não-indígena ao redor, significando que Diversos povos do Brasil (dentre eles os Pataxó, os Guarani-Kaiowá, os Krenak) passam longe do “estereótipo de povo isolado”. Os antropólogos, devem estar atentos para compreender seu processo de retomada da cultura, principalmente o significado que atribuem ao resgate da própria identidade.
Os antropólogos, no contexto que implica o trabalho de comunicação dos povos indígenas, podem exercer o papel de aliados e comunicadores, especialmente contando que não são posições tão antagônicas como eram há poucas décadas: uma geração de pesquisadores indígenas na antropologia, em outras ciências sociais e em outros cursos universitários podem contribuir para uma nova visão que transmita suas perspectivas, sem necessariamente contar com porta-vozes externos. Cabe citar Gersem Baniwa (2020) em sua carta para “as pessoas que sonham com um novo Brasil”, o qual explora sua percepção da cosmofobia” e o respeito às comunidades indígenas como coletividades descendentes de povos originários, ligadas a essas culturas: compreensão de legados próprios.
O aspecto econômico é uma frente, com muitos brasileiros influenciados por um desenvolvimentismo, como retratado por Denilson Baniwa em “sua carta para o parente que vive na Terra Indígena Marte” (2020), precisa em ilustrar a ideia de desenvolvimento frequentemente crua que ocupa o imaginário: uma expectativa persistente em muitas sociedades “ocidentais” de uma ética de trabalho distorcida, onde pessoas e elementos naturais são enxergados apenas por seu valor produtivo, com as consequências da extração sendo menosprezadas. No caso dos brasileiros, a influência dessa mentalidade se torna mais evidente pela forte influência de um setor agrícola retrógado, bem como por uma campanha sobretudo militar, na qual os povos indígenas foram classificados como “inimigos internos” e suas terras, como fontes de recursos estagnados, sujeitas a “interferência estrangeira”.
Citando apenas de relance, algumas das consequências desses discursos têm sido a expropriação histórica de territórios indígenas e trabalho militar forçado, embora a votação de leis que prejudicam a autodeterminação dos povos seja ligada mais diretamente às instituições contemporâneas. Vendo com mais atenção, é possível identificar essa mentalidade e suas ramificações na sociedade brasileira como uma preocupação constante não apenas das comunidades que delimitam suas identidades com base nos povos originários, mas também dos quilombolas (de identidade pautada por uma herança pós-diaspórica, porém alternativa à escravização), bem como das comunidades tradicionais (como ribeirinhos e quebradores de babaçu, de identidades pautada por relações de produção alternativas). A sociedade brasileira como um todo pode potencialmente participar desses questionamentos, na busca por alternativas à “modernização conservadora”, quando não resulta em qualidade de vida nem superação de desigualdades estruturais.
(Fim da terceira parte)
Imagem retirada do site Alô Alô Bahia.


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